segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Cadeira de balanço


Lá vem
Lá vai
A cadeira de balanço
Com o velinho sorridente
Sempre contente

Apoiava o punho no rosto
E o cotovelo no vime
E aqueles azuis dos olhos
Que continham o mundo
De uma hospitalidade sem fundo

Recebia todos com muito gosto
Porque gente para ele era alegria
Até mesmo quem não conhecia

No desfolhar das páginas do jornal
Lembrava
De histórias hilárias
Da juventude sofrida
Da luta diária, sua bandeira
E construiu uma família inteira
Filhos, netos, bisneto

Muitas regalias eu tinha
Por ser a primeira neta, sorte a minha
E bem disso me aproveitava
Como o balão de gás hélio que soltava
E logo outro já ganhava

Dos livros escolares
Menos indicados para minha idade
Consegui escapar, sem pesar!
Porque ele lia e tudo me dizia
Para a prova que eu faria
E histórias em quadrinhos ele me dava
Da Pantera Cor-de-rosa, que eu adorava!

Seu instinto militar, talvez
Deixou dor uma única vez
Um puxão de orelha com ardor
Que nem me lembro o porquê
Apenas que fiz por merecer

O importante das reminiscências
Foi o convívio intenso até a adolescência
O avô agregador, professor
Com a grande vida que ergueu
E a responsabilidade que me deu.


Raquel Abrantes

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Lâmpada


olho para todos os lados
mas não vejo o que procuro
aquela lâmpada amarela
mostra que não sei como funciona
até queimar e estagnar
não sei como funciona

e não restar mais luz
e a visão comprometida
turva e, de repente,
começo a ver para dentro
que não sei como funciona

vejo uma chama
que ainda não se apagou
uma chama escondida
de uma realidade partida
cheia de faíscas e incertezas
não sei como funciona

abro os olhos doídos
de tanto esforço para enxergar
e tenho a lembrança de que
é preciso trocar a lâmpada
que não sei como funciona.


Raquel Abrantes

domingo, 25 de novembro de 2012

a poesia se perpetua no papel.
na vida, ela aparece.


Raquel Abrantes

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Sonhos


Sonhei que estava acordada
nem a cabeça do travesseiro tirei
percebi que sempre ando ocupada
esquecendo os sonhos que sonhei

alguns deles se repetem
e transferem-se para a vida real
assim como se não quisessem
permanecer no mundo astral

e de tanto acreditar neles
me sinto realizada...
porque minha alma se deteve
em uma imagem projetada

os sonhos na cama e na vida
de momentos monumentais
trazem a expectativa
de legitimarem-se leais.


Raquel Abrantes

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Utensílio


A incapacidade motora
a qual nosso corpo nos impele
ao longo de toda a vida
nos lembra o pequeno utensílio
que somos na passagem

dependemos da engrenagem
que a cada tanto
vai nos surpreendendo
nos deixando sem saber
se o andar até a praia
será prazeroso
ou doloroso
se o dia de trabalho
trará o comum cansaço
ou nos deixará um bagaço
são tantos planos
tantos que deixamos

Pagamos um pedágio
somos multados pelo uso
abusivo do motor
que nos aventa
e sabemos apenas
por onde rodamos hoje

Entre as revisões
de nosso corpo-máquina
tentamos prolongar
o tempo útil do aparelho
trocamos uma peça
recauchutamos o desgaste

e o corpo lutando
contra o tempo
que tem e que não tem
infestado de desafios
para utilizar ao máximo
e com movimentos sagazes
os propósitos da mente
transferidos aos filhos
inevitavelmente.


Raquel Abrantes

sábado, 3 de novembro de 2012

Despertar


Toca o despertador
alertando para o compromisso
de alguém que
faz o que faz
por fazer
e os ponteiros
seguem pelo dia
como sua falta de vontade
de encarar a realidade

pega o ônibus
sem ver o rosto
do motorista
apenas aquele olá
automático
ao trocador
que não sabe quem é

esqueceu de dar
um beijo em sua mulher
lembra somente no trabalho
quando espera
pela hora do almoço
que acaba rápido
e volta para o esforço
até chegar ao fim
do expediente
que o deixa contente
sem saber o porquê
porque não sabe
o que mais pode fazer.


