. momentos se instalam na memória, esquecida de motivos neste lugar que noutros tempos soavam pertinentes à luz daquela manhã já escurecida. a incerteza recobra os sentidos e os sonhos desta noite nada dizem de amanhã... o sono suaviza a beleza de um luar não visto um luar insignificante para este corpo cansado, livre da agonia de existir na claridade das horas inventivas. Horizonte é o que os olhos alcançam; efêmero ponto de vista de plena significação. Raquel Abrantes
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Vale
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Que cheiro pode um vale exalar se as narinas impregnam o odor corrente, abafando a cada minuto os múltiplos aromas ainda por sentir? Que cheiro pode o vento trazer de tão longe, sem deixar pelo caminho as familiares substâncias da fórmula que a mente recria por um instante Que cheiro posso eu disseminar para abalar o ar em mim envolto abrindo canais para a sensação aromática entre químicas nunca antes inspiradas Que cheiro pode o amor reverberar na sua descontinuidade de efeitos passando de perfumado a inodoro como a rosa que encerra seu ato Aroma que se esvai e leva consigo as inatas sensações ainda por conhecer que o marcante cheiro apagou dos ares no vale onde as fragrâncias se anulam. Raquel Abrantes
Vontade
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Deixe para lá a vontade, ela de nada sabe; o que tivemos é o futuro do que temos. Passa tudo. Até a vontade. Dedos passam longe da rosa para que sua textura passe longe da epidérmica memória tal qual lápide futura. Olhares sobressaem tão coerentes deveras são na inerte lembrança do não-sentido. O pôr-do-sol acena calmaria... ruídos esparsos na significância apreciada; Suave é o anoitecer. Do precipício ao voo estratosférico, soma pontos a favor a terra flutuante dos singelos prazeres; nem alto nem baixo. Lá, cá, tanto faz apenas contemplo a harmonia. Raquel Abrantes
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. Deitei a cabeça na almofada e pronunciei alguns pensamentos. Vi a sombra do lustre no teto, era restrita e esfumaçada, sem força para qualquer destaque. Mas o silêncio me confortava. Fazia o ambiente flutuar entre traços oblíquos, borrões, distorções do presente. Clareava um pouco essa paz. Afinal, as cores também falam... A todo momento precisamos aguçar algum sentido. Raquel Abrantes
zero
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as lacunas entram pela veia. Mas o vazio traduz-se por um portal para o incalculável. o zero é uma casa vazia algo reservado para agregar valor nos consente o prosseguimento da contagem por necessidade ou escolha, dependendo do dia. há que o zero não pode ser elevado a ele mesmo, como expoente, num problema paradoxal. expoente zero leva a um e zero a qualquer número é nada Sem solução o zero segue etéreo, eterno, em seu símbolo-corpo Rumo à origem, parte da ausência. Raquel Abrantes
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. O que sobro é líquido revolve escorre salgado se espalha arrisca esboços lembra o mar que existe enquanto coisa em si fora as atribuições sentimentais que nada agregam a seu significado enquanto mar avisto sobras de escritos nas areias mas as ondas insistem em desmanchar qualquer reminiscência na inconstância contínua de seu tempo. Raquel Abrantes