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Sem mais nem menos

Assim, sem mais nem menos, o som dispersou-se sozinho. Nem uis, nem ais, nada mais. Cada um seguiu seu caminho. Assim, sem mais nem menos, o momento se escondeu entre gestos antigos, se perdeu, Evitou o que anoiteceu. Assim, sem mais nem menos, Da intimidade restou distância, Da saudade ficou ânsia, Do cuidado, inconstância. Assim, sem mais nem menos, Sombra virou o que era vivo. Deixou de arder, sem aviso, Com você e comigo. Em linhas não traçadas Quase planos, quase nada O silêncio se instalou, sabemos Assim, sem mais nem menos. Raquel Abrantes

Queria eu

Queria eu morrer em toda parte Desse assassinato mútuo, delirante, cotidiano Sem pensar que há vida após o tiro Mirado, definido. Preferido. Morte da matéria fraca, tentada a morrer iluminada, a todo momento, Na cegueira imóvel de um instante, por gosto a apurado veneno. Queria eu morrer entre palavras Acentuadas, insensatas, altivas De falas arfantes e instigantes Perante a vontade consumida. Quantas vezes já nos matamos Dessa morte repetida, curtida Esquecendo um no outro a própria vida Crime em que culpados somos. Queria eu morrer torturada Para um instante de realidade infinita Verdade intensa, derramada, De uma morte bem matada. Por que deixar de nos matar, nesta vida, se vida com vida se renova? Sobrevivência é um instinto que venera a vida, e não a boa morte. Raquel Abrantes

Cores e Dores

Era toda a dureza das expressões tipicamente masculinas que arranhava a paz de Linda. Fosse apenas por um olhar faminto, daquela fome comum a homens e mulheres que se desejam, e levem peremptoriamente à formação de um casal, depois uma família. As intenções, contudo, eram embuçadas pelas memórias torrenciais da agressividade do homem. A agressividade da cobiça por sua beleza, que remexia suas entranhas cena a cena daquele dia inseparável de sua existência. Linda dormia com sua camisola de laços cor-de-rosa quando seu tio girou a maçaneta. A luz do corredor gerou estranhamento do sono de uma menina de 12 anos, já entupida de amores cinematográficos, mas ainda confortada pelo urso de pelúcia Geraldo, que velava seus sonhos toda noite. Seus pais viajaram e o tio se ofereceu prontamente para servir de babá pelo período de 15 dias corridos. Linda adorava o tio Fred, que costumava levá-la a passeios, jardins zoológicos, parques de diversões e circos desde sua primeira infância. Frederico...

Quero que o mundo gire

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Quero que o mundo gire. José adorava brincar com o globo terrestre que ganhou da madrinha de aniversário. Ele rodava a bola, fechava os olhos e apontava o indicador esquerdo, porque é canhoto. Sempre descobria um lugar diferente, um nome estranho, que tornava cada vez mais vasto seu conhecimento de geografia. E no lugar dos livros, o globo se fez professor e brincadeira, na primeira exploração de mundo do menino. José começou a se fazer outras perguntas, como o que significavam aqueles nomes que as pessoas deram para pedaços de terra boiando no azul. E suas pesquisas virtuais o levaram a outros cantos, outras dimensões, outras formas de vida. Outros nomes que pensavam, sem aquela inércia estampada da representação. O movimento que fazia o mundo girar era causado por uma pessoa: ele. E as pessoas também ganharam sua atenção. Suas peculiaridades e mundos individuais. Os países já não tinham tanta importância para José, com sua impossibilidade de movimento, de transgressão, de ...

Limites

Os limites chegam quando menos se espera. Das coisas que deixamos de fazer, enquanto fazemos outras, do tempo que deixamos de contar, enquanto ele passa. Se ele passa, é porque estamos apreciando cada momento. E é bom o tempo passar... como é... Quero que passe com toda a beleza de gestos fotografados na mente. Quero que passe trazendo as saudosas descobertas de segundos atrás. Aprimorando a intensidade de um minuto... Que passa. E as coisas mudam de lugar. Algumas vão para o armário e outras ganham a estante da sala. Tudo conforme o riso daquele dia... Que logo acaba e pede por mais um. E assim conseguimos enganar a velhice, que vai chegar, eu sei... Foda-se. Tenho tempo para perder... enquanto ganho algo para me lembrar. Raquel Abrantes

No meio

Quatro cantos no recinto. E nenhum deles era meu. Quatro quadros na parede, todos misturados em mim. Mergulhava nas gravuras e não me encontrava em nenhuma delas. Apenas surfava nas nuvens de Van Gogh e me espraiava nos desenhos de outros menos conhecidos. Conhecer... lançar-se em uma aventura traiçoeira, por sombras de trilhas num pedaço de papel. Quase me perdi nos caminhos pontilhados de impressionistas, mas voltei ao concretismo da sala. A fechadura ilude garantir a segurança de um lar eventualmente explorado. Nenhum trinco é capaz de me tornar refém, nem que seja de mim mesma. Se fosse isso, abriria a porta imediatamente. Afinal, a chave é minha, pelo menos por enquanto. Enquanto pago o aluguel, o condomínio e a conta de luz. Infelizmente, a luz apagou, como tudo que deixa de funcionar, assim, sem mais nem menos, e exige um movimento meu. Como o telefone que parou de tocar e o gás que nada mais acende. Aliás, o cansaço se instalou no meio. E não quer deixar de concentrar a energi...

Quando o pensamento fica no canto

Hoje recebi um comentário anônimo dizendo que um blog estava copiando os meus textos e assumindo a autoria dos mesmos. Primeiro, fiquei chocada com a falta de vergonha de alguém que publica o meu texto três dias depois de mim. Então, fiquei indignada pela ausência de ética. Mas, no final das contas, eu tive pena. Tive pena desses dois, Thiago e Pingo, que assinavam o blog O Canto do Pensamento, por sua total inabilidade para a escrita. Deixaram o pensamento em algum canto, porque pensar não é para qualquer um, e percorrem a blogosfera atrás de rabiscos sinceros, com algum valor, para substituir suas incompetências existenciais. Aliás, o blog deles deveria se chamar O Canto do Pensamento DOS OUTROS. Eles gostaram tanto da Pura Essência do Ser que esqueceram de “ser”, criando um blog de mera reprodução. Ao descobrir a infração de direitos autorais (denunciada pela própria data de postagem), deixei comentários para os donos do blog e para todos os leitores deles. Cuidado! Você pode estar...