quinta-feira, 18 de abril de 2013

A casa

A casa era da irmã do meu avô. O ambiente tinha um quê de mistério e me seduzia a cada passo dentro e fora dela. Suas portas pareciam mágicas, cada uma levando a mundo diferente, um mundo de conforto, um mundo de inquietação, um mundo de descobertas. Tinha uma porta em particular que era o meu maior motivo para querer morar ali. Ela dava para uma escada sinuosa de madeira que terminava em um mezanino rústico, atapetado e acolchoado. Era um lugar pequeno, mas em perfeita harmonia. Naquelas almofadas ficava estirada e via novos horizontes ao olhar as prateleiras cheias de livros. A luz entrava por uma pequena janela de vidro sextavado, acompanhada por abajures. Todas as paredes daquele lugar, que também lembrava um sótão, eram forradas de prateleiras. Cheias de livros. Precisava apenas admirar para sentir certa bruxaria benéfica, que poderia me afagar pelo resto da vida. A porta que dava para o quarto principal trazia um conforto mais luxuoso. As largas escadas de mármore branco chegavam a uma banheira de hidromassagem e uma cama de casal bem grande, em um cômodo muito arejado e luminoso. As leves cortinas brancas e transparentes dançavam ao sopro do vento e atribuíam charme àquele local de repouso e relaxamento. Eram dois andares. No de baixo, as portas também abriam surpreendentes visões. A que dava para a área de serviço mostrava o lado simples da vida, necessário, de limpeza, de renovação, de cuidado para com as coisas conquistadas merecidamente. As pequenas coisas que andam conosco. Quando estava ali, o momento era intrínseco, reflexivo e proveitoso. Pela sala corriam sofás contínuos contornando as paredes, e quadros pintavam a decoração. Uma grande porta, de vidro e madeira, que ia até o chão, levava a um singelo quintal, com árvores e flores, com cheiro de vida. Tudo aperfeiçoava os varais de roupa. A parte de concreto era reduzida, e o verde ganhava o espaço, visto por cima e por baixo, de acordo com o balanço da rede. Sempre sonho com a casa e a minha vontade de morar nela. Mas sempre acordo e a esqueço. Ela ficava no alto de uma ladeira, perto de várias outras casas, em um lugar tranquilo, mas esta era especial. Destacava-se. Não pela ostentação, mas pela singularidade. Lembrava o Palácio de Cristal de Curitiba, apesar dos tijolos e do cimento, do tipo mais comum possível. Na minha cabeça, era um palácio. Um palácio de sonhos. Várias vezes tentei ficar com a casa. A irmã do meu avô já havia morrido na época e cheguei a morar lá por alguns segundos. Ou horas, não sei dizer. Não acho que tenham sido dias, a não ser que conte todos os dias em que sonhei com ela. A casa sempre está lá; e as dificuldades para obtê-la também. Esqueci quais eram os problemas. Tenho apenas a lembrança de uma vizinhança complicada, alheia aos seus encantos ou desconfortável com seus segredos. 


Raquel Abrantes

sábado, 6 de abril de 2013

Raio


Um raio de luz
atravessava o céu,
resvalando o intuito
de afastar as nuvens
e desnudar as estrelas.

O raio de luz
ia e voltava
de um lado para outro
do outro lado para um
nos mesmos pontos.

Desse modo
não se sabia
o início e o fim
o fim e o início
ou de suas existências.

Como o dia e a noite
que se intercalam
continuamente,
sem que os dois salientem
uma ordem definida.

Os astros foram esquecidos
seu brilho sedutor, abandonado
por serem aparentemente fixos;
apreciava-se o movimento
o insistente retorno.

O raio de luz
(longe de desanuviar
os ares encobertos,
como à primeira vista)
clamava o infinito.

Parte telúrico
o raio de luz
do início ao fim
do fim ao início
fronteiras adentro.

Fissura diáfana
até ascender o tempo
que monta e remonta
entre o dia e a noite
entre a vontade e a alma.


Raquel Abrantes