quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Consagração


Parte 1

Quando menos se espera
um pássaro pousa na janela
trazendo harmonia
ao nascer do dia
a imagem fica na mente
devido à sintonia existente
num momento inusitado
que vem até nós de bom grado
e, no outro dia, sem esperar
lá está ele de novo, a nos espiar
na recíproca verdadeira
nesta terra derradeira
dos muitos pássaros que voam
sobem descem vivem morrem
sem conseguir transmitir alegria
a companhia, o apoio na travessia
pois é para onde não olhamos
que, distraídos, percebemos onde estamos
e a troca
e a sinergia
e a beleza
e o amor que chega
sem voar sorrateiramente
porque o sentimento oferecido
é o que dá o sentido
do colo, do abrigo, do amigo
Lembra que não estamos sozinhos
que temos o ombro do parceiro
o doar-se por inteiro

Parte 2

Mais uma vez se fez dia
e nada demais parecia
apenas aquele vício da consciência
quando saímos da dormência
somente um bom dia banal
segundo a norma convencional
mas a desconcentração
tem o poder da revelação;
Ao olhar pra lá e pra cá
Ao olhar mesmo sem ver 
acabamos por perceber
a simplicidade que há
em um bem querer
apenas um oi, vim te ver
porque a pressa, a agonia
a pressão, a apreensão
a obrigação da dinastia
podem enlouquecer
pela opressão do próprio ser
e o vento bate
e o tempo corre
e a rocha desgasta-se
mas a felicidade vem apenas
se houver também o problema
e a magnitude permanecer
na atitude de vencer
este é o motivo 
do poema que digo

Parte 3

Como se já não fosse suficiente
me trouxe Nina, este presente
tão parecida com sua dinda
contagiante, linda
esta menina graciosa, sapeca
levada da breca
que mostra sem pudor a que veio
querendo algo da ponta ou do meio
mas só importa seu sorriso.
À opinião de outros também me refiro
à sua mãe certamente
minha prima, comadre, confidente
meu escudo, minha proteção
nesta mão dupla da nossa direção
que a mim terá em qualquer dia
e assim cria-se uma família

Parte 4

Uma nova versão de família
a esta, será dada a partida,
quando todos puderem perceber
que sofrer é crescer e aprender
e cada um puder fazer sua parte
nesta busca de glória, nesta arte
o braço dado, o abraço apertado
ouvidos abertos, sentidos despertos
uma família feita de benção
não só de sangue; mas do que pensam
o irmão, o pai, a tia, o amante
a astrologia ressonante
a mão estendida
quem sempre acha uma saída
que os seres hão de encontrar
ao pensar nos outros sem pesar
gente que comove, traz uma crença
cuida, acompanha, acrescenta
em função da identificação
de uma forma de oração
mas não da biologia ou da geografia
uma, questionável; outra, dispensável
vivemos em torno da empatia
o que se dá, o que se aprende
o que pulsa, flui no peito
sem que o sangue escorra
no tormento da masmorra
sem apontamento
somente um momento
depois do outro
e, de tanto agradar o gosto,
não acorrenta, se anuncia
renovando a alforria

Essas pessoas boas
tendem pendem
ao gozo
ao grito
ao rito
reinventando
um ritual amado
por sua própria peculiaridade
porque cada um tem sua verdade
e em cada passo demente
podemos descer um degrau
e subir dez mais na frente
precisamos cada um
fazer um mundo diferente
livre leve contente
frente a tanta prisão, dureza
e essa tristeza
que bate no fundo
na altercação com o ser imundo
E, graças ao traquejo,
e ao desejo de sermos nós mesmos
aquilo que somos agora
mas tudo tem sua hora
até a algaravia
pode se expressar, quem diria
porque tudo depende
da pessoa que vai ouvir
não de quem se esconde
mas de quem ajuda a reagir
a tirar da boca
esse gosto néscio
essa coisa de gente louca.


Raquel Abrantes

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