domingo, 12 de julho de 2009

O santo



Com apenas 19 anos o mundo mal descortinara à sua frente. Perspectivas provincianas de uma vida pacata projetaram a imagem de Santo Antônio, uma estátua de madeira que inaugurava dias melhores. Foi o primeiro que Paloma ganhou, porque é preciso ganhar de alguém para dar certo.

Assim que começou a reza, as recitações progrediram na mesma proporção de seus desejos. As palavras surgiam ininterruptas, amaldiçoavam aquele casamento, ao mesmo tempo glorificavam o artefato, que ganhou local arejado, mel no pires aos pés, perfume, flores e velas. Bom dia, Santo Antônio. Vou te tratar muito bem, só quero casar com o homem que Eu escolher.

Os anos intercalaram ressentimentos saudosos de uma vida que esperava ter. Aos 26, destacava-se na multidão, não por sua exuberância, mas por se sentir só. E a figura de Santo Antônio invadiu sua mente.

Colocou um pouco d’água num copo, e a efígie nem teve chance de argumentar: foi afogada de cabeça para baixo. Dia 12 de junho, Dia dos Namorados, mas ela não tinha nenhum. Então, resolveu criá-lo.

Preparou jantar à luz de velas e candelabros, colocou seu vestido mais insinuante e decidiu que não iria jantar sozinha. Uma garrafa de vinho testemunhava a insanidade de auto-sugerir seus sentidos. Abriu e fechou a porta para que o pretendente imaginário entrasse.

Visualizava todas as descrições pertinentes ao gosto que lhe cabia, selecionadas entre suas experiências, as boas e as ruins, e concluiu que a ordem de prioridade havia mudado. Suas emoções eram seguidas pela música de Chico Buarque, que, seu preferido, não poderia faltar à construção. A mulher concentrava toda a sua força em imantar pretensões.

Desde a saborosa refeição olho-no-olho até a noite de outros sabores... degustados detalhadamente, com a harmonia do gostar. Paloma aproveitou todos os segundos, com reflexos e desejos guardados em sua sugestão. Dançou com seu amante e dormiu em seu ombro, com um sorriso realizador.

Foi como se pulasse de um sonho para o casamento que almejava. Depois de ter raptado o menino Jesus, os resultados foram rápidos. Na noite do casamento, Paloma fez questão de acertar as contas antes de partir para a lua de mel. Devolveu o componente de madeira e deu flores do buquê à estátua, que ocupou a cabeceira da cama.

Tempos depois, o marido ficou sabendo da história. Comprou um grande boneco do santo, do tamanho de sua felicidade, que continua pendurado na parede do quarto, símbolo da convicção aspirada por ambos. Eleger sua própria crença é respaldo legítimo do acreditar...


Raquel Abrantes

6 comentários:

  1. um blog é tão pouco.
    você é garota-livro.
    adorei

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  2. Amiga, seus textos me fazem crer!

    Obrigada por este olhar santo e profanador!

    Beijos latinos, místicos e revolucionários

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  3. Mais que um singelo blog, com certeza.

    Como você deve ter percebido, eu anexei nos meus links, então não deixarei de acompanhar.

    Beijão.

    Ps.: Fui indicado pela minha professora de litaratura, Adriana Bittencourt Guedes

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  4. Ah, mas que beleza de texto! Virgem Santíssma! rs.
    A vida imita a arte ou é arte que imita a vida? Ficção ou realidade?
    Bjs comovidos e, de joelhos, rezo suas palavras.
    Carlos Eduardo

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  5. ...e que venham todos os Santos para que eu possa decorar o meu palácio com todos os sentidos figurativos.... rsrsrs
    Te amo linda, como sempre dando show!!!!!!!

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