sábado, 21 de abril de 2012

Essas pessoas


Essas pessoas pensam passando
pensam amando
pensam contestando
pensam distraidamente
Às vezes esquecem de pensar
e falam
loucuras suadas noturnas
dias estranhos compassados
alegrias tortuosas escassas
Essas pessoas falam chegando
falam repetem comunicam
chegadas ou não, tanto faz,
Essas pessoas
que de outros pensamentos passeiam
podem agregar conhecimento
podem transformar uma opinião
podem ser, a partir de si próprias, outras
e ali estar, de modo diverso de antes
como agora, ontem e um tempo atrás
até chegar, a cada momento, ao jeito da vez
ou, talvez, desmotivar, a seu tempo
a troca de pensamentos
a anular a bela fotografia...
assim, cada um, quem diria
busca seu lugar, sua via
inexorável, o lar.


Raquel Abrantes

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Sem igual

Por Marcos Eduardo Neves*


Que felicidade!
Na realidade, perdi a tristeza;
senti que a beleza está perto de mim;
cheguei lá, no fim, a esperar o começo,
sem tremer tropeço, sem medo de nada,
a desejar uma amada, cultivando a esperança
de ninar tal criança e cuidar como a uma filha,
e formar uma família, uma família de dois.
E depois...
Depois, viver o imaginário irreal,
romper fronteiras do bem com o mal
em correntezas de carinho,
em cascatas de devoção.
Aprendendo e ensinando,
dormir acordado e acordar já sonhando,
chorando e cantando,
melodias inspiradas pelo coração.
E esse pobre coração,
tão fraco e sensível,
perceberá o imperceptível:
sua essência nua e crua,
pura como a lua,
quente como o sol,
a irradiar brilhos indescritíveis
que um dia
definirá palavras indefiníveis,
e à noite...
trará momentos sem igual.


*Autor dos livros Nunca houve um homem como Heleno, sobre o jogador Heleno de Freitase Vendedor de sonhos, sobre o publicitário Roberto Medina.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Escritor

Por Rafael Linden* e Raquel Abrantes

Um lado na sombra, outro na luz intensa. O menino descobre que as palavras que lê ou escreve o trazem de um lado para o outro. Se espanta. Se encanta.

Pode voar sobre as palavras. Nadar no mar de letras que despenca da cachoeira de histórias infinitas. Sempre seguindo sua imaginação, essa magia lúdica de criança.

E, afinal, entende que tudo o que deseja é perpetuar a sensação da descoberta e o prazer de se entregar às carícias da literatura. Deixa-se envolver pelas águas, às vezes calmas, outras vezes revoltas, das palavras. Assim nasce um escritor...

*Outros textos do escritor em
 http://www.umcientistanotelhado.blogspot.com.br/

segunda-feira, 16 de abril de 2012

de volta o corpo

Por Juliana Berriel*

carnadura proclamada até a última gota. apesar de toda a vestimenta. os gritos curvos, subjacentes, sobrepunham-se vez ou outra à atmosfera deslizante. o que se via não se pensava. e vice-versa. encruzilhada entre o desejo respirante e o enquadramento forçado. ausência desfigurada de si. para onde a mente escapa quando não se quer estar. para a cicatriz que tenta esconder no canto da boca. por todas as línguas que ali repousaram desfilaram se aconchegaram e passaram, inclusive a própria. angústias conscientemente prolongadas, excessos deliciosamente cometidos. desvios que a sensatez, leviana, nos obriga a disfarçar. as falas errôneas gagas entrecortadas pela saliva, pelas pausas, que mais pareciam um lapso para a redenção. tudo perfeitamente fora de lugar. provoca o riso. a retidão forjada provoca o riso. e o movimento acontece, torto. traz de volta o corpo desajeitado, mudo e ainda vivo.

*Outros textos da escritora em http://santamatrioska.blogspot.com.br/

domingo, 15 de abril de 2012

Mágico


Dizem que sou mágico, mas, na verdade, meu poder é apenas sobre o tempo. Sou um metereologista aposentado. Tudo mudou na minha vida quando fui atingido por um raio. Santo raio que me partisse, seria o mais lógico; pelo contrário, me expandiu. Cheguei para agregar tempo à vida dos moradores. Poderiam eles fazer mais coisas que gostam, se divertir, viver, a partir de um bom tempo. Mandei as chuvas findarem, assim como ordenei o fim das secas. Só não contava que acabasse também a alegria daquelas pessoas, que não sabiam o que fazer em seu tempo livre, por poderem escolher! Elas queriam as histórias das batalhas de cada dia, que preenchiam os momentos sucedidos nos ponteiros do relógio, e apenas um bom instante como recompensa de todo o resto. De que adianta a comemoração da colheita sem o esforço da plantação? E, com tempo ou sem ele, já não cabia aquela intervenção, desmotivada. Era tempo de seguir.


