terça-feira, 29 de julho de 2014

direção

  
três degraus
dois                  uma porta se abre.
um                           dentro da porta, outra porta.
                               a partir dela, mais degraus:
                                                                       três
                                                                               dois
                                                                                       um

sinto rajadas de vento
sigo a brisa de uma grande janela
aberta para nada, além do horizonte
cru inerte nebuloso
incrustado de talvez
que me repeliu

retrocedo

zero
                menos um
menos dois
                menos três
um salão amplo, arejado, onde as cortinas diáfanas
aliviaram momentaneamente a sensação torpe da alma
sobre portas duplas de madeira, talhadas de muitas histórias
às quais não se acostumaram, mesmo depois de tanto tempo

olho ao redor
nada me inspira
fecho os olhos e abro o peito:
respiração profunda me responde

avisto um corredor até outra porta, diferente,
sem marcas. nascente. sabor morango.
parecia casa de boneca; inocência primeva que não teme...

a porta libertou um sorriso
e o odor verde me resgatou

uma escada encostada na árvore:
um dois três quatro cinco seis sete oito nove dez onze doze
degraus

sem hesitação
em ascendente ímpeto
pela luz que sussurrava meu nome
um mundo crescente
que, daquela altura,
até cabia em minhas mãos pequenas
confiantes e incansáveis


Raquel Abrantes

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