sexta-feira, 30 de março de 2012

Lúdico

Por Raquel Abrantes e Rafael Linden*

É impressionante como as dimensões parecem maiores, e as escuridões mais negras, e parecem poder nos engolir quando somos crianças. Ao mesmo tempo, há uma admiração pela grandiosidade literal das coisas, que depois aprendemos a conotar no decorrer da vida.

Nosso espanto encanta os adultos que nos olham. A tal ponto que insistem em gravar os momentos em que somos mais vulneráveis. Mais tarde, quando nos descobrimos adultos, podemos nos observar nestas fotografias e entender um pouco porque reagimos à luz e às sombras.

Adultos não gostam de ser vulneráveis e, por isso, acabamos deixando esses pensamentos infantis para lá. Pra que isso afinal? É o que pensam, mas não dizem. Até que a inocência da prole anule a própria e, assim, seja possível ser lúdico outra vez.



quinta-feira, 29 de março de 2012

_ about growing up

Por Flavia Melissa*

Quando eu era pequena e me falavam a respeito de um pote de ouro que existiria ao final de todo arco-íris, ninguém disse que existiam cores frias e cores quentes. Ninguém disse o quão geladas elas poderiam ser na ausência do sol, nem quanto poderiam queimar sem uma brisa suave qualquer.
 
Quando me ensinaram a mergulhar, ninguém se lembrou de me alertar que às vezes a piscina poderia estar sem água. Ou que nas doces águas se afunda mais rápido do que nas salgadas. E que, no mar, a gente não pode engolir água se sentir sede, porque se não morre mais rápido. Me ensinaram que peixe grande com barbatana era perigoso, mas nunca me disseram que golfinho também é grande e tem barbatana, e ai!, que tantos deles passaram por mim e eu fugi, perdida no meu medo.

Quando me mostraram que existiam coisas que voavam, tinham asas mas não eram pássaros eu abri a minha boca e não acreditei que, quem quer que fosse que subisse naquilo, poderia voltar são e salvo. Eu senti medo ao vestir o capacete, eu senti borboletas no estômago quando apertaram o cinto de segurança e senti o coração sair pela boca quando ganhei os céus. E, naquele dia, quando meu pai me mandou segurar firme o manche, eu segurei, mas fechei meus olhos e não notei que era eu, tão pequena eu, quem nos manteve acima das nuvens.

Quando me mostraram que eu deveria pegar areia únida para servir de base para construir meus castelos na praia, não me disseram que ela também secava quando exposta ao sol, e que o destino de qualquer construção de areia seria a destruição. Sendo assim, eu não entendi que tudo é efêmero, que o passado pode ser tão real quanto o presente mas que, o futuro, é uma grande bexiga colorida prestes a estourar. Eu não entendia quando via aquelas mulheres de branco jogando flores na água porque não sabia que, lá no fundo, haveria alguém a recebê-las.

Quando aprendi que plantas davam frutos e que, às vezes, deveríamos torrá-los para que fossem mais saborosos, ninguém me disse que também o ouro passa pelo calor do fogo para ser purificado. E que, ao usar protetor solar, apenas aumentamos o fator de proteção de nossa própria pele, ninguém me disse que eu seria capaz de suportar minhas próprias dores para me transformar em um ser humano melhor.

 
Quando entendi que lagartas e borboletas não eram animais distintos eu senti nojo, e não entendi que todos nós temos que passar pelo aprisionamento do casulo para, um dia, colorir os jardins da vida. Não percebi que existia um sofrimento genuíno ali envolvido, não cogitei o quanto deveria doer ter aquelas asas enormes saindo de um corpinho tão delgado. Não me dei conta de que, afinal de contas, eu também era uma lagarta que em breve encararia a clausura do casulo.
 
E o casulo dói, mas também liberta. Liberta porque, na escuridão, nenhuma cor é fria ou quente demais. Na escuridão do casulo a umidade não sufoca nem afoga, apenas protege, amolecendo a pele para que as asas finalmente saiam. No escuro lá de dentro, todos os castelos de areia podem ser eternos pois nunca chegam, de fato, a serem finalizados, sempre mudam, sempre mudam.
 

