domingo, 9 de agosto de 2009

Tons

Camila virou a esquina e um homem quase imaginário parou na porta da loja, olhando para ela. Já era possível admitir a si mesma o merecimento do flerte, consciente que se tornou de seus atributos e classificações, cobiçados por vários homens, mas repudiados pela maioria dos representantes do sexo masculino.

Uma coragem avassaladora a fez ultrapassar o sinal do constrangimento e percorrer a distância entre os dois, iniciando uma conversa naturalmente, como se fossem velhos amigos desde aquele momento. Coisa que Renato desejou no primeiro instante em que avistou Camila, mas ele não tinha chance perante todos os outros homens, assim pensava.

Quando aquela menina, com feições macias e alongadas, chegou perto de seu toque, Renato aceitou a infinidade de trocas oferecidas bem na sua frente, que não passavam despercebidas. Afinal, raros são os bons encontros com as sensações. Na maioria das vezes, as mulheres lhe despertam algo isolado, e, apenas somando umas dez, cada qual com sua vantagem, ficaria satisfeito. Desta vez, havia descoberto o pacote inteiro em uma só.

Camila exaltava a beleza física por seus pensamentos e filosofias, não menos admiráveis, de vivência indispensável. E os contornos ásperos daquele rosto atraente e gentil a fizeram retomar uma disposição adormecida para o desconhecido. Levantou a cortina com o cenho franzido de incertezas, mas convicto de vontade, e deleitou sorrisos entre as diversões de uma longa noite.

Dançaram sem ouvir a música, tampouco podiam acompanhar o ritmo proposto pela banda. Mas se acompanhavam, a cada movimento, da entrada à saída, de uma porta a outra, como se nada mais importasse. Passaram-se muitas horas das risadas e comidas até o voltar para casa (dele).

Tirou a roupa. Camila abriu os canais dos sentidos e sintonizou tentativas. Apesar da desconfiança com relação aos defeitos de um futuro próximo, as qualidades lhe fizeram um convite irrecusável. Os dois deixaram que os poros decidissem a questão. Posteriormente seguida de outras questões, que iam sendo solucionadas na sucessão dos pequenos mistérios desvendados. E, como teria mesmo de ser, naquela conjectura, as sardas dela desmaiaram ao lado das suaves pintas no peito dele, e falaram sobre isso, como se a voz alta inaugurasse um universo de tons entre um e outro.


Raquel Abrantes

4 comentários:

  1. Seu post mexe com os sentidos. Bem bacana.

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  2. Raquel,
    Você recria o Neruda aí do lado..."não eram palavras, nem silêncio(...) e fui tocado. Pura essência de ser.
    Bj
    CEL

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  3. Ah, Renato!rs.Renatos deveriam ler o seu blog para compreender a intensidade dos momentos, perderem o medo e não mais partir em vão.

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  4. olá, gostei de seu blog! estou começando um, espero que possamos compartilhar vários tipos de assuntos e trocar opiniões.

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