sábado, 30 de maio de 2009

Não foi tão bom assim



Não foi tão bom assim, ele disse, apenas abri a porta que estava na frente, sem a outra fechar. Criei um canal entre minhas vontades, desconsiderei as chaves diferentes que deveria usar. Deixei o vento invadir a passagem, fazendo a porta bater, esconder o que queria olhar. O peso do chaveiro rasgou meu bolso e quase fiquei sem portas para entrar. As viagens imaginadas para algum destino foram trancadas do outro lado, junto ao menino que não pude conhecer, nem tive chance de brincar. Tudo tem seu momento, umas coisas mais, outras, menos tempo, depende do acordo e se aguento a carga que devo carregar. Todavia não consigo disfarçar meu contentamento assim que você esbanja alegria em seu modo de andar. Faz parte da natureza masculina, não posso evitar. Não foi tão bom assim... mas apareça quando puder... E sua inspiração, como está? A editora voltou a te procurar? Estou chegando lá, começo a escrever já, já, você vai ver, se a porta entreaberta ficar... Sabe que te respeito, só não levo jeito pra essa coisa de me humilhar. Deixo o tempo assumir o rumo dos pensamentos que preciso sublimar...


Raquel Abrantes

8 comentários:

  1. Huauhauhauh!!!! Como gosto de ler isso!
    Sempre é bom pra alguém!!!!!!!

    bjinhos!

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  2. marcelo ambrosiodomingo, 31 maio, 2009

    Belo, simples e sutil.

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  3. Vc rimou em prosa. Que máximo! E outra, escreveu em voz masculina. Que super-máximo!

    Sabe, deveriamos acreditar que as pessoas são boas, mas não, elas comentem pequenas maldades que nos deixa assim: "com uma carga enorme para carregar". Quando não é tão bom a cicatriz demora fechar!

    Bju grandão e carinhoso!

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  4. Maravilhoso este Beckett que te ronda, ilumina, silencioso, hermético, e estas portas beirando ao sublime, girando diante do nada vertiginoso.
    Maravilha de texto,
    Bjs
    Carlos Eduardo

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  5. Só hoje encontrei ocasionalmente suas palavras em frases lindas... verdadeira arquitetura textual. O vento se mistura aos seus suspiros, assobia nas esquinas da alma e nos contornos do seu corpo que vou imaginando na escuridão luminosa do meu quarto quando tento fechar os olhos para vê-la...

    Vou aparecer mais vezes. Vale a pena.

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  6. Respostas
    1. QUANDO AFINAL DIZEMOS TUDO...

      Se fecho os olhos, que é o que estou para fazer, sinto sossego. Se pudesse, escrever-te-ia com os olhos fechados, porque só assim te consigo ver. De maneira que ando em dúvidas entre fechar os olhos para te ver e abri-los para te falar, assim sem dizer nada, dizendo tanto.
      Beijo e boa noite.

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