E foi sozinha que eu aprendi sobre inconstância e impermanência, que regem o ciclo de vida de todas as plantas, de todas as bexigas coloridas, de todas as meninas que, aos 7 anos, são capazes de ficar no sol com FPS 2 sem se queimar. Que seguram firme seus manches e se mantêm acima das nuvens.

*Outros textos da escritora em http://flaviamelissa.blogspot.com.br/

quarta-feira, 28 de março de 2012

No lixo

Joguei no lixo
a poeira da semana
a casca de banana
a garrafa vazia de cana

Joguei no lixo
o verso que estava perdido
o cartão velho de um amigo
o sofrimento contido

Ali fiquei, e o lixo fitei
revivi os poemas antigos
os primeiros que queimei
e os que ficaram contigo

Mas no lixo não estavam
as fotografias que restaram
preferi o fundo da gaveta
até a próxima arrumação.


Raquel Abrantes

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Do peito as partes
caíram pesadas
pontiagudas
assim como
eu; parto.


Raquel Abrantes

terça-feira, 27 de março de 2012

Por Polly Di*

Quando volto dos pulos e dos passos.
Ah! crescida das pernas
Destampada das pernas
Sem saia que dê.

Do que é ponto e já virou samba
para o outro demora.
para o outro urgência por resposta.
para o outro desconforto.

Incabedura que extrapola em perna.
que dança doçuras, suores.
Incabe eu em suas vergonhas
e minhas pernas nas suas.


*Outros textos da escritora em http://osenhortolere.blogspot.com.br/

segunda-feira, 26 de março de 2012

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Você não é perfeita
Cada imprecisão que comporta
Em sua finita luz do dia
até a noite gélida e sombria

somente por você vale a guerra
defender-lhe até o fim, é preciso
sua preciosidade não se renega
saiba poder contar sempre comigo


tanto a sua, quanto a minha
todas deveriam ser prioridade
ante qualquer outra necessidade
conta bancária, status, ladainha



Raquel Abrantes

domingo, 25 de março de 2012

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O olhar da menina parecia abrir as portas da casa, um lugar agora pouco arejado pela vontade esquecida daqueles moradores. Quando chegava, a luz entrava imediatamente na vida dos velhos tios, mostrando que a felicidade pode ser simples. Como uma tarde no campo.


Raquel Abrantes

O quarto



Este sempre foi meu refúgio. Aqui me encontrava, longe da multidão insandecida, na época primeira da luta, quando o pouco é muito. Também muito me perdia, sem ninguém procurar por mim. Nestes desencontros encontrados, o pano de fundo me acolheu. E o retratei na medida em que precisava dele para continuar, para lembrar de conquistar o que tenho hoje, além do quarto.


Raquel Abrantes

A pintura

Deitei meu olhar sobre a pintura que fervilhava em suas cores
chegavam a ameaçar minha integridade com sua dose de realismo dissonante
em óleo sobre tela

Não resisto ao áspero toque das formas
e quase danifico o que me atraiu
como nos relacionamentos humanos

Mas senti que havia algo mais entre nós
e isto não poderia ser desprezado;
a identificação

A pintura existiu por mim.


Raquel Abrantes

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dois marcos
                    flocos
                              neves


Raquel Abrantes

domingo, 18 de março de 2012

Até a areia




O vento afastava o suor do meu rosto, escondendo por alguns instantes o pavor excitante de se jogar ao nada, para o todo admirar. E no meu peito batia a insegurança prevista e acelerada que tentava despistar com a beleza da paisagem. A cada passo em direção ao precipício, a respiração ficava mais difícil e penosa até o desespero que me fez hesitar. Pouco tempo tive eu até o voo propriamente, porque nessas horas não vale a pena pensar; apenas sentir. E a lona me levou para além das montanhas, em um belo e sonoro grito de terror e vitória contra o medo de ver a vida de cima. Mas foi o mar que trouxe paz à aventura, pulsante, viva, até a areia confortante da praia... minha pela primeira vez.


