sábado, 9 de maio de 2009

Desassossego

Engasgado com pílulas de nervosismo, Jonas recorre a goles de alegria nos momentos anteriores à comemoração. Tem a visão do churrasco... com amigos, companhia feminina e pessoas que ocupariam cadeiras no evento. O que não importava esquecia facilmente. (Não importava?)

Na comemoração dos vinte e cinco anos, um quarto de século ocupando a vida não encobria o fato de conseguir destaque por seu metro e noventa de altura. Aliava uma presença descontraída e atraente à gangorra de suas atitudes.

A roupa que ia colocar seria a primeira que suas mãos alcançassem. Nem mesmo o conforto tinha vez na impossibilidade de escolha. Cedo, seus olhos já denunciavam a irritação concedida pela abstração química. E sua mente dividia espaço com seu corpo entre os amigos, em duas dimensões que se cruzavam, metamorfoseavam seu estado de espírito.

Letícia chega como o estardalhaço de fogos de artifício na cabeça dos convidados. As pessoas mais próximas ao aniversariante se entreolhavam, um tanto constrangidas, estupefatas com as exaltações daquela estranha íntima.

Já habitando a estratosfera com a fermentação alcoólica, Jonas ri se esquivando das palavras nada intencionais de sua parte. Sua dissimulação sustenta a autoconfiança na qual precisa se apoiar – alça a si mesmo em sua capacidade de representação.

Ele não precisa dela. Aquela mulher que invade seus sonhos como um cometa, mudando a ordem temporal dos acontecimentos. Que adentra seus pensamentos, apesar de ébrio e longe do cadafalso.

Nem tanto, eu não estou pensando nela. Eu vivo a história, posso contar de forma bem mais eficiente. Mal posso acreditar nisso... Vanessa me ligando. (Logo agora, que assumi a narrativa!) Como poderia dizer algo, sem dizer o que não posso? Não posso.

(...)

Certa insatisfação aterrissa apaziguando a empolgação de Jonas. Apesar dos inúmeros bem-sucedidos términos e abandonos, este era o menos motivacional. Enquanto sua visão percorria o corpo de Letícia, ela tentava se infiltrar como uma espiã em seus devaneios. Ele a conduz discretamente para fora da casa, encostando-a em um carro que se banhava na lua cheia.

No melhor dos cenários, as gravuras se desfaziam. Escorriam manchando o chão para o qual Jonas olhava em busca da harmonia roubada pelo céu. As estrelas deixaram rastro no caminho até sua nostalgia e o passado já demais tardava.

O encerramento do churrasco no meio da noite (e meia) leva Jonas a se desvencilhar do primeiro encontro marcado, que evaporava ao infinito de possibilidades. A fascinação pelo o que eleva sua graça, ao mesmo tempo intriga suas expressões, num paradoxo inevitável. Por não querer há tempo demais, queria muito agora.

Aquela voz... determinante e determinada, em seus critérios e desprezos. Na obscuridade de sua alma, entre a pele e a carne, ali morava. Onde justa posicionava o perigo. Aquela voz frisada, partida, do desassossego aos sentidos.

Vanessa, posso pegar minhas coisas?


Raquel Abrantes

2 comentários:

  1. nossa, psicodelica essa narrativa!

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  2. O Desassossego que amei até comentei no orkut, viajei em tempo decrescente...

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