terça-feira, 29 de julho de 2014

direção

  
três degraus
dois                  uma porta se abre.
um                           dentro da porta, outra porta.
                               a partir dela, mais degraus:
                                                                       três
                                                                               dois
                                                                                       um

sinto rajadas de vento
sigo a brisa de uma grande janela
aberta para nada, além do horizonte
cru inerte nebuloso
incrustado de talvez
que me repeliu

retrocedo

zero
                menos um
menos dois
                menos três
um salão amplo, arejado, onde as cortinas diáfanas
aliviaram momentaneamente a sensação torpe da alma
sobre portas duplas de madeira, talhadas de muitas histórias
às quais não se acostumaram, mesmo depois de tanto tempo

olho ao redor
nada me inspira
fecho os olhos e abro o peito:
respiração profunda me responde

avisto um corredor até outra porta, diferente,
sem marcas. nascente. sabor morango.
parecia casa de boneca; inocência primeva que não teme...

a porta libertou um sorriso
e o odor verde me resgatou

uma escada encostada na árvore:
um dois três quatro cinco seis sete oito nove dez onze doze
degraus

sem hesitação
em ascendente ímpeto
pela luz que sussurrava meu nome
um mundo crescente
que, daquela altura,
até cabia em minhas mãos pequenas
confiantes e incansáveis


Raquel Abrantes

terça-feira, 22 de julho de 2014

lados, teto, chão
comichão danada essa
farpa que entra no pé
naquele piso velho
ninguém usa mais
e eu ainda tenho
pé direito alto também
mas nem tanto para escapar
do resto do taco usado
por todos os lados piso
paredes espinhosas
tão em desuso quanto
escoram o peso do corpo
no teto rebaixado vejo
aquele lustre engessado
ilustrado de luzes demais
vidros demais
fios demais
espaço demais
para dois pés descalços
para duas mãos ásperas
para uma pessoa só
com tantos lados
quanto aquela casa.


Raquel Abrantes

domingo, 13 de julho de 2014

veio, veio e quis ficar
se alastrou pelas dobras
um tempo irreal
tão irreal como eu
há alguns minutos
à vontade
sem nada
queixar nem deixar
malicioso estúpido resistente
nós entrecortados
nós entrelaçados
ainda agora está
como antes
inverídica
a vinda e a ida
para nada
por nada
de nada
não tem de quê.
Só um quê perdido
sussurra no ouvido
transparece
nem pesar, pesa
e passa, passa...
vê na volta
o próprio rabo
no fim da curva
desventura
daqueles que


Raquel Abrantes

terça-feira, 1 de julho de 2014

Poesia




uma letra
leva a duas
e o número
acrescenta

mesmo curta
a palavra diz
entre vírgulas,
reticências...

às vezes mais
que belas frases
bem compostas
carismáticas

escrita acende
suas entranhas;
como bate
para abater

(pode rimar
com outra
ou estranhar
a própria)

sem trair, atrai
sintonias várias
pela pulsação
conexa e cara.


Raquel Abrantes