Raquel Abrantes


sexta-feira, 9 de março de 2012

Adoniran

Rafael Linden*

             Ele entrava no botequim cantando sua versão do Trem das Onze: “Quás, quás, quás, dá um traguinho dum, duru-dum-dum!”. Daí o apelido, pois o nome ninguém sabia. Às onze da manhã, já mal se equilibrava num colchão de ar que flutuava ali pela Rua Real Grandeza. Quando faltava, a esposa do Almirante perguntava ao jornaleiro: “Ô Jarbas, cadê Adoniran? Faz dois dias que sumiu, aconteceu alguma coisa?”. “Não esquenta, Dona Leontina, ele é de ferro. Cachaça não enferruja, né? Ha, ha!”. Dia seguinte, lá estava o Adoniran, trôpego, tirando o chapéu imundo para as senhoras. Era patrimônio do bairro, sustentado pela generosidade pública.
            As beatas tinham-lhe horror, mas só oficialmente. Rezavam por ele na Matriz, até porque o bebum lhes era útil. “Viu, meu filho, se você desobedecer seus pais e não estudar, vai acabar feito o Senhor Adoniran!”. Tratamento respeitoso para um ícone do desvio, exemplo bem a calhar para educar a filharada. Mal sabiam.
            Uma fofoqueira deu de cara com ele descendo a ladeira do Morro de Santa Marta e espalhou na vizinhança. Descobriram que Adoniran obedecera papai e mamãe, estudara até a pós-graduação. Morara em Genebra, trabalhara num centro internacional de pesquisa ou, quem sabe, num daqueles bancos que lavam dinheiro de bandido. Acabou num barraco mal-ajambrado, num pedaço da favela onde ninguém queria morar.
            “Então foi isso. Aquela coisa de cientista, cheia das matemáticas, piorou o Adoniran, ele deu de beber e se desgraçou, eu mesmo a tal das fração me dava nó na idéia, não passei do primário e só arrumei emprego de boy. No fim do dia eu tomo uma loura só, se chegar em casa torto a patroa chia. Senão, eu gastava tudo na birita”, dizia Seu Arnaldo, mineiro, cinquenta e sete anos, quatro filhos, dois salários mínimos, morador de um cortiço na Rua Martins Ferreira.
            O Agenor, auxiliar de almoxarife, rebateu: “Foi mais é rabo de saia, arrumou alguma francesa peituda e a mulher corneou ele. Lá vive cheio de gringo, como é que mulher nascida em país de bacana vai aguentar um cara de suburbano desses? É dor de corno, chêchê la fêmea, isso sim! Eu mesmo só não entorno porque a Alaíde me deu casa, comida, cinco filhos e engordou trinta quilos, essa não me larga”.
            O Ademar, operário, capenga, sempre militante, se enfureceu. “Ô ignorante, Genebra é na Suíça, aquela dos relógios. Foi a ditadura, isso sim, homem estudado só podia ser contra, tacharam ele de terrorista, levaram no meio da noite pra Barão de Mesquita, tomou choque até torrar o saco, depois largaram ele no meio da Rio-São Paulo. Eu mesmo levei cacete no DOPS, perdi o ano na faculdade e o reaça do meu pai me expulsou de casa quando soube que eu era do Molipo. Só não encho a cara porque arrebentaram meu fígado”.
            “Vocês não fazem fé em brasileiro. Pra mim o Adoniran inventou um parangolé legal só usando um canivete e a cachola, os japas roubaram ele e agora tão botando o aparelinho nos dêvêdê. Eu mesmo inventei um doce lá na padaria e o português, em vez de me dar aumento, me botou foi no olho da rua. Aquele safado do Demerval paga uma miséria no botequim, só não engulo as cachaças todas porque a patroa tem nojinho, senão aquele unha-de-fome ia me pagar era em canabrava”, emendou o Maringá, um salário mais gorjetas.
            Já o Mendonça, auxiliar de carpinteiro, divergia. “Aposto que foi bolsa de valores, o cara ganhou uma nota, comprou cobertura na Barra, botou mulher lá dentro e cheirou tudo que tinha, até eu dei mole prum vigarista, meti grana em ação podre e perdi vinte anos de trabalho suado, só ando de cara limpa porque só dá pra tomar umazinha no sábado, e olhe lá”.
            Dali a pouco estava o maior bate boca na frente da banca do Jarbas, os cinco e mais uma dúzia, todos ao mesmo tempo, cada um aferrado a sua teoria sobre o vício do coitado. Cada um querendo que sua própria desgraça fosse a do Adoniran.