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Dedicatória

um pedaço de mim mamãe me deu seus traços, seus laços, seu Deus fui criar rabiscos, sonhos ariscos buscar alegria, a melhor poesia mas reconheci a verdadeira arte  na benção da maternidade  Raquel Abrantes

Recomeço

Quando eu morrer Não quero flores Não quero lágrimas Não quero dores Não quero lástimas Quando eu morrer Não me enterrem Não me encaixotem Não me velem Não me devotem Quando eu morrer Lembrem da vida Lembrem da fala Lembrem da escrita Lembrem da cara De quem viveu De quem amou De quem sofreu De quem errou De quem aprendeu (alguma coisa) Quando eu morrer Evaporem minha matéria Deixem fluir meu corpo Sumir cada artéria Esse é o meu gosto Quando eu morrer Só quero chaves Muitas, milhares Em uma caixa Isso me basta Deixem no mar Deixem enferrujar Para que portas Eu, pessoa morta, Possa descobrir A cada novo partir... Raquel Abrantes

Perguntas

Das perguntas fei(t)as Ficam os son(h)os  Na calada da paz De noite, de dia A busca das horas Mais tarde até Bem que podia Amanhecer achado Com luz de sobra E tempo de espaço Um abraço Uma dobra Que aquecem A resposta fria Raquel Abrantes

Cida*

Cida, cidade de mares, ventos, ares de vistas incomparáveis de natureza admirada muito bem resguardada pelo índio protetor, que olha sempre para o lado de fora Cida, cidade de ruas enfeitadas de gente acostumada à mesma gente que insiste em permanecer nesta casa de muito querer neste lugar de poucos bons amigos dos moços Cida, cidade; a pedra das costas os voos do parque o campo do santo o pouso do disco o passeio das vitrines a cor do caboclo Cida, cidade que cria afetos pais, filhos, netos o médico da família o dono da padaria a banca da esquina aquela boa menina Cida, cidade de aconchegante a alarida aumenta agora despercebida por mudanças urgentes prédios intransigentes carros intransitáveis custos inesgotáveis Cida, cidade fonte de vários arteiros uns loucos sem dinheiro que criam movimentos que movem momentos que aparecem e veem que, juntos, creem nas coisas boas e belas que temos ...

Grito

Fui abafar o grito ecoou por dentro clamei ao rito ressoou no vento gemi sem querer a respiração falhou decidi ir, viver o coração mandou então os olhos viram detalhes despercebidos e, com a boca, riram dos instantes partidos o brilho de fora tão perto assim a alegria do agora renasceu em mim. Raquel Abrantes

Recorte

Recorto no som um devaneio simples que deixo flutuar no tempo, na hora observo-o, sinto-o lembro sua forma o recorte, o tom as ondas que vibram até colá-lo no momento e deixar que acenda a lua que não vejo, o encaixe do desejo. Raquel Abrantes

Tasco

Algo do que era seu foi passado a mim sem querer me deu e você tirou, assim, coisas que gostou do nosso conviver; o tempo que passou e mudou o seu ser não só de você; de todos eu levo um tasco de querer que comigo carrego algum novo gosto um cheiro, uma cor sempre fica conosco do tamanho que for e a cada pedaço que vou juntando modifico meu traço aumento meu ganho pois o que acabou deixou um bilhete, que impressionou, marca de estilete.  Raquel Abrantes