sábado, 25 de julho de 2009

Cores e dores

Cansava a sua beleza. Cansava a beleza de Linda aquele mantra masculino para sua paciência, Não pude evitar, você é muito bonita e sensual... Do que um homem é capaz para seduzir uma mulher. As verdades momentâneas ganham requinte de longevidade e as gentilezas superam os limites do tempo e do espaço. Mais tarde, aquele sorriso de satisfação anula as vozes da véspera, dispersas entre ontens e até mais.

Numa noite despretensiosa, a cerveja descia refrescando seu cansaço, e também iludia um divertimento entre os percursos dos dias úteis. A música dançava entre amigos que conversavam em pé, circundando uma mesa para apoio dos copos. Já era o terceiro naquela noite tentando lhe faturar e ela não suportava mais, com a imagem de casa adentrando no recinto.

Preciso ir ao banheiro. Ai, que fila é essa? A mulher na porta cedeu seu lugar na fila para mim, disse Linda a seus amigos quando voltou para o grupo. Com doses realistas de gentileza, sem importunar o limite de espaço entre um ser e outro, a estranha deixou que passasse sua frente. Ela está no fundo do salão. Com o bar praticamente no meio entre os dois extremos, preciso de mais uma cerveja.

Clarice viu aquela bela mulher a procurando com os olhos e decidiu iniciar uma aproximação. A educação fazia parte de seus costumes diários, o suficiente para Linda se encantar. Atravessou o salão e ofereceu uma bebida para a mulher que endeusava sua noite. A atitude traduzia a fascinação de Clarice por algo tão delicado, delineado e instigante como Linda.

Era o seu grande dia. Nem que seja pela eternidade de um buquê de flores, a felicidade olha para nós. É uma questão de lidar com os atravessamentos da vida da maneira mais proveitosa possível. Sem poréns e previsíveis infortúnios de dolorosa rejeição, Clarice escolheu desfrutar das inexplicáveis artimanhas do acaso.

Acariciou a sutileza de palavras ao vento, desvendando lentamente a paisagem interior de uma janela, esculpida em raros materiais. A natureza alardeia os odores e as cores de substâncias complementares. Instintivamente, duas pessoas se apaixonam por tudo o que descobrem umas nas outras, incluindo defeitos e imperfeições ainda desconhecidos, que resultam irrisórios perante as qualidades impactantes do primeiro contato.


Raquel Abrantes

sábado, 18 de julho de 2009

Eu sempre quis

Sabia que as palavras me motivam mais que os números. Que a humanidade me interessa mais que os bichos. Que as questões sociais abrem mais brechas que as individuais.

Eu sempre quis. Primeiro, quis pigmentar o planeta com todas as cores que faltavam. Equilibrar os contrastes de luz em alguns países. Chamar a atenção das pessoas para os tons escuros, abafados pelos claros. Ou para os claros, em detrimento dos escuros.

Eu sempre quis. Quis iniciar a mudança na minha casa. Escalar o topo do meu mundo e fincar a bandeira da vida. Canalizei a paixão para a rapidez dos dedos no teclado e para a curiosidade sobre os não-costumes. Mas as paixões duram o sopro de sua tosse.

A pulsão partiu com todos os meus quereres na mala. E o mundo saiu do roteiro da minha viagem. A intensidade das emoções, última parada. Perdi o brilho das realizações. Esqueci de buscar. Deixei de querer.

Até que outras letras me olharam disponíveis. Seus propósitos eram maiores que os meus. Influenciavam positivamente a vida dos distraídos. E influenciaram a minha. Quis mais e mais dessas letras no meu alfabeto. Quis em várias línguas e dialetos. Quis todas as combinações feitas e imagináveis. Quis... quis.

Eu sempre quis. Sabia que as palavras me motivam mais que os números. Que a humanidade me interessa mais que os bichos. Que as questões sociais abrem mais brechas...


