domingo, 1 de maio de 2011

Ventilador

Sei que nada mais acontecia além do som do ventilador. Esse ruído não me satisfazia. Meus poros ansiavam ser contraídos pelo efeito catalisador de uma elegante nota. Uma construção melódica que tornasse o ambiente viável.

Era um arrastar de plástico que me perturbava. Aquele giro desalinhado que se repetia continuamente. Às vezes piorava... Dava uma engasgada e ocupava mais lugar ainda no espaço, que devia ser meu, meu barulho. Mas eu era um ventilador desligado, que não podia vencer a energia elétrica.

Como se quisesse me ajudar, por ser meu, o aparelho simplesmente parou. Foi mau contato. Acontece toda hora. E a partir deste aviso, tive a força necessária para tocar a minha música. Escolhi o artista, o álbum, a faixa e interferi na atmosfera. O ventilador voltou a funcionar, mas o ruído passou despercebido.

Preferi cantar minhas letras, sem considerar os outros sons do recinto, tornando-me quase amiga deles, na vitória da harmonia. Tudo fica melhor em paz, e, em sua entediante calmaria, me encostei. Ignorei o cenário para retomá-lo apenas depois, quando fosse a hora da despedida.

Para haver chegadas há de haver partidas, considerando que uma não existe sem a outra. O ambiente renova-se, pede pela transitoriedade da vida, uma confusão de entradas e saídas que se intercalam, esbarrando em escadas, elevadores, portas, e compartilhando dessa mesma função.

Fui até a porta dizer adeus. Foi isso, de alinhamento mútuo e irrevogável, com uma chegada e uma saída, nada mais. Era o acordo de caso pensado que sublimava a ansiedade pela despedida próxima, leve e relaxante. De repente, como se não tivesse dado por mim, percebi que a música tinha acabado. O ventilador ainda estava lá, como sempre, girando arrastado e repetido pela sala. A diferença é que o ruído tinha esquecido de me incomodar, já que as idiossincrasias retomaram seu lugar.


Raquel Abrantes

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