domingo, 15 de dezembro de 2013

Perguntas


Das perguntas fei(t)as
Ficam os son(h)os 

Na calada da paz

De noite, de dia

A busca das horas

Mais tarde até

Bem que podia

Amanhecer achado

Com luz de sobra

E tempo de espaço

Um abraço

Uma dobra

Que aquecem

A resposta fria


Raquel Abrantes


domingo, 17 de novembro de 2013

Cida*


Cida, cidade
de mares, ventos, ares
de vistas incomparáveis
de natureza admirada
muito bem resguardada
pelo índio protetor, que olha
sempre para o lado de fora

Cida, cidade
de ruas enfeitadas de gente
acostumada à mesma gente
que insiste em permanecer
nesta casa de muito querer
neste lugar de poucos
bons amigos dos moços

Cida, cidade;
a pedra das costas
os voos do parque
o campo do santo
o pouso do disco
o passeio das vitrines
a cor do caboclo

Cida, cidade
que cria afetos
pais, filhos, netos
o médico da família
o dono da padaria
a banca da esquina
aquela boa menina

Cida, cidade
de aconchegante a alarida
aumenta agora despercebida
por mudanças urgentes
prédios intransigentes
carros intransitáveis
custos inesgotáveis

Cida, cidade
fonte de vários arteiros
uns loucos sem dinheiro
que criam movimentos
que movem momentos
que aparecem e veem
que, juntos, creem

nas coisas boas e belas que temos
e no mundo mais que podemos.


Raquel Abrantes


*Primeiro lugar no concurso Um Brinde à Poesia Extra - Niterói 440 anos. Campo de São Bento, 16 de novembro de 2013.

Veja matéria no Globo Niterói

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Grito

Fui abafar o grito
ecoou por dentro
clamei ao rito
ressoou no vento

gemi sem querer
a respiração falhou
decidi ir, viver
o coração mandou

então os olhos viram
detalhes despercebidos
e, com a boca, riram
dos instantes partidos

o brilho de fora
tão perto assim
a alegria do agora
renasceu em mim.


Raquel Abrantes

sábado, 28 de setembro de 2013

Recorte

Recorto no som
um devaneio simples
que deixo flutuar
no tempo, na hora

observo-o, sinto-o
lembro sua forma
o recorte, o tom
as ondas que vibram

até colá-lo no momento
e deixar que acenda
a lua que não vejo,
o encaixe do desejo.


Raquel Abrantes

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Tasco

Algo do que era seu
foi passado a mim
sem querer me deu
e você tirou, assim,
coisas que gostou
do nosso conviver;
o tempo que passou
e mudou o seu ser

não só de você;
de todos eu levo
um tasco de querer
que comigo carrego
algum novo gosto
um cheiro, uma cor
sempre fica conosco
do tamanho que for

e a cada pedaço
que vou juntando
modifico meu traço
aumento meu ganho
pois o que acabou
deixou um bilhete,
que impressionou,
marca de estilete. 


Raquel Abrantes

terça-feira, 2 de julho de 2013

Gooooooll!!!

Todos olhavam fixamente para a televisão. A bola passava de um jogador a outro, em segundos, indo do campo de um time ao do adversário, e qualquer piscada poderia ocultar o resultado do chute. Melhor não arriscar. Ao redor das imagens, figuras variadas, unidas por um único propósito comum: a diversão. Uma senhora de avançada idade acendia seu cigarro, com tragadas intercaladas aos goles de cerveja, que aumentavam a alegria por ter saído de casa. Tinha razão para isso; era um sentimento bom novamente. Torcer, vibrar, viver além de seu dia a dia já mais vazio, quando o corpo começa a fraquejar apesar do funcionamento acelerado da mente – prêmio concedido pelo tempo. Que passou rápido demais para quem chegou onde ela está, quando os enterros passam a superar os nascimentos, no inevitável limite imposto pela natureza. Mas não ali. No bar, a sensação compartilhada por todos os telespectadores, aliada aos outros prazeres compensatórios da realidade, gerava celebração. Também estavam felizes os jovens namorados que, juntos, vestiam a camisa, repetiam os mesmos gestos e reações. A intensidade dos poucos anos imperava diante daquele nacionalismo faceiro e atraente. Outra menina estampava em seu corpo frases que demonstravam a ausência de respostas para suas questões, assim como sua própria incapacidade de elaborar as perguntas. O preto era sua cor, mas, mesmo assim, naquele dia ela sorria para o verde e o amarelo. Um menino começava a cumprir seu papel de homem perante a sociedade, ao lado de seu pai, aprendendo os gritos e as tonalidades de voz apropriadas para sua sexualidade. Mesmo sem compreender o motivo de tamanha excitação, os olhos do garoto brilhavam, refletindo o orgulho daquele que o criou. Casa cheia, os garçons atarefados aproveitavam os poucos momentos de ócio para assistir um pouco ao show apresentado naquele gramado verde – que lembrava o dinheiro das gorjetas esperado até o fim do dia, influenciados pela referência à moeda americana. A bola rolando, as vidas passando, e os olhares todos acompanhando o mesmo objeto móvel; redondo e imperfeito como a Terra, mas que dela vencia antes mesmo de acabar o jogo, pela vantagem de oferecer apenas distração.