Raquel Abrantes

terça-feira, 10 de abril de 2012

Modinha pra nadar

Por Raquel Medeiros*

O mar lá da prainha
Dedilha a modinha
Qu’ areia quente me soprou

O mar lá da prainha
Rima sal com as marolinhas
Desencaminha qualquer dor

E na onda mais torta eu digo
Que o mar é seguro e abrigo
Pra quebrar o seu pavor

Mas o mar é um perigo
Ou talvez um doce risco
Como todo grande amor


*Outros textos da escritora em http://segundaasexta.com.br/

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Penso nas vírgulas que deixei de escrever

dariam continuidade a uma frase bem estruturada

cheia de sentido, completamente eufórica

por existir a cada dia, serena e realizada

apesar de seus pormenores indesejados

sempre estarão lá também, é sabido

mas que problema seria esse, tão irrelevante?

é mais como uma forma de evitar a perfeição

e o medo evidente dos meus próprios defeitos

esqueço somente ao ver os erros dos outros

o arrependimento, disso bem entendo

não há culpa capaz de alterar papel impresso

o que, de certo modo, conforta, página a página

(lembrando ser possível mudar a letra na próxima)

Percebo as influências por mim incorporadas

de instantes vividos, coisas novas, desconhecidas

passam a fazer parte dos meus rabiscos

chego a ultrapassar o nome; conjugo o verbo

mesmo ao repetir gostos e olhares e feições

antes necessários, agora de bom grado

alguns, sinceramente, em grau de nostalgia

de fato, são a releitura de um momento

ofereço minha grafia, assim como preservo

as palavras boas de pronunciar.


Raquel Abrantes

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Búzios

Por Thiago Pinagel Barcellos Bessimo*

Passavam barcos
passavam crianças
passavam Elas
passavam rindo
como passava a noite.

Voltava o barco
voltava criança
voltava Ela
rindo como a noite.

Íamos no barco
como duas crianças
Eu e Ela
rindo na noite.



*Outros textos do escritor em http://ocadernos.blogspot.com.br/

terça-feira, 3 de abril de 2012



Janela é uma coisa batida
porque a vista por si só inspira
mesmo quem não é poeta

e para criar esta moeda
de troca da emoção vivida
é preciso o outro lado da janela


Raquel Abrantes

segunda-feira, 2 de abril de 2012

notícias à-toa

Por Ricardo Pereira*

Escreva, ela me pede, é simples, você tem meu endereço, papel, caneta, sei onde os guarda, na segunda gaveta junto dos poemas que não me disse, das fotos que não ficaram boas, lugares que ficou de me levar. Não me fale do que tem ou não saudade, prefiro notícias à-toa, nem boas nem más. Conte-me que hora tem acordado, quero saber se ainda temos os mesmos horários, de que lado da cama tem dormido agora que não a divide mais comigo. Quantos cigarros têm fumado por dia, quanto tempo demora para uma nova poesia e o seu romance – em que pé está? Não esquece de me avisar quando será publicado. Falando em livros o que tem lido? Algum novo autor que mereça ser conhecido? Tem uma livraria perto de onde trabalho, às vezes passo por lá carregando você comigo, meu gosto e o seu foram ficando tão parecidos. Costumo ouvir nossos discos enquanto preparo o jantar, você abria uma garrafa de vinho, eu fazia uma salada de tudo o que a gente gostava, deu vontade de perguntar se tem se alimentado direito, fiquei de ensinar você a cozinhar. Tem ido ao cinema? Voltou ao nosso bar? Sabe alguma piada que possa me contar? Eu quero rir, eu quero ficar sem ar, eu quero me vestir de uma cor que sei que ia gostar. Mas não me escreva uma linha sequer sobre a mulher com quem você está, não me diga nada sobre a cor de seus cabelos, os móveis que ela mudou de lugar, quero tudo igual como me lembro, com a torneira da pia do banheiro ainda por consertar.

*Outros textos do escritor em http://puro-e-obsceno.blogspot.com.br/