segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Canto


Em cada canto
em cada tanto
tem um tempo
um vento
um momento
um tormento
em cada canto da casa
sem asa
com asa
sem casa

em cada um
em cada dois
em cada três
em cada quatro
dentro de um quarto
um canto
apenas um.

Em cada face
em cada fase
fazendo
de um só
canto
um nó

em cada nada
em cada escada
para baixo
para cima
estagnada

uma hora anda
nem que seja
nos sonhos na cama
que não existe

cantando
cantando os cantos
canto de cantorias
de alegrias
de tristezas
incertezas
alegorias
o canto do espanto
do desencanto

cantores de dores
de cantos ardores
cantados no canto
com a solidão que tinha
carregando o manto
em qualquer canto
a alma
o quebranto

cantorias encantadas
aplaudidas
acuadas
ciladas
novo canto
re-canto.

você no seu canto
e eu no meu
e o abandono
de um beijo
uma conversa
uma trégua
um canto transverso
que os males espanta.

cantigas de ninar
para animar o espaço
inconstante, relutante
bem fazer 
de mudar de canto
pelo menos quatro
dentro de um quarto

camisa de força 
do espaço físico, tísico
visando à libertação
do interior do canto
do ser de dentro
da peculiaridade

de um canto para o outro
pelo desgosto 
pelo aperto
pela falta de jeito.

mesmo com 
nossas tempestades,
ventem:
que o nosso canto
é a gente.


Raquel Abrantes

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Excrescência


Essa abstinência de contato
com o que existe
com o que resiste
com o que persiste
nesta altivez despropositada

essa relutância em ver
que sozinho nada se faz
de nada se é capaz

porque viver é depender
do carteiro que traz as encomendas
do porteiro que recebe os pacotes
das pessoas que os enviam 

do motorista que leva pessoas a seus destinos
do trocador de ônibus que vende a passagem
do passante que informa um trajeto qualquer

mas este olhar 
com soberbana vigilância!
ha ha ha, rindo à toa
achando que tudo pode
aonde foi amarrar seu bode?

afinal
do início ao final
deus criou os homens
para um propósito 
natal
fatal
entre gargalhadas
e trapalhadas
neste alheamento
arrogante
que um dia aprende
a deixar de ser 
seu próprio rival
nesta espiral
da vida
que respira
que espirra.

É um atrevimento ignorar o vizinho!
esse orgulho é um entulho 
é um disparate, basta!
de viver na excrescência
audiovisual da autossuficiência.


Raquel Abrantes

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Se

Se é um momento que não existe.


Raquel Abrantes

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Aderência


No sobe e desce
no vaivém
de nossos momentos 
aderentes ardentes
a ponta faísca por dentro
explora o céu aberto e estrelado 
a cada desbravada descoberta 
do ser interior 
que eu mesma desconheço.


Raquel Abrantes

domingo, 21 de outubro de 2012

Raiar


o dia me chamou
com seu primeiro raio de sol
e não pude resistir ao seu encontro
livre leve solto
na luz no ar no mar
que bela visão do Rio de Janeiro
que tenho o ano inteiro
trouxe paz e alegria
a um coração alheio
ao vento ao tempo ao momento

caminhar na areia
como uma sereia
que acabou de ganhar as próprias pernas
arranhando a sola dos pés animados
que trouxeram consigo
grão a grão
no trajeto conhecido
pelo chão vivido
em busca de um jardim
ainda não amanhecido

faltaram as rosas
mesmo com seus espinhos
bem-vindos
como a dor que os olhos sentem
ao abrirem-se para um novo dia

as pessoas da mesma via
sempre têm algo a nos dar
nem que seja um olhar, um olá
uma troca de palavras para começar
a rotina que se repete
com sua formosura peculiar

e a senhora que passou do meu lado
puxou conversa, de bom grado
vendia pano bordado
me encantei e parei
a simplicidade de seu jeito
me causou um efeito
e até seu telefone peguei.

a moça com o cachorro que nada via 
que apenas de carinho precisa, repetia
e continuei a contemplar o mar
belo e triste pelo cedo despovoar
que logo foi preenchido 
pelas vidas que acordaram
para caminhar. 


