quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Quero que o mundo gire


Quero que o mundo gire. José adorava brincar com o globo terrestre que ganhou da madrinha de aniversário. Ele rodava a bola, fechava os olhos e apontava o indicador esquerdo, porque é canhoto. Sempre descobria um lugar diferente, um nome estranho, que tornava cada vez mais vasto seu conhecimento de geografia. E no lugar dos livros, o globo se fez professor e brincadeira, na primeira exploração de mundo do menino.

José começou a se fazer outras perguntas, como o que significavam aqueles nomes que as pessoas deram para pedaços de terra boiando no azul. E suas pesquisas virtuais o levaram a outros cantos, outras dimensões, outras formas de vida. Outros nomes que pensavam, sem aquela inércia estampada da representação. O movimento que fazia o mundo girar era causado por uma pessoa: ele. E as pessoas também ganharam sua atenção. Suas peculiaridades e mundos individuais.

Os países já não tinham tanta importância para José, com sua impossibilidade de movimento, de transgressão, de apoio para suas dúvidas. E daí? Não eram nada mais que uma reunião de pessoas. Uma reunião limitada por suas fronteiras, bandeiras, disputas. Mas as pessoas que importavam para José estavam distribuídas por diversos países, o que tornava impossível tomar um partido. E o menino queria fazer o mundo girar... Em sua mente, os países mudavam de lugar, iam e vinham conforme o vento, dando espaço para as personalidades transitarem livremente, até seu encontro, para depois, apenas depois, lembrarem sua nacionalidade. Foi quando ele percebeu que todos os pedaços de terra se misturavam ao girar o globo, e suas diversas cores se tornavam um grande borrão, indefinido, como a natureza do movimento.

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domingo, 20 de setembro de 2009

Limites

Os limites chegam quando menos se espera. Das coisas que deixamos de fazer, enquanto fazemos outras, do tempo que deixamos de contar, enquanto ele passa. Se ele passa, é porque estamos apreciando cada momento. E é bom o tempo passar... como é... Quero que passe com toda a beleza de gestos fotografados na mente. Quero que passe trazendo as saudosas descobertas de segundos atrás. Aprimorando a intensidade de um minuto... Que passa. E as coisas mudam de lugar. Algumas vão para o armário e outras ganham a estante da sala. Tudo conforme o riso daquele dia... Que logo acaba e pede por mais um. E assim conseguimos enganar a velhice, que vai chegar, eu sei... Foda-se. Tenho tempo para perder... enquanto ganho algo para me lembrar.

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domingo, 13 de setembro de 2009

No meio

Quatro cantos no recinto. E nenhum deles era meu. Quatro quadros na parede, todos misturados em mim. Mergulhava nas gravuras e não me encontrava em nenhuma delas. Apenas surfava nas nuvens de Van Gogh e me espraiava nos desenhos de outros menos conhecidos. Conhecer... lançar-se em uma aventura traiçoeira, por sombras de trilhas num pedaço de papel. Quase me perdi nos caminhos pontilhados de impressionistas, mas voltei ao concretismo da sala. A fechadura ilude garantir a segurança de um lar eventualmente explorado. Nenhum trinco é capaz de me tornar refém, nem que seja de mim mesma. Se fosse isso, abriria a porta imediatamente. Afinal, a chave é minha, pelo menos por enquanto. Enquanto pago o aluguel, o condomínio e a conta de luz. Infelizmente, a luz apagou, como tudo que deixa de funcionar, assim, sem mais nem menos, e exige um movimento meu. Como o telefone que parou de tocar e o gás que nada mais acende. Aliás, o cansaço se instalou no meio. E não quer deixar de concentrar a energia restante a seu bel-prazer.
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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Quando o pensamento fica no canto

