quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Mais um ano



Mais um ano chega
se despede de dezembro
com pulsão transformadora

deixa o que passou em seu lugar
quer mostrar a que caminha,
sua paixão edificante

para despender menos e construir mais
perceber em vez de palestrar
organizar o que resta confuso
eleger os arredores dele mesmo
perto, continuamente perto,
outros, por falta de mais, que sigam
em frente, sempre, adiante
cada qual para o lado cabido
cada um em seu instante

prefere o amor ao ardor
o perdão diante da dor
a oração que faz sentir
na pele a mudança tênue
ou evidente para toda gente
enfim, um ano para ser
melhor que o anterior,
como tenta o ser humano
a todo novo ano.


Raquel Abrantes

domingo, 30 de novembro de 2014

contagem


ponteiros se sobrepõem
no passar das horas
e nada
acumulo minutos de ingratidão
passíveis de cobrança
sempre passíveis de cobrança
passivos.
passáveis, talvez
como o tempo
que continua intercalando
horas minutos segundos
prefiro pensar no intermediário
como a meta de equilíbrio na vida
assim a culpa se dilui mais depressa
não tanto quanto o ponteiro que não para
mas o bastante para aguardar as horas
em que tudo será retribuído compensado
em que poderei mergulhar sem sentir frio
em que irei emergir sorrindo
e voltar os olhos para quem amo
vitoriosa por meu desempenho
naquela piscina vazia de gente
porque as pessoas estavam aqui ao lado
sem cronômetro
apenas entregues presentes
e os ponteiros serão novamente
uma mera burocracia da cidade
para aproximar todo mundo
evitar desencontros
pela falta de sincronia
e ocuparei o meu espaço
no molhado e no seco
mais habitados que antes.
                                                                                                

Raquel Abrantes

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Névoa


a névoa tirou o brilho
de outro sono perdido
evaporado pela mente
escaldante e consciente

na bruma, a paz imensa
pode favorecer a crença
sem estrelas intrometidas
a figura introspectiva

dançar de fumaças
o silêncio abarca
e mostra a alegria
do instante, guia.


Raquel Abrantes

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

batidas, freadas
movimentos errantes
além da rua
calçada adentro
atingem o passeio
de pessoas e bichos
em andar adquirido
que desviam ou não
saem ilesos ou não
na mão certa ou contra
apenas o vento a favor
demasiado leve
para o atrito
grito!


Raquel Abrantes

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

unha quebrou
entrou na carne
sangrou a porta
que bateu
Quem é?
quem não importa
travessia torta
de mau jeito
apreço próprio
apressado
desesperado
errou o foco
traiu o cenho
franziu o certo
olhou o teto
quase apagou
a luz da casa
onde caía;
vai e vem
volta e revolta
sem porquês
sem outra vez.


Raquel Abrantes

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Os passados
revertidos em hoje
simulam janelas;
tarde reestruturada,
luz intrínseca

