terça-feira, 31 de maio de 2011

Equivalência

O valor do tempo equivale a sua pobreza. À intermitência de fluências escapam por vezes pistas, que surgem convenientes no retrato... congelador de fragmentos, horas, dias, anos ondulados anos-luz do hall de recordações. E a cada segundo ultrapassado, o ponteiro ofusca demasiadas tempestades, que resultam irrisórias perante o que não cabe a nós fazer passar.

O que caberia? Deixar o tempo aveludar as tristezas e amarelar o transtorno, a ponto de diluir reminiscências já sem sentido. Aquele fim de tarde tão bem admirado de cima da pedra. Arrepio que já não posso representar. O sentimento tem suas próprias asas, queiram nossas entranhas ou não; mas renova-se todavia, como assim esperamos. Uma sensação mergulha nos ares em vários graus conforme o vento, reunindo, ocupando seu lugar no espaço invisível, para depois dispersar-se.

Nas pontas do mapa sem destino, navego breves ilusões de realidade, terra firme entre o passado e o futuro, um conforto entre o que foi e o que haverá de ser. No mais, o foco está na matéria, causa da insatisfação corrente no limbo do ainda-por-fazer. Pelos cantos, pedaços antigos apodrecem, adubando as páginas não-escritas, na notória epifania de uma nova igreja.

Desta crença me recrio, me contesto. Exposta ao osso que desconheço, transpasso ideias arrastadas nas horas – inseparáveis companheiras de toda a vida, eternamente lá, prosperando até o fim. O som agudo-alaranjado do sopro divino os dias me doam, no momento em que eu sou aquilo que meu instante permite e minha consciência alcança. E assim o tempo consegue ser ao mesmo tempo amigo e traidor. Na satisfação de um aprendizado concedido, de uma lembrança resgatada na fotografia. Na contagem demorada quando em busca da paz, na limitação ascendente de qualquer respiração.


Raquel Abrantes

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