Raquel Abrantes

quinta-feira, 13 de junho de 2013

A chave

Enfiou a chave na fechadura, pronto para um novo dia. Um dia agitado, véspera de Natal, muito trabalho em seu comércio e depois a reunião familiar mais importante do ano. Virou a chave, mas o trinco não abriu. Tentou virar e revirar, assim como faz constantemente com seus pensamentos, e não saiu do lugar, o que também costuma acontecer com sua vida. Porque, afinal, são muitas decisões a tomar e, ao considerar as consequências de cada uma delas, fica realmente difícil escolher. Neste caso não havia o que escolher se pensarmos superficialmente. Só que dentro da verdade do momento, ele precisava resolver um problema e tinha que decidir como o faria. A princípio, ainda calmo, tentou retirar a chave, mas havia emperrado e nenhuma posição, nenhum jeito, nem o truque de antes; nada adiantava agora. O telefone e a internet da casa nova ainda não tinham sido instalados e o celular estava com defeito há semanas, problema que postergou resolver por motivos que só o inconsciente pode explicar. Era uma situação paradoxal, porque ele gostava de ficar sozinho, mas naquela data especificamente ele não queria estar sozinho. Talvez o automatismo do trabalho e o encontro com a família o afastassem uma vez por ano da realidade de sua solidão e do avançar de sua idade. Naquele dia, não era um estar só escolhido, era um estar só obrigado, encarcerado, fadado à solidão, como todas as noites do ano. Seu prédio não tinha porteiro, o que eliminava também esta possibilidade de pedir ajuda. Percebia cada vez mais a ausência de opções, e uma angústia começou a crescer ligeiramente em seu peito. Andava de um lado para o outro no corredor do apartamento, passando a mão pelos cabelos grisalhos, coçando a barba branca, e nada podia fazer. Não acredita em Deus. São Jorge, por favor, me ilumine!, disse alisando a imagem estilizada do santo. Enfim, sentou-se. Acendeu uma cigarrilha. A fumaça conseguia sair pela janela, mas ele, não. Ao mesmo tempo em que tentou considerar as vantagens do contratempo – poder ficar em casa em vez de trabalhar loucamente e aturar a chatice de alguns tios e primos – percebeu que os afazeres e os devaneios alheios eram, na verdade, uma vantagem, uma distração de si mesmo. Sozinho ele precisava se encarar. E isso era mais difícil para ele que qualquer coisa. A reclusão corriqueira de sua vida era uma forma de não sentir-se um estorvo, porque, na verdade, ele não aguentava a própria companhia e, por isso, considerava não ser boa companhia para os outros. E fazia do cotidiano uma travessia corrida das horas, para não ter a consciência de seus defeitos e de suas qualidades. Era um acordar mecânico e um dormir entorpecente, que aliviavam o vazio das respostas. O que ele tinha de bom, então, não sabia avaliar emocionalmente. Não atribuía nada a si mesmo. Sem nenhum motivo específico não conseguia se ver; tinha medo de olhar no espelho. E se visse algo mais que não gostasse? Mais defeitos para pesar na balança? Não! Prefiro percorrer a vida. Ou deixar que ela me percorra. Era um ultraje ao bom senso pensar em como ele poderia se agradar. Para isso existem as distrações. Essas, sim, o agradam. A música, os livros, o cinema, o teatro. O intelecto deixa as emoções guardadas, ou vividas de fora, sem olhar para dentro. Foi quando resolveu ler um livro. Mas o que ler? Acabou pegando um Bukowski na prateleira. A partir daquela vida desgovernada do escritor, lembrou das transformações trazidas pelo acaso. Por outro prisma, os imprevistos podiam ser positivos, porque tinham o poder de mudar alguma coisa que talvez quiséssemos sem termos condições de mudar sozinhos. Era uma mãozinha do reflexo do caos. E uma amostra de como o caos pode organizar as coisas.