Raquel Abrantes

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Estrela-guia


Elegante e fina
com seus olhos de felina
mas de ameaça nada há
vive em eterno estado de graça
em seus cordões dourados
que lhe caem abençoados
veio para trazer a paz
e, quando cansa, ainda faz mais
pelos outros por todos para tudo
é uma fortaleza, meu escudo
contra todas as improcedências
age com calma, extrema paciência
seu colo, sem dono aparente
tem mil pretendentes
é uma chuva de lágrimas
emoção pura, sem lástima
e dela o orgulho que tenho
nesta vida, neste desenho
é inexprimível, indizível
de tanto amor, de tanto calor
que grita, cala, sente
traz aquele abraço
que afaga toda gente
passo a passo
lado a lado.

Uma alma imperativa
veio pôr ordem na vida
de todos, sempre querida
mensageira de luz
imponente, parece estridente
mas é puro riso agregador
envolvente.

Mãe de brilhantes instantes
de momentos desesperantes
oscilante porque preocupada
como responsável pela jornada
em sua encantadora dispersão
tem esta visão, quem diria 
por ser uma estrela-guia. 


Raquel Abrantes

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Coisas


às vezes fazemos coisas demais
às vezes, de menos
mas sempre fazemos
algo
para estar onde estamos
fazemos coisas por nós
deixamos de cuidar de nós
ajudamos aos outros
quando podemos
e, mesmo assim, também esquecemos

só que tudo tem seu momento 
como plantamos uma flor 
e ela tem seu tempo para crescer
também temos cada um
o nosso próprio tempo de aprender

por isso muitas vezes
precisamos de alguém
e a pessoa não pode corresponder
porque não foi possível a ela entender
ou, naquele momento, nada mais tinha a oferecer

e, nós mesmos, quantas vezes,
fizemos tão pouco pelos outros
por não nos considerarmos capazes
ou por acharmos que não poderíamos
acudi-los da maneira que deveríamos

pode ser difícil aceitar
a falta de quem se precisa
e, apesar de ser penoso perdoar,
é uma compreensão de vida

porque todos damos o que podemos
e mais árduo que perceber a limitação alheia 
é aceitar a falha pessoal, que é uma cadeia

quando deixamos uma pessoa que nos ama
sem sentir o amor que temos por ela
mesmo por um segundo que seja
acabamos nos cobrando pelo altruísmo
neste mundo que tende para o egoísmo

mas um dia todos poderemos ver
que aprender também é perceber
que nos perdoar a nós mesmos
é o grande desafio do viver

porque a culpa não é resolvida ao pedir desculpa
a culpa é guardar mágoa no peito
é impedir a própria redenção
e o auxílio a um outro irmão

um irmão que precisa
sempre precisa 
porque vivemos em comunhão
já que a dor e o amor
são sentimentos de libertação.


Raquel Abrantes

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Edredom


esse céu salpicado de luzes

me lembra um edredom

que tive quando criança

fofinho como as nuvens

e agarradinho a mim


Raquel Abrantes

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Consagração


Parte 1

Quando menos se espera
um pássaro pousa na janela
trazendo harmonia
ao nascer do dia
a imagem fica na mente
devido à sintonia existente
num momento inusitado
que vem até nós de bom grado
e, no outro dia, sem esperar
lá está ele de novo, a nos espiar
na recíproca verdadeira
nesta terra derradeira
dos muitos pássaros que voam
sobem descem vivem morrem
sem conseguir transmitir alegria
a companhia, o apoio na travessia
pois é para onde não olhamos
que, distraídos, percebemos onde estamos
e a troca
e a sinergia
e a beleza
e o amor que chega
sem voar sorrateiramente
porque o sentimento oferecido
é o que dá o sentido
do colo, do abrigo, do amigo
Lembra que não estamos sozinhos
que temos o ombro do parceiro
o doar-se por inteiro

Parte 2

Mais uma vez se fez dia
e nada demais parecia
apenas aquele vício da consciência
quando saímos da dormência
somente um bom dia banal
segundo a norma convencional
mas a desconcentração
tem o poder da revelação;
Ao olhar pra lá e pra cá
Ao olhar mesmo sem ver 
acabamos por perceber
a simplicidade que há
em um bem querer
apenas um oi, vim te ver
porque a pressa, a agonia
a pressão, a apreensão
a obrigação da dinastia
podem enlouquecer
pela opressão do próprio ser
e o vento bate
e o tempo corre
e a rocha desgasta-se
mas a felicidade vem apenas
se houver também o problema
e a magnitude permanecer
na atitude de vencer
este é o motivo 
do poema que digo

