terça-feira, 2 de julho de 2013

Gooooooll!!!

Todos olhavam fixamente para a televisão. A bola passava de um jogador a outro, em segundos, indo do campo de um time ao do adversário, e qualquer piscada poderia ocultar o resultado do chute. Melhor não arriscar. Ao redor das imagens, figuras variadas, unidas por um único propósito comum: a diversão. Uma senhora de avançada idade acendia seu cigarro, com tragadas intercaladas aos goles de cerveja, que aumentavam a alegria por ter saído de casa. Tinha razão para isso; era um sentimento bom novamente. Torcer, vibrar, viver além de seu dia a dia já mais vazio, quando o corpo começa a fraquejar apesar do funcionamento acelerado da mente – prêmio concedido pelo tempo. Que passou rápido demais para quem chegou onde ela está, quando os enterros passam a superar os nascimentos, no inevitável limite imposto pela natureza. Mas não ali. No bar, a sensação compartilhada por todos os telespectadores, aliada aos outros prazeres compensatórios da realidade, gerava celebração. Também estavam felizes os jovens namorados que, juntos, vestiam a camisa, repetiam os mesmos gestos e reações. A intensidade dos poucos anos imperava diante daquele nacionalismo faceiro e atraente. Outra menina estampava em seu corpo frases que demonstravam a ausência de respostas para suas questões, assim como sua própria incapacidade de elaborar as perguntas. O preto era sua cor, mas, mesmo assim, naquele dia ela sorria para o verde e o amarelo. Um menino começava a cumprir seu papel de homem perante a sociedade, ao lado de seu pai, aprendendo os gritos e as tonalidades de voz apropriadas para sua sexualidade. Mesmo sem compreender o motivo de tamanha excitação, os olhos do garoto brilhavam, refletindo o orgulho daquele que o criou. Casa cheia, os garçons atarefados aproveitavam os poucos momentos de ócio para assistir um pouco ao show apresentado naquele gramado verde – que lembrava o dinheiro das gorjetas esperado até o fim do dia, influenciados pela referência à moeda americana. A bola rolando, as vidas passando, e os olhares todos acompanhando o mesmo objeto móvel; redondo e imperfeito como a Terra, mas que dela vencia antes mesmo de acabar o jogo, pela vantagem de oferecer apenas distração.


Raquel Abrantes

3 comentários:

  1. Toda essa carga de conhecimento da velha tabagista já é suficiente para aproveitar 95% do que o futebol pode oferecer como entretenimento, e é o que todas as pessoas normais usufruem. Os outros 5% restantes são para ouvir resenha, ver mesa-redonda, nerdar por blogues e fóruns, aturar JORNAS, especializar-se em minúcias prosaicas e tentar saber ao menos o nome de um jogador do Flamengo.

    ****
    Bem... o parágrafo acima foi exatamente a mesma coisa que eu comentei para minha irmã no relato dela, não similar, mas agrupado com o da velha.
    http://www.blablagol.com.br/a-estrella-de-real-madrid-3x0-galatasaray-19636

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  2. De volta aos contos, legal!
    beijos
    Rafael

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