quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Pele

É algo como se as camadas da pele fossem arrancadas uma a uma, similares a páginas de um livro lido, rompendo o trabalho de encadernação. Origens machucadas e reunidas todas ali, apesar de sua falta de função no contexto. Aquele esqueleto exposto, sujeito a alterações químicas, perde a fala em meio aos ruídos da raspagem, a cada milímetro que a lixa avança tentando corrigir suas imperfeições, sem anestesia. O pó responde pela transformação ou retorno a si mesmo, poderíamos dizer, e se espalha pulverizado, ocupando espaço e perdendo o seu próprio. Entre frestas de luz que se abrem inesperadamente, o ar brilha poluído, denso, ganha corpo, para depois se dispersar gradativamente, na medida em que baixa a poeira... até voltar a ser o que os olhos não conseguem ver.


Raquel Abrantes

3 comentários:

  1. Linda esta analogia entre pele e páginas. É verdade, nossa pele traz inscrições, marcas, sulcos, ranhuras, que são produzidas pela linotipia da nossa história em nossa alma.
    Bjs
    CEL

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  2. Amiga, simplesmente lindo... adorei...

    Sempre soube que escrevia bem...mas nunca tinha realmente lido algo. Me surpreendi com tamanha maturidade e sensibilidade...

    Só digo uma coisa: continue...não para nunca de escrever...de compartilhar essa "mente brilhante" com os outros seres mortais!!

    Um beijão. Te adoro. Aninha.

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  3. O verdadeiro, porém clichê:"O essencial é invisível aos olhos".(Saint-Exupéry).A essência humana está no devir, é a carne,camadas de pele,ossos e o pó, por fim, a liberdade, a essência verdadeira toma seu rumo e nos completa.Libertos,levitaremos da obrigação do ser, 'a insustentável leveza do ser"("..Levitar sobre o peso de viver..."- Paulinho Moska).Novas viagens?Não sei, eu só acredito na liberdade, espero que seja a mais suave das liberdades.Bjão!

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