sexta-feira, 9 de março de 2012

Adoniran

Rafael Linden*

             Ele entrava no botequim cantando sua versão do Trem das Onze: “Quás, quás, quás, dá um traguinho dum, duru-dum-dum!”. Daí o apelido, pois o nome ninguém sabia. Às onze da manhã, já mal se equilibrava num colchão de ar que flutuava ali pela Rua Real Grandeza. Quando faltava, a esposa do Almirante perguntava ao jornaleiro: “Ô Jarbas, cadê Adoniran? Faz dois dias que sumiu, aconteceu alguma coisa?”. “Não esquenta, Dona Leontina, ele é de ferro. Cachaça não enferruja, né? Ha, ha!”. Dia seguinte, lá estava o Adoniran, trôpego, tirando o chapéu imundo para as senhoras. Era patrimônio do bairro, sustentado pela generosidade pública.
            As beatas tinham-lhe horror, mas só oficialmente. Rezavam por ele na Matriz, até porque o bebum lhes era útil. “Viu, meu filho, se você desobedecer seus pais e não estudar, vai acabar feito o Senhor Adoniran!”. Tratamento respeitoso para um ícone do desvio, exemplo bem a calhar para educar a filharada. Mal sabiam.
            Uma fofoqueira deu de cara com ele descendo a ladeira do Morro de Santa Marta e espalhou na vizinhança. Descobriram que Adoniran obedecera papai e mamãe, estudara até a pós-graduação. Morara em Genebra, trabalhara num centro internacional de pesquisa ou, quem sabe, num daqueles bancos que lavam dinheiro de bandido. Acabou num barraco mal-ajambrado, num pedaço da favela onde ninguém queria morar.
            “Então foi isso. Aquela coisa de cientista, cheia das matemáticas, piorou o Adoniran, ele deu de beber e se desgraçou, eu mesmo a tal das fração me dava nó na idéia, não passei do primário e só arrumei emprego de boy. No fim do dia eu tomo uma loura só, se chegar em casa torto a patroa chia. Senão, eu gastava tudo na birita”, dizia Seu Arnaldo, mineiro, cinquenta e sete anos, quatro filhos, dois salários mínimos, morador de um cortiço na Rua Martins Ferreira.
            O Agenor, auxiliar de almoxarife, rebateu: “Foi mais é rabo de saia, arrumou alguma francesa peituda e a mulher corneou ele. Lá vive cheio de gringo, como é que mulher nascida em país de bacana vai aguentar um cara de suburbano desses? É dor de corno, chêchê la fêmea, isso sim! Eu mesmo só não entorno porque a Alaíde me deu casa, comida, cinco filhos e engordou trinta quilos, essa não me larga”.
            O Ademar, operário, capenga, sempre militante, se enfureceu. “Ô ignorante, Genebra é na Suíça, aquela dos relógios. Foi a ditadura, isso sim, homem estudado só podia ser contra, tacharam ele de terrorista, levaram no meio da noite pra Barão de Mesquita, tomou choque até torrar o saco, depois largaram ele no meio da Rio-São Paulo. Eu mesmo levei cacete no DOPS, perdi o ano na faculdade e o reaça do meu pai me expulsou de casa quando soube que eu era do Molipo. Só não encho a cara porque arrebentaram meu fígado”.
            “Vocês não fazem fé em brasileiro. Pra mim o Adoniran inventou um parangolé legal só usando um canivete e a cachola, os japas roubaram ele e agora tão botando o aparelinho nos dêvêdê. Eu mesmo inventei um doce lá na padaria e o português, em vez de me dar aumento, me botou foi no olho da rua. Aquele safado do Demerval paga uma miséria no botequim, só não engulo as cachaças todas porque a patroa tem nojinho, senão aquele unha-de-fome ia me pagar era em canabrava”, emendou o Maringá, um salário mais gorjetas.
            Já o Mendonça, auxiliar de carpinteiro, divergia. “Aposto que foi bolsa de valores, o cara ganhou uma nota, comprou cobertura na Barra, botou mulher lá dentro e cheirou tudo que tinha, até eu dei mole prum vigarista, meti grana em ação podre e perdi vinte anos de trabalho suado, só ando de cara limpa porque só dá pra tomar umazinha no sábado, e olhe lá”.
            Dali a pouco estava o maior bate boca na frente da banca do Jarbas, os cinco e mais uma dúzia, todos ao mesmo tempo, cada um aferrado a sua teoria sobre o vício do coitado. Cada um querendo que sua própria desgraça fosse a do Adoniran.

Um comentário:

  1. Rafael, vc escreve muito bem! Seu texto é gostoso de ler!

    Parabéns! Espero ver mais textos seus por aqui.

    Bjs,
    Raquel.

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