a hora, o instante
desencontram-se
isentos
de águas antes
transcorridas

~~~~~~~~~~

moléculas pululantes
sem propagação.


Raquel Abrantes

terça-feira, 29 de julho de 2014

direção

  
três degraus
dois                  uma porta se abre.
um                           dentro da porta, outra porta.
                               a partir dela, mais degraus:
                                                                       três
                                                                               dois
                                                                                       um

sinto rajadas de vento
sigo a brisa de uma grande janela
aberta para nada, além do horizonte
cru inerte nebuloso
incrustado de talvez
que me repeliu

retrocedo

zero
                menos um
menos dois
                menos três
um salão amplo, arejado, onde as cortinas diáfanas
aliviaram momentaneamente a sensação torpe da alma
sobre portas duplas de madeira, talhadas de muitas histórias
às quais não se acostumaram, mesmo depois de tanto tempo

olho ao redor
nada me inspira
fecho os olhos e abro o peito:
respiração profunda me responde

avisto um corredor até outra porta, diferente,
sem marcas. nascente. sabor morango.
parecia casa de boneca; inocência primeva que não teme...

a porta libertou um sorriso
e o odor verde me resgatou

uma escada encostada na árvore:
um dois três quatro cinco seis sete oito nove dez onze doze
degraus

sem hesitação
em ascendente ímpeto
pela luz que sussurrava meu nome
um mundo crescente
que, daquela altura,
até cabia em minhas mãos pequenas
confiantes e incansáveis


Raquel Abrantes

terça-feira, 22 de julho de 2014

lados, teto, chão
comichão danada essa
farpa que entra no pé
naquele piso velho
ninguém usa mais
e eu ainda tenho
pé direito alto também
mas nem tanto para escapar
do resto do taco usado
por todos os lados piso
paredes espinhosas
tão em desuso quanto
escoram o peso do corpo
no teto rebaixado vejo
aquele lustre engessado
ilustrado de luzes demais
vidros demais
fios demais
espaço demais
para dois pés descalços
para duas mãos ásperas
para uma pessoa só
com tantos lados
quanto aquela casa.


Raquel Abrantes

domingo, 13 de julho de 2014

veio, veio e quis ficar
se alastrou pelas dobras
um tempo irreal
tão irreal como eu
há alguns minutos
à vontade
sem nada
queixar nem deixar
malicioso estúpido resistente
nós entrecortados
nós entrelaçados
ainda agora está
como antes
inverídica
a vinda e a ida
para nada
por nada
de nada
não tem de quê.
Só um quê perdido
sussurra no ouvido
transparece
nem pesar, pesa
e passa, passa...
vê na volta
o próprio rabo
no fim da curva
desventura
daqueles que


Raquel Abrantes

terça-feira, 1 de julho de 2014

Poesia




uma letra
leva a duas
e o número
acrescenta

mesmo curta
a palavra diz
entre vírgulas,
reticências...

às vezes mais
que belas frases
bem compostas
carismáticas

escrita acende
suas entranhas;
como bate
para abater

(pode rimar
com outra
ou estranhar
a própria)

sem trair, atrai
sintonias várias
pela pulsação
conexa e cara.


Raquel Abrantes

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Sem querer


O lustre balançava ao correr da festa. Sobrevoava meus pensamentos. Ia e vinha, enquanto eu ficava. Sem querer. Ficava por já estar ali. Também oscilante, por dentro. E os ruídos inconvenientes ao meu estatuário momento. Os ruídos também ficavam. Nem foram convidados. Detesto visitas inesperadas. Nem tão intenso esse desgosto. Pode ser encantadora a chegada. Mas aquela(s), não. E meu abrigo, meu amigo, meu parceiro. Quem dera desse um jeito! Via o lustre e ele até parecia alegre, balouçando... Pensando bem – como tive tempo, apesar do desvio do rumo dos meus devaneios (se é que devaneio tem rumo). Devia estar nervoso com aquela agitação. Sua estrutura ameaçada, desvalorizada, suprimida. Sem querer. Faço coisas sem querer. Como uma palavra mal recebida. Quando quero, faço mesmo. E aí recebe quem a quiser. Umas letras perdidas que às vezes acho. Descubro uma frase e me torno real. Mais real que um instante presenciado por muitos. Apesar da festa continuar como se eu não estivesse.


Raquel Abrantes


domingo, 25 de maio de 2014

Ele




Um deslumbre! Bem torneado, traços finos e definidos, intervalos atraentes entre as expressões. Encantamento instantâneo. Naquela livraria, as estantes perderam o costumeiro sabor. Não conseguia tirar os olhos dele, que não me via.

Seu tom avermelhado, corado, marcante. Estava tudo ali. O nome chamava a atenção e, pelo que pude perceber, meio de perto meio de longe, tinha conteúdo de valor. Palavras de arrepiar a pele e expandir o cérebro. Repensar o lógico. Estava apaixonada. Queria porque queria. Mas não era meu. 

E continuei admirando, fascinada. Nenhum barulho, distração, gente chegando; nada tirava meus olhos daquela direção. De vez em quando, piscavam, e lamentava o lapso de adoração.

Perdi a fome, esqueci o nome do autor que procurava, o tempo me deixou e continuei lá. Estática, sorridente, feliz e frustrada. Tinha que tomar uma atitude. Pelo menos tentar me aproximar. Fazer um movimento... Tomei coragem.

Fui até a mesa do café e perguntei à linda mulher que o acompanhava se poderia me juntar a eles por uns minutos, que estava sozinha e o público de livraria... blá blá blá. Coisa de quem não tem o que dizer. Surpresa com sua simpatia, que puxou uma cadeira, sorri agradecida.

