quinta-feira, 29 de março de 2012

_ about growing up

Por Flavia Melissa*

Quando eu era pequena e me falavam a respeito de um pote de ouro que existiria ao final de todo arco-íris, ninguém disse que existiam cores frias e cores quentes. Ninguém disse o quão geladas elas poderiam ser na ausência do sol, nem quanto poderiam queimar sem uma brisa suave qualquer.
 
Quando me ensinaram a mergulhar, ninguém se lembrou de me alertar que às vezes a piscina poderia estar sem água. Ou que nas doces águas se afunda mais rápido do que nas salgadas. E que, no mar, a gente não pode engolir água se sentir sede, porque se não morre mais rápido. Me ensinaram que peixe grande com barbatana era perigoso, mas nunca me disseram que golfinho também é grande e tem barbatana, e ai!, que tantos deles passaram por mim e eu fugi, perdida no meu medo.

Quando me mostraram que existiam coisas que voavam, tinham asas mas não eram pássaros eu abri a minha boca e não acreditei que, quem quer que fosse que subisse naquilo, poderia voltar são e salvo. Eu senti medo ao vestir o capacete, eu senti borboletas no estômago quando apertaram o cinto de segurança e senti o coração sair pela boca quando ganhei os céus. E, naquele dia, quando meu pai me mandou segurar firme o manche, eu segurei, mas fechei meus olhos e não notei que era eu, tão pequena eu, quem nos manteve acima das nuvens.

Quando me mostraram que eu deveria pegar areia únida para servir de base para construir meus castelos na praia, não me disseram que ela também secava quando exposta ao sol, e que o destino de qualquer construção de areia seria a destruição. Sendo assim, eu não entendi que tudo é efêmero, que o passado pode ser tão real quanto o presente mas que, o futuro, é uma grande bexiga colorida prestes a estourar. Eu não entendia quando via aquelas mulheres de branco jogando flores na água porque não sabia que, lá no fundo, haveria alguém a recebê-las.

Quando aprendi que plantas davam frutos e que, às vezes, deveríamos torrá-los para que fossem mais saborosos, ninguém me disse que também o ouro passa pelo calor do fogo para ser purificado. E que, ao usar protetor solar, apenas aumentamos o fator de proteção de nossa própria pele, ninguém me disse que eu seria capaz de suportar minhas próprias dores para me transformar em um ser humano melhor.

 
Quando entendi que lagartas e borboletas não eram animais distintos eu senti nojo, e não entendi que todos nós temos que passar pelo aprisionamento do casulo para, um dia, colorir os jardins da vida. Não percebi que existia um sofrimento genuíno ali envolvido, não cogitei o quanto deveria doer ter aquelas asas enormes saindo de um corpinho tão delgado. Não me dei conta de que, afinal de contas, eu também era uma lagarta que em breve encararia a clausura do casulo.
 
E o casulo dói, mas também liberta. Liberta porque, na escuridão, nenhuma cor é fria ou quente demais. Na escuridão do casulo a umidade não sufoca nem afoga, apenas protege, amolecendo a pele para que as asas finalmente saiam. No escuro lá de dentro, todos os castelos de areia podem ser eternos pois nunca chegam, de fato, a serem finalizados, sempre mudam, sempre mudam.
 

E foi sozinha que eu aprendi sobre inconstância e impermanência, que regem o ciclo de vida de todas as plantas, de todas as bexigas coloridas, de todas as meninas que, aos 7 anos, são capazes de ficar no sol com FPS 2 sem se queimar. Que seguram firme seus manches e se mantêm acima das nuvens.

*Outros textos da escritora em http://flaviamelissa.blogspot.com.br/

3 comentários:

  1. Flavia,

    Que delicadeza de texto! São vários os casulos na vida, um mais libertador que o outro.

    Obrigada pela participação!

    Beijos

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  2. Raquel, adorei participar! Obrigada pelo convite e muito sucesso sempre! Beijos

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