quinta-feira, 13 de junho de 2013

A chave

Enfiou a chave na fechadura, pronto para um novo dia. Um dia agitado, véspera de Natal, muito trabalho em seu comércio e depois a reunião familiar mais importante do ano. Virou a chave, mas o trinco não abriu. Tentou virar e revirar, assim como faz constantemente com seus pensamentos, e não saiu do lugar, o que também costuma acontecer com sua vida. Porque, afinal, são muitas decisões a tomar e, ao considerar as consequências de cada uma delas, fica realmente difícil escolher. Neste caso não havia o que escolher se pensarmos superficialmente. Só que dentro da verdade do momento, ele precisava resolver um problema e tinha que decidir como o faria. A princípio, ainda calmo, tentou retirar a chave, mas havia emperrado e nenhuma posição, nenhum jeito, nem o truque de antes; nada adiantava agora. O telefone e a internet da casa nova ainda não tinham sido instalados e o celular estava com defeito há semanas, problema que postergou resolver por motivos que só o inconsciente pode explicar. Era uma situação paradoxal, porque ele gostava de ficar sozinho, mas naquela data especificamente ele não queria estar sozinho. Talvez o automatismo do trabalho e o encontro com a família o afastassem uma vez por ano da realidade de sua solidão e do avançar de sua idade. Naquele dia, não era um estar só escolhido, era um estar só obrigado, encarcerado, fadado à solidão, como todas as noites do ano. Seu prédio não tinha porteiro, o que eliminava também esta possibilidade de pedir ajuda. Percebia cada vez mais a ausência de opções, e uma angústia começou a crescer ligeiramente em seu peito. Andava de um lado para o outro no corredor do apartamento, passando a mão pelos cabelos grisalhos, coçando a barba branca, e nada podia fazer. Não acredita em Deus. São Jorge, por favor, me ilumine!, disse alisando a imagem estilizada do santo. Enfim, sentou-se. Acendeu uma cigarrilha. A fumaça conseguia sair pela janela, mas ele, não. Ao mesmo tempo em que tentou considerar as vantagens do contratempo – poder ficar em casa em vez de trabalhar loucamente e aturar a chatice de alguns tios e primos – percebeu que os afazeres e os devaneios alheios eram, na verdade, uma vantagem, uma distração de si mesmo. Sozinho ele precisava se encarar. E isso era mais difícil para ele que qualquer coisa. A reclusão corriqueira de sua vida era uma forma de não sentir-se um estorvo, porque, na verdade, ele não aguentava a própria companhia e, por isso, considerava não ser boa companhia para os outros. E fazia do cotidiano uma travessia corrida das horas, para não ter a consciência de seus defeitos e de suas qualidades. Era um acordar mecânico e um dormir entorpecente, que aliviavam o vazio das respostas. O que ele tinha de bom, então, não sabia avaliar emocionalmente. Não atribuía nada a si mesmo. Sem nenhum motivo específico não conseguia se ver; tinha medo de olhar no espelho. E se visse algo mais que não gostasse? Mais defeitos para pesar na balança? Não! Prefiro percorrer a vida. Ou deixar que ela me percorra. Era um ultraje ao bom senso pensar em como ele poderia se agradar. Para isso existem as distrações. Essas, sim, o agradam. A música, os livros, o cinema, o teatro. O intelecto deixa as emoções guardadas, ou vividas de fora, sem olhar para dentro. Foi quando resolveu ler um livro. Mas o que ler? Acabou pegando um Bukowski na prateleira. A partir daquela vida desgovernada do escritor, lembrou das transformações trazidas pelo acaso. Por outro prisma, os imprevistos podiam ser positivos, porque tinham o poder de mudar alguma coisa que talvez quiséssemos sem termos condições de mudar sozinhos. Era uma mãozinha do reflexo do caos. E uma amostra de como o caos pode organizar as coisas.


Raquel Abrantes

sábado, 8 de junho de 2013

Amálgama

O que chega e se impõe incita o que despertou;
põe o que tem ou tira o que não botou,
fecha o que abriu ou abre o que não fechou.

Desde abril - maio, junho... mas não agosto
A gosto, não. Sim, a gosto em setembro.
É um descascar de osso, de membro.

Mesmo onde não há desgosto, 
posto que crê aquele que vê,
como ele, ela eu e você.

E as cores aos pares afastam e unem olhares
vermelho e avermelhado, amarelo e amarelado:
cor-de-burro-quando-foge, apesar de amarrado.


Raquel Abrantes