Raquel Abrantes


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Lucidez


essa lucidez
derrama
exclama
estranha
no luar embaçado
na sombra da insensatez
guia; desvia
da percepção existente

só é possível fazer 
o que se pode
assim que este fulgor
se adaptar à obscuridade
como peças e movimentos
estratégicos e concentrados
num jogo de xadrez,
porque o óbvio
não é manifesto geral

A maioria costuma
censurar o evidente
por viciada cegueira
que dificulta a troca
na próxima jogada;
nada é de uma vez

Vamos com calma,
enxergar primeiro
com a mão, que até então
ajudou a preparar
uma simples lauda
com a letra que termina
a explanação da jogatina.


Raquel Abrantes

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Canto


Em cada canto
em cada tanto
tem um tempo
um vento
um momento
um tormento
em cada canto da casa
sem asa
com asa
sem casa

em cada um
em cada dois
em cada três
em cada quatro
dentro de um quarto
um canto
apenas um.

Em cada face
em cada fase
fazendo
de um só
canto
um nó

em cada nada
em cada escada
para baixo
para cima
estagnada

uma hora anda
nem que seja
nos sonhos na cama
que não existe

cantando
cantando os cantos
canto de cantorias
de alegrias
de tristezas
incertezas
alegorias
o canto do espanto
do desencanto

cantores de dores
de cantos ardores
cantados no canto
com a solidão que tinha
carregando o manto
em qualquer canto
a alma
o quebranto

cantorias encantadas
aplaudidas
acuadas
ciladas
novo canto
re-canto.

você no seu canto
e eu no meu
e o abandono
de um beijo
uma conversa
uma trégua
um canto transverso
que os males espanta.

cantigas de ninar
para animar o espaço
inconstante, relutante
bem fazer 
de mudar de canto
pelo menos quatro
dentro de um quarto

camisa de força 
do espaço físico, tísico
visando à libertação
do interior do canto
do ser de dentro
da peculiaridade

de um canto para o outro
pelo desgosto 
pelo aperto
pela falta de jeito.

mesmo com 
nossas tempestades,
ventem:
que o nosso canto
é a gente.


Raquel Abrantes

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Excrescência


Essa abstinência de contato
com o que existe
com o que resiste
com o que persiste
nesta altivez despropositada

essa relutância em ver
que sozinho nada se faz
de nada se é capaz

porque viver é depender
do carteiro que traz as encomendas
do porteiro que recebe os pacotes
das pessoas que os enviam 

do motorista que leva pessoas a seus destinos
do trocador de ônibus que vende a passagem
do passante que informa um trajeto qualquer

mas este olhar 
com soberbana vigilância!
ha ha ha, rindo à toa
achando que tudo pode
aonde foi amarrar seu bode?

afinal
do início ao final
deus criou os homens
para um propósito 
natal
fatal
entre gargalhadas
e trapalhadas
neste alheamento
arrogante
que um dia aprende
a deixar de ser 
seu próprio rival
nesta espiral
da vida
que respira
que espirra.

É um atrevimento ignorar o vizinho!
esse orgulho é um entulho 
é um disparate, basta!
de viver na excrescência
audiovisual da autossuficiência.


Raquel Abrantes

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Se

Se é um momento que não existe.


Raquel Abrantes

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Aderência


No sobe e desce
no vaivém
de nossos momentos 
aderentes ardentes
a ponta faísca por dentro
explora o céu aberto e estrelado 
a cada desbravada descoberta 
do ser interior 
que eu mesma desconheço.


Raquel Abrantes

domingo, 21 de outubro de 2012

Raiar


o dia me chamou
com seu primeiro raio de sol
e não pude resistir ao seu encontro
livre leve solto
na luz no ar no mar
que bela visão do Rio de Janeiro
que tenho o ano inteiro
trouxe paz e alegria
a um coração alheio
ao vento ao tempo ao momento

caminhar na areia
como uma sereia
que acabou de ganhar as próprias pernas
arranhando a sola dos pés animados
que trouxeram consigo
grão a grão
no trajeto conhecido
pelo chão vivido
em busca de um jardim
ainda não amanhecido

faltaram as rosas
mesmo com seus espinhos
bem-vindos
como a dor que os olhos sentem
ao abrirem-se para um novo dia

as pessoas da mesma via
sempre têm algo a nos dar
nem que seja um olhar, um olá
uma troca de palavras para começar
a rotina que se repete
com sua formosura peculiar

e a senhora que passou do meu lado
puxou conversa, de bom grado
vendia pano bordado
me encantei e parei
a simplicidade de seu jeito
me causou um efeito
e até seu telefone peguei.

a moça com o cachorro que nada via 
que apenas de carinho precisa, repetia
e continuei a contemplar o mar
belo e triste pelo cedo despovoar
que logo foi preenchido 
pelas vidas que acordaram
para caminhar. 


