domingo, 13 de setembro de 2009

No meio

Quatro cantos no recinto. E nenhum deles era meu. Quatro quadros na parede, todos misturados em mim. Mergulhava nas gravuras e não me encontrava em nenhuma delas. Apenas surfava nas nuvens de Van Gogh e me espraiava nos desenhos de outros menos conhecidos. Conhecer... lançar-se em uma aventura traiçoeira, por sombras de trilhas num pedaço de papel. Quase me perdi nos caminhos pontilhados de impressionistas, mas voltei ao concretismo da sala. A fechadura ilude garantir a segurança de um lar eventualmente explorado. Nenhum trinco é capaz de me tornar refém, nem que seja de mim mesma. Se fosse isso, abriria a porta imediatamente. Afinal, a chave é minha, pelo menos por enquanto. Enquanto pago o aluguel, o condomínio e a conta de luz. Infelizmente, a luz apagou, como tudo que deixa de funcionar, assim, sem mais nem menos, e exige um movimento meu. Como o telefone que parou de tocar e o gás que nada mais acende. Aliás, o cansaço se instalou no meio. E não quer deixar de concentrar a energia restante a seu bel-prazer.


Raquel Abrantes

7 comentários:

  1. Fechaduras...
    Todas portas não deveriam ter!

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  2. Nuvens de Van Gogh, um passaporte para fugir dos quatro cantos do mundo.
    Bjs
    Carlos Eduardo

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  3. não sei você mas as vezes eu sinto que não pertenço a lugar nenhum. a musica, uma pintura conseguem me levar mais perto o possível do que chamam de casa por ai.
    Adorei seus textos, continue escrevendo!
    um prazer

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  4. e essa angústia de viver, essa busca pela pura essência do ser

    bjs

    http://ocaroco.wordpress.com/

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  5. a ausência de um espaço que seja apenas nosso e o vazio que isso nos provoca muito bem descrito neste teu texto

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  6. No meio do mundo, de repente, sozinho.

    Não deixe de escrever.

    ;)

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  7. Belíssimos textos encontrei aqui.Voltarei. Com toda certeza! Parabéns pelo blog!
    Bjs

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