Raquel Abrantes

sábado, 8 de junho de 2013

Amálgama

O que chega e se impõe incita o que despertou;
põe o que tem ou tira o que não botou,
fecha o que abriu ou abre o que não fechou.

Desde abril - maio, junho... mas não agosto
A gosto, não. Sim, a gosto em setembro.
É um descascar de osso, de membro.

Mesmo onde não há desgosto, 
posto que crê aquele que vê,
como ele, ela eu e você.

E as cores aos pares afastam e unem olhares
vermelho e avermelhado, amarelo e amarelado:
cor-de-burro-quando-foge, apesar de amarrado.


Raquel Abrantes

quinta-feira, 18 de abril de 2013

A casa

A casa era da irmã do meu avô. O ambiente tinha um quê de mistério e me seduzia a cada passo dentro e fora dela. Suas portas pareciam mágicas, cada uma levando a mundo diferente, um mundo de conforto, um mundo de inquietação, um mundo de descobertas. Tinha uma porta em particular que era o meu maior motivo para querer morar ali. Ela dava para uma escada sinuosa de madeira que terminava em um mezanino rústico, atapetado e acolchoado. Era um lugar pequeno, mas em perfeita harmonia. Naquelas almofadas ficava estirada e via novos horizontes ao olhar as prateleiras cheias de livros. A luz entrava por uma pequena janela de vidro sextavado, acompanhada por abajures. Todas as paredes daquele lugar, que também lembrava um sótão, eram forradas de prateleiras. Cheias de livros. Precisava apenas admirar para sentir certa bruxaria benéfica, que poderia me afagar pelo resto da vida. A porta que dava para o quarto principal trazia um conforto mais luxuoso. As largas escadas de mármore branco chegavam a uma banheira de hidromassagem e uma cama de casal bem grande, em um cômodo muito arejado e luminoso. As leves cortinas brancas e transparentes dançavam ao sopro do vento e atribuíam charme àquele local de repouso e relaxamento. Eram dois andares. No de baixo, as portas também abriam surpreendentes visões. A que dava para a área de serviço mostrava o lado simples da vida, necessário, de limpeza, de renovação, de cuidado para com as coisas conquistadas merecidamente. As pequenas coisas que andam conosco. Quando estava ali, o momento era intrínseco, reflexivo e proveitoso. Pela sala corriam sofás contínuos contornando as paredes, e quadros pintavam a decoração. Uma grande porta, de vidro e madeira, que ia até o chão, levava a um singelo quintal, com árvores e flores, com cheiro de vida. Tudo aperfeiçoava os varais de roupa. A parte de concreto era reduzida, e o verde ganhava o espaço, visto por cima e por baixo, de acordo com o balanço da rede. Sempre sonho com a casa e a minha vontade de morar nela. Mas sempre acordo e a esqueço. Ela ficava no alto de uma ladeira, perto de várias outras casas, em um lugar tranquilo, mas esta era especial. Destacava-se. Não pela ostentação, mas pela singularidade. Lembrava o Palácio de Cristal de Curitiba, apesar dos tijolos e do cimento, do tipo mais comum possível. Na minha cabeça, era um palácio. Um palácio de sonhos. Várias vezes tentei ficar com a casa. A irmã do meu avô já havia morrido na época e cheguei a morar lá por alguns segundos. Ou horas, não sei dizer. Não acho que tenham sido dias, a não ser que conte todos os dias em que sonhei com ela. A casa sempre está lá; e as dificuldades para obtê-la também. Esqueci quais eram os problemas. Tenho apenas a lembrança de uma vizinhança complicada, alheia aos seus encantos ou desconfortável com seus segredos. 


Raquel Abrantes

sábado, 6 de abril de 2013

Raio


Um raio de luz
atravessava o céu,
resvalando o intuito
de afastar as nuvens
e desnudar as estrelas.

O raio de luz
ia e voltava
de um lado para outro
do outro lado para um
nos mesmos pontos.

Desse modo
não se sabia
o início e o fim
o fim e o início
ou de suas existências.

Como o dia e a noite
que se intercalam
continuamente,
sem que os dois salientem
uma ordem definida.

Os astros foram esquecidos
seu brilho sedutor, abandonado
por serem aparentemente fixos;
apreciava-se o movimento
o insistente retorno.

O raio de luz
(longe de desanuviar
os ares encobertos,
como à primeira vista)
clamava o infinito.

Parte telúrico
o raio de luz
do início ao fim
do fim ao início
fronteiras adentro.

Fissura diáfana
até ascender o tempo
que monta e remonta
entre o dia e a noite
entre a vontade e a alma.


Raquel Abrantes