quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Estranhos passos

Estranhos passos que damos às vezes na vida. Uns nos levam para frente, outros nos fazem voltar atrás... E, às vezes, perdemos a direção. Ficamos parados esperando o sinal abrir, e não conseguimos atravessar, mesmo quando está verde lá no alto. Olhamos o fluxo de carros, os transeuntes seguindo para seus compromissos e nada nos faz andar. Sinto falta das suas risadas. Estranhos passos que às vezes não damos. A ordem para que as pernas avancem não sai de nossos cérebros. É como se déssemos tantas voltas dentro da cabeça que o cansaço fosse transmitido aos músculos, sem terem chegado a se movimentar. Passamos por lojas, pessoas, momentos, supermercados, que cruzam nossos passos, e exercem seu efeito catalisador. Acrescentam, modificam. Mudamos o olhar, a opinião, o gesto, a entonação da voz, a cor do cabelo, o modelo da roupa, a parte lida do jornal, a forma de se divertir. Às vezes, somos levados pelos movimentos do mundo, inexplicáveis translação e rotação do estado das coisas, apesar da impressão de estar sempre no mesmo lugar. Quando algo é muito bom, é muito ruim quando é ruim. Estranhos passos que damos às vezes na vida. Podemos começar a andar sem ao menos perceber, seguindo como os demais transeuntes, em direção aos compromissos. Deixamos de observar o fluxo dos carros e só esperamos o sinal abrir para avançar finalmente. Entre caos e ordem; pano de fundo, este, que nos mantêm girando. Nem que seja dentro da cabeça.


Raquel Abrantes

2 comentários:

  1. Depoimento:
    O passo mais estranho que dei foi em direção à palavra. Depois que concretizei o primeiro, vacilei no segundo. Fiquei inerte e minha inércia já era o sinal da queda premeditada. Depois, aos poucos, muito lentamente, veio o segundo. Este foi mais largo, ainda não tanto autoral, mas senti que poderia retirar a primeira perna do primeiro passo. Foi a partir do terceiro passo em direção à palavra que me perdi. O vento zoou por detrás da minha nuca e nunca mais fui o mesmo. Alucinei bêbado rimas e outras maledicências por entre vogais e substantivos. Depois disso nunca mais fui o mesmo e a última vez que soube de mim meus passos tinham ido de encontro com as suas palavras.
    bjs e, como vc vê, continuo me inspirando em vc
    Carlos Eduardo

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