domingo, 25 de maio de 2014

Ele




Um deslumbre! Bem torneado, traços finos e definidos, intervalos atraentes entre as expressões. Encantamento instantâneo. Naquela livraria, as estantes perderam o costumeiro sabor. Não conseguia tirar os olhos dele, que não me via.

Seu tom avermelhado, corado, marcante. Estava tudo ali. O nome chamava a atenção e, pelo que pude perceber, meio de perto meio de longe, tinha conteúdo de valor. Palavras de arrepiar a pele e expandir o cérebro. Repensar o lógico. Estava apaixonada. Queria porque queria. Mas não era meu. 

E continuei admirando, fascinada. Nenhum barulho, distração, gente chegando; nada tirava meus olhos daquela direção. De vez em quando, piscavam, e lamentava o lapso de adoração.

Perdi a fome, esqueci o nome do autor que procurava, o tempo me deixou e continuei lá. Estática, sorridente, feliz e frustrada. Tinha que tomar uma atitude. Pelo menos tentar me aproximar. Fazer um movimento... Tomei coragem.

Fui até a mesa do café e perguntei à linda mulher que o acompanhava se poderia me juntar a eles por uns minutos, que estava sozinha e o público de livraria... blá blá blá. Coisa de quem não tem o que dizer. Surpresa com sua simpatia, que puxou uma cadeira, sorri agradecida.

Fiquei só observando, enquanto ela falava. Sondei todos os ângulos dele. Sem ar de ameaça, cuidadosamente. Era um gesto sutil, quase infantil – não longe da verdade. Cheguei a tocá-lo. Assim, do nada, e virei as folhas do juízo. Indaguei a essência de sua história, com minha imaginação ansiosa. Obtive apenas impressões. Mas todas elas reforçavam meu desejo. 

Até que aquela, então oportuna, mulher precisou ir embora e, inevitavelmente, levá-lo com ela. Como foi difícil e doloso chegar à última declaração possível. Fechar a capa do livro e devolvê-lo foi como o término do meu romance. Precisava comprá-lo.

Lacunas ficaram para preencher, como em uma relação mal-resolvida. Comecei uma busca incansável pela mesma edição, mesma capa, tudo igual. E, depois de longa jornada, encontrei o meu amor. Passei horas desfrutando seus dizeres, serenatas, sussurros e companhia. Dormi exausta em regozijo, após ter saboreado uma vida inteira de satisfação. Nada poderia ser mais intenso que a última palavra. Já sentia saudade da minha história, que chegara ao fim.

Para revivê-la, me depararia com trechos antes absorvidos de maneira diferente por meu cognitivo. O estranhamento de um passado que não volta, sem descobertas pelo caminho. O que poderia ser a partir de um retorno; não o que foi. Aquelas recordações tão queridas eram únicas e inalteráveis. Pensamentos tão elevados e emoções extravagantes pelas quais serei eternamente grata. Não o li pela segunda vez. 

Tenho a capacidade de focar a memória e relembrar na pele o que o corpo guardou, transmitido pela mente, como se realmente tivesse acontecido. Posso abraçá-lo e cheirar suas folhas, como uma cega apaixonada, incapaz de esquecer quem não lhe diz nada de novo. Até que outro me atraia para suas letras...


Raquel Abrantes

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Deserto em cor*



gosto de ar seco
penetra a garganta
sob o sol do meio-dia
cheio de cor.

tons verde-amarelado,
azul-acinzentado,
branco-leitoso,
marrom-rochoso 
completam
a visão de um mundo
árido 
e cheio de esperança. 

reconstrução contínua
que a chuva esparsa permite.

o chão duro
aquece o solado da botina
o sol intenso atravessa
lentes de óculos
vagamente protetores.

as mãos tremem
com reticência crescente
ante cenário de rara beleza
e simplicidade marcante.

fecho o diafragma,
aumento a velocidade;
ansioso retratar
dos sentidos do corpo.

delimito o quadro,
sacudo as calças 
pelo equilíbrio,
com abdômen contraído
e quadril encaixado.

clico
como jamais
novamente.

cada foto
é em si mesma
e parte da natureza.

viajo sozinho
me perco de mim.


* Poema e foto do convidado Ronaldo Ramos.
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