sexta-feira, 3 de julho de 2009

Bermuda

E ele retomou seu lugar depois de alguns meses. Abigail tinha terminado um namoro transitório na sexta-feira. Fabrício chegou três dias depois... Como se nunca houvesse partido. Ele perguntou sobre a sua bermuda. Estava lá; lavada, passada e guardada na gaveta.

Abigail olhava para seu amor e para a bermuda. Estava feliz com o retorno do dono, proprietário também da sensação que ela sempre esperava. E aquela risadinha no canto da boca recordava ironicamente que a bermuda fora preenchida por outro, amassada por outro, arrancada de outro, por todo o tempo em que Fabrício a abandonara.

A bermuda não caía tão bem em Julio, mas ele se apaixonou intensamente por Abigail e faria qualquer coisa para manter o relacionamento. Até mesmo ignorar sua história com Fabrício. Inicialmente, algumas fagulhas estimularam o casal, com surpresas, declarações e a hipótese de ficarem juntos.

Só que ainda não estava resolvido. Não para Abigail. Ela se contorcia ao ouvir o nome... Fabrício... Sua espinha gelava da nuca ao final do dorso. Sentia-se como uma lápide sendo grafada com o nome do finado. Logo um ataque de comichão confessava seus sentimentos ainda confusos, na incapacidade de tomar uma decisão.

Insensatez que transpareceu inexorável para Julio. É assim que um homem perde o firmamento e deixa de olhar para as estrelas... a insegurança foi depredando progressivamente sua auto-estima. Ele precisava ocupar todos os espaços, antes que outro ocupasse. E seu cuidado excessivo fechou as janelas da alegria para Abigail.

Fabrício retomou seu lugar. Com a mesma instabilidade de Julio, aniquilando a mulher que ele queria. A mulher que habitava Abigail compungia por seu amor, desejara ela nunca ter deixado... não que tenha sido sua opção. Paixão a consumia desde a última iluminação do dia até o adeus avermelhado da noite.

A cada tanto, o sangue de Abigail ganhava componentes de insatisfação, na malograda tentativa de consolidar. Seus ouvidos pediam murmúrios de conforto e seus pés não alcançavam o chão. Os talvezes de uma vida incerta de abrigo, sempre vulnerável à chuva. As evidências iam de encontro ao significado de seu nome, aquela que muda rapidamente de humor, mas sempre traduz fonte de prazer e torna as transformações favoráveis a ela.

Fabrício agonizava em pensamentos sombrios, ardia em febre de ciúmes, friamente calculados por viáveis confirmações. Em elucubrações constantes, desvelou o cansaço da vida, esbaforiu ressentimentos e partiu mais uma vez. A ocasião fez Abigail lembrar da bermuda... e a devolveu, tendo sido o primeiro pertence colocado na sacola.

Em sua gaveta, não havia espaço para bermudas, seja quem fosse o dono. E a peça íntima foi parar na portaria, junto ao resto-das-coisas-dele. As calcinhas ocuparam todo o compartimento do armário, dobradas ao descobrimento de seus bordados. Abigail liberou as assombrações e evaporou as tristezas, acompanhada do insubstituível silêncio de sentir.


Raquel Abrantes

7 comentários:

  1. "Suave é viver só.'(Ricardo Reis)
    Bjs,amiga!

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  2. Parabéns! Está se revelando como contista. Mas, será mesmo que as assombrações foram liberadas e as tristezas evaporadas, já que um sentir tão pujante mergulhava inexoravelmente na profundez de um silêncio nostágico?

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  3. Nostágico, desculpe a falha. Bjsss

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  4. NOSTÁLGICO. Cruzes!! Não quer sair mesmo esta palavra. rsrsrs

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  5. Dindinha!!!

    As assombrações foram liberadas... mas nunca se sabe quando vamos encontrar com elas de novo... inexoravelmente iremos.

    Beijão!

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  6. Este sim, é uma avalanche de lembranças em páginas de arquivos do msn...
    Logo meu inferno astral acaba e terei uma brecha pra um chopp.

    Beijosssss ;*

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