segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O presente do acaso


a gente faz planos
todo o tempo
desde as primeiras percepções da infância
fazemos planos, como criança
começamos pelos mais simples
como ir à praia no fim de semana
passar o domingo na casa da avó
brincar no parque com os amigos
e, nesta fase infante,
ainda não é possível entender
que muitos planos excitantes
não chegam a acontecer
pelos imprevistos mais vistos
como a chuva que nubla a paisagem
como o trânsito que impede a passagem
como o resfriado resultado da friagem
e vamos replanejando
tentando evitar novas frustrações
que desconstroem idealizações
mas o futuro ao acaso pertence
e nada de negativo nisto há
sem saber a gente perde para ganhar
e os muitos planos frustrados
nos levam a contentamentos nunca pensados
que tornam a vida uma descoberta
incessante do próximo instante
em um ciclo que se completa
espontaneamente se integra
ao permitir florescer 
as possibilidades do crescer
como a vida que brota
dentro da gente
o amor maior, o presente
que vence todos os planos da mente
trazendo o anjo, o amigo, o parente
o sangue que corre sem perceber
nas veias, nos traços, no mundo
sem passado, sem futuro, sem fundo
apenas presente
sempre presente
maior que qualquer plano
superando qualquer engano
mais, muito mais que suficiente
Transcendente
ao amor de um filho
nunca haverá sentido
correspondente


Raquel Abrantes

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Som


o som
que transpassa 
as batidas ritmadas
e aceleradas
do coração inquieto
lembra outros
corações transtornados
que transcenderam
um momento
uma fase
uma crase
imposta pela regra
da gramática
tão dispensável
que de nada serve
ao sentimento real
ao sentido do dizer
porque o som
diz mais
que mil preposições
que todas as obrigações
já que o sentido
está no verso
no reverso
no transverso
no gesto
no sonoro acalento
do diverso
na revisão 
do íntimo
perverso
no ínfimo
universo
de cada ser
despreparado
para as facetas
trancadas
esquecidas
de uma vida
despercebida
pela rapidez
urgente
de uma solução
rimada
cobrada
purista 
individualista
que passa
que perde
que não percebe
a graça
de uma vírgula
uma pausa
um silêncio
que diz:
pare e olhe
porque a beleza
não corre


Raquel Abrantes

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O amor


o amor
surge insólito
inesperado
como uma rajada
de vento acalorada
abraçando
os poros arrepiados
num dia de verão
fazendo escorrer
o suor fragrante
bendito do momento
encantado
até a brisa
refrescante
ao entardecer
sombrio de cada ser
pondo à prova
a delícia
dos prévios instantes
ainda indecifrados
de uma conjuntura
misteriosa;
faça sol, está bem
faça chuva, talvez
nas trovoadas
já tão certas
quanto a noite
a magnitude é posta
a um fio
a um sopro
a um não sei
o quanto pode
sustentar-se
num passeio
ao luar oculto
ao mar turbulento
suportável
enquanto pode
enquanto amor
enquanto o ar
movimenta-se
até tornar-se
inerte
perdendo a febre
com a brisa
que despede-se
por sua própria
natureza
inconstante


Raquel Abrantes

Fumo


esta luz
que acende
o meu cigarro
faísca a palha
queima o fumo
e enfeita o ar
invisível
com ondulações
acinzentadas
de conforto
com a ajuda
dos dedos amarelados
marcados
pelo resultado
do prazer fugaz
perseguido
em várias frentes
como esta
finalizada
com as cinzas
postas
no cinzeiro
completo
e satisfeito


Raquel Abrantes

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Quando


Quando
ao sentar na varanda
de um fim de tarde
uma janela ao longe
reflete o sol
mais que as outras
noto a singularidade
de um momento
que se esvai
por uma leve distração

Quando
volto a buscar o brilho
já não destaca aquela forma
agora tão simples quanto as outras
sem perceber o motivo
como o sol que se põe
trazendo a igualdade
a opacidade prévia da noite

Quando
as luzes artificiais
iluminam todas as janelas
da cidade
sem critério
sem mistério
sem mérito
apenas um artifício
para enxergar
na escuridão 


Raquel Abrantes

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A cidade


os ruídos da cidade
circulante perturbadora
também têm seus vazios
dando espaço ao canto
dos pássaros que ainda existem
acima do asfalto
continuamente maltratado
pela velocidade cotidiana
de uma meta perversa
de um soluço a ser superado
de uma perda presente
rumo ao futuro incerto
infinitamente duvidoso
duvidosamente planejado
verdadeiramente esperado
apesar do atual momento
que já passou
o canto já passou
e o asfalto estanque
não permite a passagem
nos cruzamentos
das vidas errantes
gritantes
e escassas de melodia 


Raquel Abrantes

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Experiência


somente
uma experiência
viva
pode nos lembrar
o calor
do chocolate
amaciando a garganta
numa noite fria
linda
exuberante
que de tão bela
o tempo
passa despercebido
sorrateiro
até o admirar
do primeiro feixe
de luz
de outro dia


Raquel Abrantes

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Trilogia


muitos procuram definir
uns, perdidos sem saber o que,
tentam imaginar e elaborar
prever o acontecimento
ansiosamente esperado
temerosamente evitado
subitamente conhecido
cada caso é um

outros maldizem a conquista
maculados com o fim
da sensação em carne viva
química recordação
dos poros
abertos
expostos
vazios

há quem brilhe
em todo canto
pelo encantamento
do transladar conjunto
à parte do fluxo cotidiano
e uma parte segue vibrando
por esta fascinação indizível
puramente vivível
e revivível

artes e artistas
transferem a essência
permitem sentir outra vez
a satisfação da adjacência
a experiência magnífica

como a tez
musicalmente expressa
com poesia, sem pressa
fotografada pelos sentidos

trilogia vívida
em um único corpo
além do próprio
o reforço de um sonho
intimamente crível
de deuses caídos
de movimentos contíguos
de seres finitos
infinitamente possível


Raquel Abrantes