Fiquei só observando, enquanto ela falava. Sondei todos os ângulos dele. Sem ar de ameaça, cuidadosamente. Era um gesto sutil, quase infantil – não longe da verdade. Cheguei a tocá-lo. Assim, do nada, e virei as folhas do juízo. Indaguei a essência de sua história, com minha imaginação ansiosa. Obtive apenas impressões. Mas todas elas reforçavam meu desejo. 

Até que aquela, então oportuna, mulher precisou ir embora e, inevitavelmente, levá-lo com ela. Como foi difícil e doloso chegar à última declaração possível. Fechar a capa do livro e devolvê-lo foi como o término do meu romance. Precisava comprá-lo.

Lacunas ficaram para preencher, como em uma relação mal-resolvida. Comecei uma busca incansável pela mesma edição, mesma capa, tudo igual. E, depois de longa jornada, encontrei o meu amor. Passei horas desfrutando seus dizeres, serenatas, sussurros e companhia. Dormi exausta em regozijo, após ter saboreado uma vida inteira de satisfação. Nada poderia ser mais intenso que a última palavra. Já sentia saudade da minha história, que chegara ao fim.

Para revivê-la, me depararia com trechos antes absorvidos de maneira diferente por meu cognitivo. O estranhamento de um passado que não volta, sem descobertas pelo caminho. O que poderia ser a partir de um retorno; não o que foi. Aquelas recordações tão queridas eram únicas e inalteráveis. Pensamentos tão elevados e emoções extravagantes pelas quais serei eternamente grata. Não o li pela segunda vez. 

Tenho a capacidade de focar a memória e relembrar na pele o que o corpo guardou, transmitido pela mente, como se realmente tivesse acontecido. Posso abraçá-lo e cheirar suas folhas, como uma cega apaixonada, incapaz de esquecer quem não lhe diz nada de novo. Até que outro me atraia para suas letras...


Raquel Abrantes

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Deserto em cor*



gosto de ar seco
penetra a garganta
sob o sol do meio-dia
cheio de cor.

tons verde-amarelado,
azul-acinzentado,
branco-leitoso,
marrom-rochoso 
completam
a visão de um mundo
árido 
e cheio de esperança. 

reconstrução contínua
que a chuva esparsa permite.

o chão duro
aquece o solado da botina
o sol intenso atravessa
lentes de óculos
vagamente protetores.

as mãos tremem
com reticência crescente
ante cenário de rara beleza
e simplicidade marcante.

fecho o diafragma,
aumento a velocidade;
ansioso retratar
dos sentidos do corpo.

delimito o quadro,
sacudo as calças 
pelo equilíbrio,
com abdômen contraído
e quadril encaixado.

clico
como jamais
novamente.

cada foto
é em si mesma
e parte da natureza.

viajo sozinho
me perco de mim.


* Poema e foto do convidado Ronaldo Ramos.
Veja outros ângulos do fotógrafo

sábado, 5 de abril de 2014

minúcias


dita que eu escrevo
acho melhor assim
você falar pra mim
que consigo mesmo

vamos tentar mímica
pelos movimentos
vou me envolvendo
já que sobra química

veja aquelas pinturas
e me aponte algumas
passo pela cor da bruma
tento ler suas loucuras

difícil também?
não tem problema
faço um poema
só lhe quero bem...

ah, canta uma música
acompanho o tom
danço sua expressão
desvendo suas minúcias.


Raquel Abrantes

domingo, 23 de março de 2014


Queria dizer
palavra escapou
fico onde estou
são coisas, coisas
e dizer, dizer
não é meu forte
vou sem norte.
Tudo bem por aí?
aqui é assim
quando já vi
findo antes
do enfim.
Flagrante
alguém me vê
não sei o quê
que se ame
(pusilânime)


Raquel Abrantes

quinta-feira, 20 de março de 2014

Despedida


esse perder-se
esse trancar-se
esse em-si-mesmo

sem idas nem vindas
depois da despedida

a mágoa desgraçada
a realidade renegada

Mas o que foi
novamente será;

viemos para andar

ordenados a sentir
até a sombra sumir

inundar a vista
desabar o tormento:

o ardor da vida
é iminente

(cicatriza a pele
retoma a corrente)

consentimento
que a carne impele.


Raquel Abrantes

sábado, 1 de março de 2014

Distração


me distraio...
trabalhos escrevem laudas
agendas organizam datas
louças deixam seu brilho
poeiras libertam a casa

me distraio...
a estante separa vontades
por estilo, tema, autor
livros leem meu momento;
marcam várias páginas

me distraio...
o calor solta sua brisa
e as cortinas dançam comigo
ventos fortes espalham cacos
reunidos pela ativa vassoura

me distraio...
as nuvens desenham o céu
de forma branda, acolhedora
e visto o sol ao meio-dia
natureza que consente admirar.

Distraída venço.
Desabitada, volto.

Sublimo 
meu coração ilógico.


Raquel Abrantes

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Dedicatória



um pedaço de mim mamãe me deu
seus traços, seus laços, seu Deus
fui criar rabiscos, sonhos ariscos
buscar a alegria, a melhor poesia
mas reconheci minha verdadeira arte 
ao descobrir a benção da maternidade 


Raquel Abrantes

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Recomeço


Quando eu morrer
Não quero flores
Não quero lágrimas
Não quero dores
Não quero lástimas

Quando eu morrer
Não me enterrem
Não me encaixotem
Não me velem
Não me devotem

Quando eu morrer
Quero ver sorrisos
Quero ver brindes
Quero o paraíso
Quero o alinde

Quando eu morrer
Lembrem da vida
Lembrem da fala
Lembrem da escrita
Lembrem da cara

De quem viveu
De quem amou
De quem sofreu
De quem errou
De quem aprendeu
(alguma coisa)

Enquanto estou
Venham comigo
Os reais amigos
Para o que vier
Para o que der
Trocar flores
Sentir odores
Emprestar ombros
Procurar sonhos

Quando eu morrer
Evaporem minha matéria
Deixem fluir meu corpo
Sumir cada artéria
Esse é o meu gosto

Quando eu morrer
Só quero chaves
Muitas, milhares
Em uma caixa
Isso me basta
Deixem no mar
Deixem enferrujar
Para que portas
Eu, pessoa morta,
Possa descobrir
A cada novo partir...


Raquel Abrantes