Raquel Abrantes

domingo, 12 de julho de 2009

O santo



Com apenas 19 anos o mundo mal descortinara à sua frente. Perspectivas provincianas de uma vida pacata projetaram a imagem de Santo Antônio, uma estátua de madeira que inaugurava dias melhores. Foi o primeiro que Paloma ganhou, porque é preciso ganhar de alguém para dar certo.

Assim que começou a reza, as recitações progrediram na mesma proporção de seus desejos. As palavras surgiam ininterruptas, amaldiçoavam aquele casamento, ao mesmo tempo glorificavam o artefato, que ganhou local arejado, mel no pires aos pés, perfume, flores e velas. Bom dia, Santo Antônio. Vou te tratar muito bem, só quero casar com o homem que Eu escolher.

Os anos intercalaram ressentimentos saudosos de uma vida que esperava ter. Aos 26, destacava-se na multidão, não por sua exuberância, mas por se sentir só. E a figura de Santo Antônio invadiu sua mente.

Colocou um pouco d’água num copo, e a efígie nem teve chance de argumentar: foi afogada de cabeça para baixo. Dia 12 de junho, Dia dos Namorados, mas ela não tinha nenhum. Então, resolveu criá-lo.

Preparou jantar à luz de velas e candelabros, colocou seu vestido mais insinuante e decidiu que não iria jantar sozinha. Uma garrafa de vinho testemunhava a insanidade de auto-sugerir seus sentidos. Abriu e fechou a porta para que o pretendente imaginário entrasse.

Visualizava todas as descrições pertinentes ao gosto que lhe cabia, selecionadas entre suas experiências, as boas e as ruins, e concluiu que a ordem de prioridade havia mudado. Suas emoções eram seguidas pela música de Chico Buarque, que, seu preferido, não poderia faltar à construção. A mulher concentrava toda a sua força em imantar pretensões.

Desde a saborosa refeição olho-no-olho até a noite de outros sabores... degustados detalhadamente, com a harmonia do gostar. Paloma aproveitou todos os segundos, com reflexos e desejos guardados em sua sugestão. Dançou com seu amante e dormiu em seu ombro, com um sorriso realizador.

Foi como se pulasse de um sonho para o casamento que almejava. Depois de ter raptado o menino Jesus, os resultados foram rápidos. Na noite do casamento, Paloma fez questão de acertar as contas antes de partir para a lua de mel. Devolveu o componente de madeira e deu flores do buquê à estátua, que ocupou a cabeceira da cama.

Tempos depois, o marido ficou sabendo da história. Comprou um grande boneco do santo, do tamanho de sua felicidade, que continua pendurado na parede do quarto, símbolo da convicção aspirada por ambos. Eleger sua própria crença é respaldo legítimo do acreditar...


Raquel Abrantes

sábado, 11 de julho de 2009

Hoje

Hoje o que me compraz
é o orgulho por suas vitórias.
A decepção por suas derrotas
me desfaz.

Hoje posso dizer
mesmo sem saber se posso
deixar lá perdido

Que meu passado
Independe do meu futuro
Sou hoje não mais ex
mas a estranha sim, talvez

E os seus cacoetes
também mudaram
por sua vez. Por sua.

Hoje você não jaz
na superfície das memórias de
Tempos atrás.

O que hoje aqui está
Já não se pode traduzir.
Reluzem no espectro
meus hojes.