Parte 3

Como se já não fosse suficiente
me trouxe Nina, este presente
tão parecida com sua dinda
contagiante, linda
esta menina graciosa, sapeca
levada da breca
que mostra sem pudor a que veio
querendo algo da ponta ou do meio
mas só importa seu sorriso.
À opinião de outros também me refiro
à sua mãe certamente
minha prima, comadre, confidente
meu escudo, minha proteção
nesta mão dupla da nossa direção
que a mim terá em qualquer dia
e assim cria-se uma família

Parte 4

Uma nova versão de família
a esta, será dada a partida,
quando todos puderem perceber
que sofrer é crescer e aprender
e cada um puder fazer sua parte
nesta busca de glória, nesta arte
o braço dado, o abraço apertado
ouvidos abertos, sentidos despertos
uma família feita de benção
não só de sangue; mas do que pensam
o irmão, o pai, a tia, o amante
a astrologia ressonante
a mão estendida
quem sempre acha uma saída
que os seres hão de encontrar
ao pensar nos outros sem pesar
gente que comove, traz uma crença
cuida, acompanha, acrescenta
em função da identificação
de uma forma de oração
mas não da biologia ou da geografia
uma, questionável; outra, dispensável
vivemos em torno da empatia
o que se dá, o que se aprende
o que pulsa, flui no peito
sem que o sangue escorra
no tormento da masmorra
sem apontamento
somente um momento
depois do outro
e, de tanto agradar o gosto,
não acorrenta, se anuncia
renovando a alforria

Essas pessoas boas
tendem pendem
ao gozo
ao grito
ao rito
reinventando
um ritual amado
por sua própria peculiaridade
porque cada um tem sua verdade
e em cada passo demente
podemos descer um degrau
e subir dez mais na frente
precisamos cada um
fazer um mundo diferente
livre leve contente
frente a tanta prisão, dureza
e essa tristeza
que bate no fundo
na altercação com o ser imundo
E, graças ao traquejo,
e ao desejo de sermos nós mesmos
aquilo que somos agora
mas tudo tem sua hora
até a algaravia
pode se expressar, quem diria
porque tudo depende
da pessoa que vai ouvir
não de quem se esconde
mas de quem ajuda a reagir
a tirar da boca
esse gosto néscio
essa coisa de gente louca.


Raquel Abrantes

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Galho dançante


Quando notei 
o descampado
à minha frente
imaginei
que alguém
como eu
que ali viveu
um dia, durante algum tempo
segundo o momento que vivia
pensou:
quero ficar por aqui
e começou os preparativos
para a nova moradia.

Precisou tratar o chão
arrancou as ervas daninhas
igualou o solo com as mãos
e ferramentas
e máquinas
para criar o fundamento
Colocou um tijolo
e o cimento
depois outro tijolo
até erguer uma parede
formar uma estrutura
uma casa
construir um sonho
uma vida,
já que viver
requer pensar para cima.

Fez uma guarita
colocou as portas
e as janelas
para a entrada e a proteção
do sol e do vento
colocou telha sobre telha
por cima do teto
antevendo
tempestades
trovoadas
e abrigou a família.

Embelezou sua vista
para que, a cada amanhecer,
o jardim cultivado
pudesse transmitir
um belo recado:
de flores, de cores, de odores
junto à cadeira de balanço 
pendurada no galho dançante 
e transpirante no correr do dia 
em uma árvore
que precedeu esta
e muitas outras histórias
para divertir as crianças
a maior de todas as alegrias.

Mesmo com as intempéries
da vida em seu curso
do início ao fim
uma família tirou fotografias
guardou folhas pétalas pedras
até o descampado 
retornar outro dia,

Quando voltou a ser tratado
de outra forma
onde as famílias da vez
tiveram outros jardins
mais limitados.

Com mais gente,
falta mais espaço,
e a natureza 
recria outro tipo de beleza
povoando cada vez mais o mundo
em uma graça mais quadrada
mais restrita
mais apertada
apesar de ainda desejada.

O galho já não dança;
Agora, é a estrutura de ferro
que embala a criança
na oscilação da vida
Na subida
Na descida
Do cavalo ao trem
Do ontem ao além.


Raquel Abrantes

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Onipotente


Agradeço não só pela comida
mas também pela vida
pela família
de sangue, de carne, de osso
de alegria, de desgosto
porque tudo anda na mesma via
e juntos buscamos a harmonia
nesta transferência de paz
de calor, de amor capaz 
de ser presente na dor
que leva, traz, transforma
cria uma família nova
cedo ou mesmo tardia
que se revela na poesia


Raquel Abrantes