Raquel Abrantes

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Estrela-guia


Elegante e fina
com seus olhos de felina
mas de ameaça nada há
vive em eterno estado de graça
em seus cordões dourados
que lhe caem abençoados
veio para trazer a paz
e, quando cansa, ainda faz mais
pelos outros por todos para tudo
é uma fortaleza, meu escudo
contra todas as improcedências
age com calma, extrema paciência
seu colo, sem dono aparente
tem mil pretendentes
é uma chuva de lágrimas
emoção pura, sem lástima
e dela o orgulho que tenho
nesta vida, neste desenho
é inexprimível, indizível
de tanto amor, de tanto calor
que grita, cala, sente
traz aquele abraço
que afaga toda gente
passo a passo
lado a lado.

Uma alma imperativa
veio pôr ordem na vida
de todos, sempre querida
mensageira de luz
imponente, parece estridente
mas é puro riso agregador
envolvente.

Mãe de brilhantes instantes
de momentos desesperantes
oscilante porque preocupada
como responsável pela jornada
em sua encantadora dispersão
tem esta visão, quem diria 
por ser uma estrela-guia. 


Raquel Abrantes

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Coisas


às vezes fazemos coisas demais
às vezes, de menos
mas sempre fazemos
algo
para estar onde estamos
fazemos coisas por nós
deixamos de cuidar de nós
ajudamos aos outros
quando podemos
e, mesmo assim, também esquecemos

só que tudo tem seu momento 
como plantamos uma flor 
e ela tem seu tempo para crescer
também temos cada um
o nosso próprio tempo de aprender

por isso muitas vezes
precisamos de alguém
e a pessoa não pode corresponder
porque não foi possível a ela entender
ou, naquele momento, nada mais tinha a oferecer

e, nós mesmos, quantas vezes,
fizemos tão pouco pelos outros
por não nos considerarmos capazes
ou por acharmos que não poderíamos
acudi-los da maneira que deveríamos

pode ser difícil aceitar
a falta de quem se precisa
e, apesar de ser penoso perdoar,
é uma compreensão de vida

porque todos damos o que podemos
e mais árduo que perceber a limitação alheia 
é aceitar a falha pessoal, que é uma cadeia

quando deixamos uma pessoa que nos ama
sem sentir o amor que temos por ela
mesmo por um segundo que seja
acabamos nos cobrando pelo altruísmo
neste mundo que tende para o egoísmo

mas um dia todos poderemos ver
que aprender também é perceber
que nos perdoar a nós mesmos
é o grande desafio do viver

porque a culpa não é resolvida ao pedir desculpa
a culpa é guardar mágoa no peito
é impedir a própria redenção
e o auxílio a um outro irmão

um irmão que precisa
sempre precisa 
porque vivemos em comunhão
já que a dor e o amor
são sentimentos de libertação.


Raquel Abrantes

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Edredom


esse céu salpicado de luzes

me lembra um edredom

que tive quando criança

fofinho como as nuvens

e agarradinho a mim


Raquel Abrantes

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Consagração


Parte 1

Quando menos se espera
um pássaro pousa na janela
trazendo harmonia
ao nascer do dia
a imagem fica na mente
devido à sintonia existente
num momento inusitado
que vem até nós de bom grado
e, no outro dia, sem esperar
lá está ele de novo, a nos espiar
na recíproca verdadeira
nesta terra derradeira
dos muitos pássaros que voam
sobem descem vivem morrem
sem conseguir transmitir alegria
a companhia, o apoio na travessia
pois é para onde não olhamos
que, distraídos, percebemos onde estamos
e a troca
e a sinergia
e a beleza
e o amor que chega
sem voar sorrateiramente
porque o sentimento oferecido
é o que dá o sentido
do colo, do abrigo, do amigo
Lembra que não estamos sozinhos
que temos o ombro do parceiro
o doar-se por inteiro

