quarta-feira, 8 de abril de 2009

Qual

Pensamentos dominam minha mente com freqüência obsessiva. Aquele desfile por onde ela passa, sua quebrada de cintura acentuando as notórias curvas. Cada fiapo de cabelo erguido para o rabo de cavalo vai libertando pouco a pouco o dragão que mora em suas costas. Aquela figura mitológica que desperta meus instintos mais profundos em sua negritude inanimada... Posso vê-lo atear fogo em meu confinamento. Mantenho a distância.

Os objetos que escapolem do sossego de seu abraço, percorrendo o piso, sugerem uma admirável operação de resgate – sempre bem-sucedida. Principalmente para os expectadores do imprevisto, que preferem os bastidores ao papel principal. Talvez por medo, talvez por coragem. Coragem de recusar o que nunca poderia estar aos seus pés. Nem mesmo em sua cama. Na lista de compras do supermercado. Na escolha do longa-metragem de um feriado à base de macarronada preparada a três mãos.

Ah, Luana... Luana? Qual... Esta companhia no prosseguimento dos dias, que na incerteza do amor estabiliza minhas dúvidas na complacência dos seus ombros costumeiros. Que na exatidão dos horários e compromissos mantém meu carinho direcionado a ela, jogando conforme as regras de um relacionamento confortável. Que atura meus desatinos fracassados e não os supera nem pretende, e me desarma com sua maré azulada, branca, mansa.

Ou essa Luana imprevisível, que parece o avesso da minha verdade? Que provoca minha ira com sua petulância exuberante. Que evidencia absurdamente seus desejos contaminando com sofreguidão o meu tão estimado pesar. Que se transforma de sol em lua na velocidade da luz ao ouvir dizeres menos adequados.

Aquela insistência de exigir sempre além, de olhar meu rosto em um espelho que não me reflete, mas que através do qual chego a ela e a uma parte de mim que desconheço. Sua necessidade de debater o motivo do debate, contestar a origem do que começou e encerrar o que acabou.

Me perco nas elucubrações que admiro, vôo sem radar que me guie no infinito da convivência idealizada. Tranco o arrepio no peito e deixo crescer no rosto a imagem da liberdade. Paradoxalmente. Como desvio o toque do factível até onde minhas forças permitem e homenageio desonrosamente toda a sua inteligência genética... no momento diário de purificação do corpo.

Raquel Abrantes

3 comentários:

  1. Belo olhar pelo avesso, amiga! Bjs

    Lu (http://ocaroco.wordpress.com/)

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  2. Intrigante, envolvente e indiscutivelmente fascinante. Essa personalidade que enlouquece, sorri para um espelho sem reflexo...
    É comovente e pretensioso (minha parte) se tratando do simples fato de visualizar a palavra que ouço a 19 anos. Rs.
    Um beijo e como disse antes, aprecio intensamente este entrelaces metafóricos subentendidos com a emoção. Até mais Raquel...

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