Hoje recebi um comentário anônimo dizendo que um blog estava copiando os meus textos e assumindo a autoria dos mesmos. Primeiro, fiquei chocada com a falta de vergonha de alguém que publica o meu texto três dias depois de mim. Então, fiquei indignada pela ausência de ética. Mas, no final das contas, eu tive pena. Tive pena desses dois, Thiago e Pingo, que assinavam o blog O Canto do Pensamento, por sua total inabilidade para a escrita. Deixaram o pensamento em algum canto, porque pensar não é para qualquer um, e percorrem a blogosfera atrás de rabiscos sinceros, com algum valor, para substituir suas incompetências existenciais. Aliás, o blog deles deveria se chamar O Canto do Pensamento DOS OUTROS. Eles gostaram tanto da Pura Essência do Ser que esqueceram de “ser”, criando um blog de mera reprodução. Ao descobrir a infração de direitos autorais (denunciada pela própria data de postagem), deixei comentários para os donos do blog e para todos os leitores deles. Cuidado! Você pode estar sendo copiado! Com o protesto de alguns amigos também, os meus três textos foram deletados de lá... E o tal do Pingo chegou a postar um comentário por aqui, pedindo para eu não ficar chateada com o uso dos meus posts, que faria parte do projeto do blog publicar textos de outros. Acredito que a permissão do autor deva ser concedida, assim como o crédito, se fosse realmente o caso.
E aí? Esse post aqui vocês vão reproduzir? Não vão, não... acabaram de deletar o blog...
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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Estranhos passos

Estranhos passos que damos às vezes na vida. Uns nos levam para frente, outros nos fazem voltar atrás... E, às vezes, perdemos a direção. Ficamos parados esperando o sinal abrir, e não conseguimos atravessar, mesmo quando está verde lá no alto. Olhamos o fluxo de carros, os transeuntes seguindo para seus compromissos e nada nos faz andar. Sinto falta das suas risadas. Estranhos passos que às vezes não damos. A ordem para que as pernas avancem não sai de nossos cérebros. É como se déssemos tantas voltas dentro da cabeça que o cansaço fosse transmitido aos músculos, sem terem chegado a se movimentar. Passamos por lojas, pessoas, momentos, supermercados, que cruzam nossos passos, e exercem seu efeito catalisador. Acrescentam, modificam. Mudamos o olhar, a opinião, o gesto, a entonação da voz, a cor do cabelo, o modelo da roupa, a parte lida do jornal, a forma de se divertir. Às vezes, somos levados pelos movimentos do mundo, inexplicáveis translação e rotação do estado das coisas, apesar da impressão de estar sempre no mesmo lugar. Quando algo é muito bom, é muito ruim quando é ruim. Estranhos passos que damos às vezes na vida. Podemos começar a andar sem ao menos perceber, seguindo como os demais transeuntes, em direção aos compromissos. Deixamos de observar o fluxo dos carros e só esperamos o sinal abrir para avançar finalmente. Entre caos e ordem; pano de fundo, este, que nos mantêm girando. Nem que seja dentro da cabeça.
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domingo, 23 de agosto de 2009

Receita

Tentei juntar as letras para criar uma receita nova. Misturei diversos temperos, deixei em fogo brando, dava umas mexidas de vez em quando. Recendia a peixe. Não era o sabor que eu queria. Joguei tudo fora e arrisquei outras palavras. Começou bem, mas o sujeito não se entendia com o objeto. Mudei a ordem de adição dos ingredientes para diluir as adversidades. Mesmo assim, passou do ponto. A fome surgia cada vez maior, sem identificar o que agradaria ao paladar. Talvez algo que venha pronto... Lembro da despensa, que transborda inspiração, me confortando toda vez que as frases ameaçam nunca mais vir para o jantar. O roteiro remete a um namorado ciumento, que reluta, abandona, mas retorna quando menos se espera. Desligo o fogo e me entrego aos saborosos pratos feitos por outros, renomados chefs que, quem sabe um dia, possam me ensinar a cozinhar de verdade.
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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

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Quando galhos se quebram com o vento da noite, as brisas tornam-se fundamentais ao cenário, acariciando as folhas, metamorfoseando sua dança ao sabor das variadas coreografias. A inércia facilmente se instala, em meio ao turbilhão de conjecturas formadas em algum lugar. Nada de luar para este céu aqui, que aceita apenas o universo. Constelações inauditas de tanta exasperação ao lado da nudez dos astros. Asteróides comemoram levando a notícia aos planetas, sem causar danos à vida local. Apenas como um toque de sorte nesta nova jornada, de cumplicidade através do tempo. Tempo. Os minutos sempre nos traem quando se trata de felicidade.

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