Parte 2

Mais uma vez se fez dia
e nada demais parecia
apenas aquele vício da consciência
quando saímos da dormência
somente um bom dia banal
segundo a norma convencional
mas a desconcentração
tem o poder da revelação;
Ao olhar pra lá e pra cá
Ao olhar mesmo sem ver 
acabamos por perceber
a simplicidade que há
em um bem querer
apenas um oi, vim te ver
porque a pressa, a agonia
a pressão, a apreensão
a obrigação da dinastia
podem enlouquecer
pela opressão do próprio ser
e o vento bate
e o tempo corre
e a rocha desgasta-se
mas a felicidade vem apenas
se houver também o problema
e a magnitude permanecer
na atitude de vencer
este é o motivo 
do poema que digo

Parte 3

Como se já não fosse suficiente
me trouxe Nina, este presente
tão parecida com sua dinda
contagiante, linda
esta menina graciosa, sapeca
levada da breca
que mostra sem pudor a que veio
querendo algo da ponta ou do meio
mas só importa seu sorriso.
À opinião de outros também me refiro
à sua mãe certamente
minha prima, comadre, confidente
meu escudo, minha proteção
nesta mão dupla da nossa direção
que a mim terá em qualquer dia
e assim cria-se uma família

Parte 4

Uma nova versão de família
a esta, será dada a partida,
quando todos puderem perceber
que sofrer é crescer e aprender
e cada um puder fazer sua parte
nesta busca de glória, nesta arte
o braço dado, o abraço apertado
ouvidos abertos, sentidos despertos
uma família feita de benção
não só de sangue; mas do que pensam
o irmão, o pai, a tia, o amante
a astrologia ressonante
a mão estendida
quem sempre acha uma saída
que os seres hão de encontrar
ao pensar nos outros sem pesar
gente que comove, traz uma crença
cuida, acompanha, acrescenta
em função da identificação
de uma forma de oração
mas não da biologia ou da geografia
uma, questionável; outra, dispensável
vivemos em torno da empatia
o que se dá, o que se aprende
o que pulsa, flui no peito
sem que o sangue escorra
no tormento da masmorra
sem apontamento
somente um momento
depois do outro
e, de tanto agradar o gosto,
não acorrenta, se anuncia
renovando a alforria

Essas pessoas boas
tendem pendem
ao gozo
ao grito
ao rito
reinventando
um ritual amado
por sua própria peculiaridade
porque cada um tem sua verdade
e em cada passo demente
podemos descer um degrau
e subir dez mais na frente
precisamos cada um
fazer um mundo diferente
livre leve contente
frente a tanta prisão, dureza
e essa tristeza
que bate no fundo
na altercação com o ser imundo
E, graças ao traquejo,
e ao desejo de sermos nós mesmos
aquilo que somos agora
mas tudo tem sua hora
até a algaravia
pode se expressar, quem diria
porque tudo depende
da pessoa que vai ouvir
não de quem se esconde
mas de quem ajuda a reagir
a tirar da boca
esse gosto néscio
essa coisa de gente louca.


Raquel Abrantes

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Galho dançante


Quando notei 
o descampado
à minha frente
imaginei
que alguém
como eu
que ali viveu
um dia, durante algum tempo
segundo o momento que vivia
pensou:
quero ficar por aqui
e começou os preparativos
para a nova moradia.

Precisou tratar o chão
arrancou as ervas daninhas
igualou o solo com as mãos
e ferramentas
e máquinas
para criar o fundamento
Colocou um tijolo
e o cimento
depois outro tijolo
até erguer uma parede
formar uma estrutura
uma casa
construir um sonho
uma vida,
já que viver
requer pensar para cima.

Fez uma guarita
colocou as portas
e as janelas
para a entrada e a proteção
do sol e do vento
colocou telha sobre telha
por cima do teto
antevendo
tempestades
trovoadas
e abrigou a família.

Embelezou sua vista
para que, a cada amanhecer,
o jardim cultivado
pudesse transmitir
um belo recado:
de flores, de cores, de odores
junto à cadeira de balanço 
pendurada no galho dançante 
e transpirante no correr do dia 
em uma árvore
que precedeu esta
e muitas outras histórias
para divertir as crianças
a maior de todas as alegrias.

Mesmo com as intempéries
da vida em seu curso
do início ao fim
uma família tirou fotografias
guardou folhas pétalas pedras
até o descampado 
retornar outro dia,

Quando voltou a ser tratado
de outra forma
onde as famílias da vez
tiveram outros jardins
mais limitados.

