terça-feira, 27 de novembro de 2012

Lâmpada


olho para todos os lados
mas não vejo o que procuro
aquela lâmpada amarela
mostra que não sei como funciona
até queimar e estagnar
não sei como funciona

e não restar mais luz
e a visão comprometida
turva e, de repente,
começo a ver para dentro
que não sei como funciona

vejo uma chama
que ainda não se apagou
uma chama escondida
de uma realidade partida
cheia de faíscas e incertezas
não sei como funciona

abro os olhos doídos
de tanto esforço para enxergar
e tenho a lembrança de que
é preciso trocar a lâmpada
que não sei como funciona.


Raquel Abrantes

domingo, 25 de novembro de 2012

a poesia se perpetua no papel.
na vida, ela aparece.


Raquel Abrantes

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Sonhos


Sonhei que estava acordada
nem a cabeça do travesseiro tirei
percebi que sempre ando ocupada
esquecendo os sonhos que sonhei

alguns deles se repetem
e transferem-se para a vida real
assim como se não quisessem
permanecer no mundo astral

e de tanto acreditar neles
me sinto realizada...
porque minha alma se deteve
em uma imagem projetada

os sonhos na cama e na vida
de momentos monumentais
trazem a expectativa
de legitimarem-se leais.


Raquel Abrantes

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Utensílio


A incapacidade motora
a qual nosso corpo nos impele
ao longo de toda a vida
nos lembra o pequeno utensílio
que somos na passagem

dependemos da engrenagem
que a cada tanto
vai nos surpreendendo
nos deixando sem saber
se o andar até a praia
será prazeroso
ou doloroso
se o dia de trabalho
trará o comum cansaço
ou nos deixará um bagaço
são tantos planos
tantos que deixamos

Pagamos um pedágio
somos multados pelo uso
abusivo do motor
que nos aventa
e sabemos apenas
por onde rodamos hoje

Entre as revisões
de nosso corpo-máquina
tentamos prolongar
o tempo útil do aparelho
trocamos uma peça
recauchutamos o desgaste

e o corpo lutando
contra o tempo
que tem e que não tem
infestado de desafios
para utilizar ao máximo
e com movimentos sagazes
os propósitos da mente
transferidos aos filhos
inevitavelmente.


Raquel Abrantes

sábado, 3 de novembro de 2012

Despertar


Toca o despertador
alertando para o compromisso
de alguém que
faz o que faz
por fazer
e os ponteiros
seguem pelo dia
como sua falta de vontade
de encarar a realidade

pega o ônibus
sem ver o rosto
do motorista
apenas aquele olá
automático
ao trocador
que não sabe quem é

esqueceu de dar
um beijo em sua mulher
lembra somente no trabalho
quando espera
pela hora do almoço
que acaba rápido
e volta para o esforço
até chegar ao fim
do expediente
que o deixa contente
sem saber o porquê
porque não sabe
o que mais pode fazer.


Raquel Abrantes


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Lucidez


essa lucidez
derrama
exclama
estranha
no luar embaçado
na sombra da insensatez
guia; desvia
da percepção existente

só é possível fazer 
o que se pode
assim que este fulgor
se adaptar à obscuridade
como peças e movimentos
estratégicos e concentrados
num jogo de xadrez,
porque o óbvio
não é manifesto geral

A maioria costuma
censurar o evidente
por viciada cegueira
que dificulta a troca
na próxima jogada;
nada é de uma vez

Vamos com calma,
enxergar primeiro
com a mão, que até então
ajudou a preparar
uma simples lauda
com a letra que termina
a explanação da jogatina.


Raquel Abrantes