quarta-feira, 11 de março de 2009

Nosso banco


Quando primeiro te vi, olhava a sua figura meio a parte do ambiente e me perguntava quem era. Havia um charme, mas parecia apenas um maquinário qualquer, como tantos que cumprem sua função no sistema. Por convite de outros, trocamos as primeiras palavras, que fluíram num jogo de significados e significâncias fazendo o assunto transbordar dos copos de cerveja... E o agradável encontro de debates e argumentações se repetiu. E se prolongou. E de novo... até virar hábito. As conversas suavam de dia e evaporavam de noite até as nuvens, enquanto podíamos nos confessar. Confessar nossos crimes contra a humanidade vigente, carente e conformada com a rotina do mais ou menos. Do tanto faz. Não, não tanto fazia. Não para nós. No nosso banco ao pé da árvore, podíamos falar e ouvir alguém que entendia e se fazia entender, sendo cúmplices da subversão que agride a maioria. E algo finalmente aconteceu. E se repetiu até se tornar necessário. (...) Mas o banco não era grande o suficiente para nós... E o necessário ficou pesado demais para ser carregado. Nossa imaginação viajou sacudindo a percepção da realidade, que eu já não sabia mais qual era. Não sabia mais com quem me confessar. A dor tomou conta do meu desejo e os cacos se decepcionaram. As mentiras nos magoaram e chutamos as promessas. Tudo virou nada. Mas foi perdida nos seus delírios que pude me reencontrar nas histórias dos livros que você tanto falava... E descobri outra forma de confessar meus crimes, naquilo que passei a colocar no papel. Agora, não sabemos se algo pode ser recuperado ainda. Mas, agora, tanto faz...

Raquel Abrantes

Um comentário:

  1. "Mas foi perdida nos seus delírios que pude me reencontrar nas histórias dos livros que você tanto falava..."
    Que lindeza de texto!
    E a gente parece que vira personagem.
    Sim, sou eu ali onde você falou para eu ler.
    Essa é a lindeza: Ser reconhecida!
    Que amor!

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