Com mais gente,
falta mais espaço,
e a natureza 
recria outro tipo de beleza
povoando cada vez mais o mundo
em uma graça mais quadrada
mais restrita
mais apertada
apesar de ainda desejada.

O galho já não dança;
Agora, é a estrutura de ferro
que embala a criança
na oscilação da vida
Na subida
Na descida
Do cavalo ao trem
Do ontem ao além.


Raquel Abrantes

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Onipotente


Agradeço não só pela comida
mas também pela vida
pela família
de sangue, de carne, de osso
de alegria, de desgosto
porque tudo anda na mesma via
e juntos buscamos a harmonia
nesta transferência de paz
de calor, de amor capaz 
de ser presente na dor
que leva, traz, transforma
cria uma família nova
cedo ou mesmo tardia
que se revela na poesia


Raquel Abrantes

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O presente do acaso


a gente faz planos
todo o tempo
desde as primeiras percepções da infância
fazemos planos, como criança
começamos pelos mais simples
como ir à praia no fim de semana
passar o domingo na casa da avó
brincar no parque com os amigos
e, nesta fase infante,
ainda não é possível entender
que muitos planos excitantes
não chegam a acontecer
pelos imprevistos mais vistos
como a chuva que nubla a paisagem
como o trânsito que impede a passagem
como o resfriado resultado da friagem
e vamos replanejando
tentando evitar novas frustrações
que desconstroem idealizações
mas o futuro ao acaso pertence
e nada de negativo nisto há
sem saber a gente perde para ganhar
e os muitos planos frustrados
nos levam a contentamentos nunca pensados
que tornam a vida uma descoberta
incessante do próximo instante
em um ciclo que se completa
espontaneamente se integra
ao permitir florescer 
as possibilidades do crescer
como a vida que brota
dentro da gente
o amor maior, o presente
que vence todos os planos da mente
trazendo o anjo, o amigo, o parente
o sangue que corre sem perceber
nas veias, nos traços, no mundo
sem passado, sem futuro, sem fundo
apenas presente
sempre presente
maior que qualquer plano
superando qualquer engano
mais, muito mais que suficiente
Transcendente
ao amor de um filho
nunca haverá sentido
correspondente


Raquel Abrantes

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Som


o som
que transpassa 
as batidas ritmadas
e aceleradas
do coração inquieto
lembra outros
corações transtornados
que transcenderam
um momento
uma fase
uma crase
imposta pela regra
da gramática
tão dispensável
que de nada serve
ao sentimento real
ao sentido do dizer
porque o som
diz mais
que mil preposições
que todas as obrigações
já que o sentido
está no verso
no reverso
no transverso
no gesto
no sonoro acalento
do diverso
na revisão 
do íntimo
perverso
no ínfimo
universo
de cada ser
despreparado
para as facetas
trancadas
esquecidas
de uma vida
despercebida
pela rapidez
urgente
de uma solução
rimada
cobrada
purista 
individualista
que passa
que perde
que não percebe
a graça
de uma vírgula
uma pausa
um silêncio
que diz:
pare e olhe
porque a beleza
não corre


Raquel Abrantes

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O amor


o amor
surge insólito
inesperado
como uma rajada
de vento acalorada
abraçando
os poros arrepiados
num dia de verão
fazendo escorrer
o suor fragrante
bendito do momento
encantado
até a brisa
refrescante
ao entardecer
sombrio de cada ser
pondo à prova
a delícia
dos prévios instantes
ainda indecifrados
de uma conjuntura
misteriosa;
faça sol, está bem
faça chuva, talvez
nas trovoadas
já tão certas
quanto a noite
a magnitude é posta
a um fio
a um sopro
a um não sei
o quanto pode
sustentar-se
num passeio
ao luar oculto
ao mar turbulento
suportável
enquanto pode
enquanto amor
enquanto o ar
movimenta-se
até tornar-se
inerte
perdendo a febre
com a brisa
que despede-se
por sua própria
natureza
inconstante


Raquel Abrantes

Fumo


esta luz
que acende
o meu cigarro
faísca a palha
queima o fumo
e enfeita o ar
invisível
com ondulações
acinzentadas
de conforto
com a ajuda
dos dedos amarelados
marcados
pelo resultado
do prazer fugaz
perseguido
em várias frentes
como esta
finalizada
com as cinzas
postas
no cinzeiro
completo
e satisfeito


Raquel Abrantes

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Quando


Quando
ao sentar na varanda
de um fim de tarde
uma janela ao longe
reflete o sol
mais que as outras
noto a singularidade
de um momento
que se esvai
por uma leve distração

