Postagens

A rua

Imagem
Um dia normal de trabalho continuava na minha semana. Era quase a hora do almoço e, enquanto imaginava o que haveria no cardápio, verificava as desordenações da minha caixa de e-mails. Entre um spam e outro, bocejos me irrompiam até o esticar dos braços. Simples movimento com alto teor de liberdade incorporado. Às vezes precisamos intercalar ilusões às necessidades da vida. Contava tempos sem ver o dono daquela voz... e as perspectivas de reencontro viravam a esquina na minha memória, fazendo um desvio na contramão. Imediatamente meu rosto denunciou as marcas de expressão causadas pelo sorriso. Lembrei de nunca ter considerado as minúcias das ruas paralelas à minha e aqueles crassos e-mails remetiam às vias transversais do meu passado, tencionadas a interditar a passagem. Depois do inesperado chamado, os bocejos descansaram e a disposição assumiu a agenda, seguindo o calor da calçada. A fome de luz não seria suprida pelo cardápio, mas o estômago precisa de algo para digerir. É c...

Três segundos

Imagem
Um vento gélido transpassa minha pele, enquanto me detenho ao fato testemunhado. Como se no decorrer de três segundos, a vida perdesse o sentido, ou ganhasse. Prévios instantes nos quais pensava eu no olhar vindo daquela direção, se era insolente tentando ganhar espaço em meus devaneios, e me aturdiu, até mesmo me fez cogitar a hipótese de olhar de volta. Isso logo depois de ter encarado meus desafios em relação à fragilidade do meu corpo, em contraste aos sonhos que a imaginação pintou com todas as cores possíveis, não seja esta a questão. De onde vinha aquele medo... não sei exatamente. Sei que me senti desprovida de apoio, além do chão em que equilibrava minhas pernas. Nada podia evitar o tão súbito encerramento do meu capítulo. Tentamos sempre iludir o inevitável, mas eu não tinha esta pretensão. Apenas delineava que não poderia ter sido só isso. Na verdade, poderia, e esta possibilidade corroia minhas possibilidades. Uma a uma. Em tão curto intervalo, lembrei de um mi...

Labirinto

Imagem
Como a costura de uma meia-calça de antigamente, vai do calcanhar até as nádegas. E das nádegas até o calcanhar. Olhar vertical insinua o desvio da direção já traçada entre as rotas do dia e da noite. A percepção alcança a intensidade supérflua do relance, mas os olhos insistem em retornar, abertos por tremores enfeitiçados. Tenacidade de uma cintura cingida em carmim de outras terras. Lufadas traiçoeiras ameaçam levantar o vestido da razão, dando margem à imaginação das coxas insanamente vermelhas de tecido. Os conúbios mistos disfarçam sua reza, enquanto gravetos são atirados na lareira do ascetismo. Labirinto de emoções empareda a saída pela esquerda, trilha das desrazões, justificadas em um longo decote ocultado. A atração desenfreada entre o positivo e o negativo, o bom e o ruim, o branco e o preto. Sendo o branco a reunião de todas as cores do espectro, e o preto, a ausência de luz. Uma linha tênue divide o horizonte entre o real e o reflexo, como num espelho d’água. Intenç...

Insensibilidade

Imagem
Visão aérea de infrutíferos campos compelidos ao reinante descaso em toda a sua impessoalidade. Acrobacias inúteis no perímetro do horizonte passam despercebidas no transcorrer de hábitos inertes. Costumes insensatos trancafiavam o vírus do sentimento, nunca antes contagiado. Em sua mais pura inutilidade, o ar raro efeito tem sobre a consciência da respiração. Diafragma dilatado e contraído em movimentos involuntários. Como o pôr-do-sol. Quereres enigmáticos divagam aleatoriamente no oceano de teorias desintegradas. Da cruz retiro a dor, que tampouco tangencia os sentidos encobertos pela capa da alma, vestimenta rudimentar criada pelos alfaiates da resignação, nos moldes das grades carcerárias das emoções. Soslaios se revezam entre o esquerdo e o direito, atrás e adiante, norte e sul, sem bússola para consultar. Imaginando uma rota de fuga do inóspito reino da insensibilidade. Abstrações tornam-se o último refúgio da sanidade, ao lado da insistente neurose disseminada. Indiferente...

Acabamento

Imagem
Leu em mim toda a história não-narrada, nas figuras imersas em porvir. Desde o será até onde teria ido, acaso as nuvens transpassassem o azul do remoto céu. Alheio a contrastes no cetim, juntou as pontas do tecido bordado (em autoconhecimento). Colcha de retalhos formadores de instigante complexidade. Na beira, foi trazendo consigo todas as alegrias adormecidas nesta cama, pouco a pouco, sem a velocidade do que ignora o horizonte. E entre desenhos e enlevos, pintou sua forma, guardada em algum canto de satisfatórias recordações. Embevecido de indescritível colorido, o tecido experimentou outros tons, degradês crescentes de euforia, ladeando o belo acabamento de uma junção reformulada dia após dia... Raquel Abrantes

Inverno

Olhar vertiginoso cruza minhas esquinas toda vez que a natureza permeia possibilidades. Propostas moradoras de outros países, delimitados pelos espinhos das flores concedidas no efêmero toque de recolher. Alinhavo meus poréns nas suas dúvidas e teço nesta lã o inverno que virá me visitar sozinho, trazendo arrepios pelos quais me aventurei despretensiosamente, na esperança de acertar. Deserto de razões me espreita, curioso atrás da montanha, e vou leve, fugaz, como nunca tivesse estado lá. Calem-se as buzinas enquanto o silêncio predomina a paz que precisa acontecer. Alerto o mar para me receber, inteira, calma, cortante como a luz opaca. Vívida rasgo, vergo e ilumino... o além-de-mim-perceber. Raquel Abrantes

Não foi tão bom assim

Imagem
Não foi tão bom assim, ele disse, apenas abri a porta que estava na frente, sem a outra fechar. Criei um canal entre minhas vontades, desconsiderei as chaves diferentes que deveria usar. Deixei o vento invadir a passagem, fazendo a porta bater, esconder o que queria olhar. O peso do chaveiro rasgou meu bolso e quase fiquei sem portas para entrar. As viagens imaginadas para algum destino foram trancadas do outro lado, junto ao menino que não pude conhecer, nem tive chance de brincar. Tudo tem seu momento, umas coisas mais, outras, menos tempo, depende do acordo e se aguento a carga que devo carregar. Todavia não consigo disfarçar meu contentamento assim que você esbanja alegria em seu modo de andar. Faz parte da natureza masculina, não posso evitar. Não foi tão bom assim... mas apareça quando puder... E sua inspiração, como está? A editora voltou a te procurar? Estou chegando lá, começo a escrever já, já, você vai ver, se a porta entreaberta ficar... Sabe que te respeito, só não...