sexta-feira, 6 de junho de 2014

Sem querer


O lustre balançava ao correr da festa. Sobrevoava meus pensamentos. Ia e vinha, enquanto eu ficava. Sem querer. Ficava por já estar ali. Também oscilante, por dentro. E os ruídos inconvenientes ao meu estatuário momento. Os ruídos também ficavam. Nem foram convidados. Detesto visitas inesperadas. Nem tão intenso esse desgosto. Pode ser encantadora a chegada. Mas aquela(s), não. E meu abrigo, meu amigo, meu parceiro. Quem dera desse um jeito! Via o lustre e ele até parecia alegre, balouçando... Pensando bem – como tive tempo, apesar do desvio do rumo dos meus devaneios (se é que devaneio tem rumo). Devia estar nervoso com aquela agitação. Sua estrutura ameaçada, desvalorizada, suprimida. Sem querer. Faço coisas sem querer. Como uma palavra mal recebida. Quando quero, faço mesmo. E aí recebe quem a quiser. Umas letras perdidas que às vezes acho. Descubro uma frase e me torno real. Mais real que um instante presenciado por muitos. Apesar da festa continuar como se eu não estivesse.


Raquel Abrantes


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