Raquel Abrantes

domingo, 5 de julho de 2009

Certos signos



Imaginava a seqüência a ser escrita, sutilmente entre os ditos e os não-ditos, naquela gratificante permuta de vivências, confidências entregues à delicia de libertar vazios... Certos signos remetem a assuntos já destoados de nossas vozes, cruzadas na sintonia do olhar adiante, de transladar o ocorrido pela escolha do vento de amanhã. A página seguinte carrega afinidades casuais, simulando a dança das folhas cadentes de suas origens arbóreas. Como a leveza de uma pena colorida, que acaricia arrancando risadas pertinentes ao diálogo das retóricas. Da mesma forma, uma brisa solfejada solta a imaginação que nos insere, nos reparte e deixa reverberar. E das referências compartilhadas, a patente se encanta por uma orquestra de alusões, principiando o uníssono de aliterações bem articuladas. Mesmo sem avistar a sombra dos traços labiais... efeitos de luz das expressões suprimidas... recria-se a latência onírica. Escalada de pretensões até o alto de nossos sonhos, poderosos ajudantes na arte de sucumbir aos delírios inacabados, de nossa loucura confessa, na celebração das distorções proeminentes de nossas almas. A partir da rota de fuga, entre cartéis de notícias incompletas em sua parcialidade, a escapatória encerra na neblina de afazeres criativos, possibilitando o encontro delineador de nossas falas, que tentam dizer...


Raquel Abrantes

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Bermuda

E ele retomou seu lugar depois de alguns meses. Abigail tinha terminado um namoro transitório na sexta-feira. Fabrício chegou três dias depois... Como se nunca houvesse partido. Ele perguntou sobre a sua bermuda. Estava lá; lavada, passada e guardada na gaveta.

Abigail olhava para seu amor e para a bermuda. Estava feliz com o retorno do dono, proprietário também da sensação que ela sempre esperava. E aquela risadinha no canto da boca recordava ironicamente que a bermuda fora preenchida por outro, amassada por outro, arrancada de outro, por todo o tempo em que Fabrício a abandonara.

A bermuda não caía tão bem em Julio, mas ele se apaixonou intensamente por Abigail e faria qualquer coisa para manter o relacionamento. Até mesmo ignorar sua história com Fabrício. Inicialmente, algumas fagulhas estimularam o casal, com surpresas, declarações e a hipótese de ficarem juntos.

Só que ainda não estava resolvido. Não para Abigail. Ela se contorcia ao ouvir o nome... Fabrício... Sua espinha gelava da nuca ao final do dorso. Sentia-se como uma lápide sendo grafada com o nome do finado. Logo um ataque de comichão confessava seus sentimentos ainda confusos, na incapacidade de tomar uma decisão.

Insensatez que transpareceu inexorável para Julio. É assim que um homem perde o firmamento e deixa de olhar para as estrelas... a insegurança foi depredando progressivamente sua auto-estima. Ele precisava ocupar todos os espaços, antes que outro ocupasse. E seu cuidado excessivo fechou as janelas da alegria para Abigail.

Fabrício retomou seu lugar. Com a mesma instabilidade de Julio, aniquilando a mulher que ele queria. A mulher que habitava Abigail compungia por seu amor, desejara ela nunca ter deixado... não que tenha sido sua opção. Paixão a consumia desde a última iluminação do dia até o adeus avermelhado da noite.

A cada tanto, o sangue de Abigail ganhava componentes de insatisfação, na malograda tentativa de consolidar. Seus ouvidos pediam murmúrios de conforto e seus pés não alcançavam o chão. Os talvezes de uma vida incerta de abrigo, sempre vulnerável à chuva. As evidências iam de encontro ao significado de seu nome, aquela que muda rapidamente de humor, mas sempre traduz fonte de prazer e torna as transformações favoráveis a ela.

Fabrício agonizava em pensamentos sombrios, ardia em febre de ciúmes, friamente calculados por viáveis confirmações. Em elucubrações constantes, desvelou o cansaço da vida, esbaforiu ressentimentos e partiu mais uma vez. A ocasião fez Abigail lembrar da bermuda... e a devolveu, tendo sido o primeiro pertence colocado na sacola.

Em sua gaveta, não havia espaço para bermudas, seja quem fosse o dono. E a peça íntima foi parar na portaria, junto ao resto-das-coisas-dele. As calcinhas ocuparam todo o compartimento do armário, dobradas ao descobrimento de seus bordados. Abigail liberou as assombrações e evaporou as tristezas, acompanhada do insubstituível silêncio de sentir.


Raquel Abrantes