Quando
volto a buscar o brilho
já não destaca aquela forma
agora tão simples quanto as outras
sem perceber o motivo
como o sol que se põe
trazendo a igualdade
a opacidade prévia da noite

Quando
as luzes artificiais
iluminam todas as janelas
da cidade
sem critério
sem mistério
sem mérito
apenas um artifício
para enxergar
na escuridão 


Raquel Abrantes

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A cidade


os ruídos da cidade
circulante perturbadora
também têm seus vazios
dando espaço ao canto
dos pássaros que ainda existem
acima do asfalto
continuamente maltratado
pela velocidade cotidiana
de uma meta perversa
de um soluço a ser superado
de uma perda presente
rumo ao futuro incerto
infinitamente duvidoso
duvidosamente planejado
verdadeiramente esperado
apesar do atual momento
que já passou
o canto já passou
e o asfalto estanque
não permite a passagem
nos cruzamentos
das vidas errantes
gritantes
e escassas de melodia 


Raquel Abrantes

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Experiência


somente
uma experiência
viva
pode nos lembrar
o calor
do chocolate
amaciando a garganta
numa noite fria
linda
exuberante
que de tão bela
o tempo
passa despercebido
sorrateiro
até o admirar
do primeiro feixe
de luz
de outro dia


Raquel Abrantes

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Trilogia


muitos procuram definir
uns, perdidos sem saber o que,
tentam imaginar e elaborar
prever o acontecimento
ansiosamente esperado
temerosamente evitado
subitamente conhecido
cada caso é um

outros maldizem a conquista
maculados com o fim
da sensação em carne viva
química recordação
dos poros
abertos
expostos
vazios

há quem brilhe
em todo canto
pelo encantamento
do transladar conjunto
à parte do fluxo cotidiano
e uma parte segue vibrando
por esta fascinação indizível
puramente vivível
e revivível

artes e artistas
transferem a essência
permitem sentir outra vez
a satisfação da adjacência
a experiência magnífica

como a tez
musicalmente expressa
com poesia, sem pressa
fotografada pelos sentidos

trilogia vívida
em um único corpo
além do próprio
o reforço de um sonho
intimamente crível
de deuses caídos
de movimentos contíguos
de seres finitos
infinitamente possível


Raquel Abrantes

segunda-feira, 20 de agosto de 2012


Como revirar
gente
a ponto de encontrar
gente que se amou
nessa gente estranha
de dores próprias
aquelas que formam 
cada gente
de maneira peculiar

Como aproximar as dores
de sua própria origem 
até que possam
ser esquecidas 
por novas dores
de característica outra

Sem impasse
dessas dores 
que lembram quem sou
até esta última dor

até a próxima
não sei quem serei
estando aqui, nesta forma
engessada pelo costume
que ainda vai
em toda gente
como eu e você
você com a sua
eu com a minha
em processo de desfolhamento
ou desapropriação
quem poderá dizer...

E a gente acha importante
a dor que tem

É o real que a gente leva.

Eu que acredito tão pouco
sou mais ou menos real?

Eu que sinto tão pouco
sou mais ou menos gente?

Eu que sonho sentir e acreditar
amo mais ou menos gente?

Em meio a tanta gente
a gente procura
o lapso de si.


Raquel Abrantes

domingo, 29 de julho de 2012

Não sei


não sei
não sei porque senta 
em frente à própria cova
esperando cair um dia
Tento de novo depois
não, vamos agora logo
não sei
não sei o que deveria saber
o que faço, então?
Não faço
pego outro livro
a prateleira não aguenta mais o peso
nem eu 
Estudo o caso:
a cova que anda
todos os dias pelas ruas
inserida no ciclo de um mortal
um mortal com emprego, família, papagaio e título do clube.
que seja.
e o que mais?
a cova.
a cova imprevista porém calculada 
como o imposto de renda e os 10% do garçom.
é decrescente
para menos vida
para mais vívida
cada vez mais a cova
cada vez menos o tempo
e, neste caso, a vida
tem um pé nos dois
Lamento
a pegada pretensiosamente programada
as vozes que se dissipam antes que se possa ouvi-las
a vitória certa de que ganhou
Antes
quando foi mesmo?
não lembro.
se alguém disse que viu
pode ser verdade
quem sabe
O banco na calçada
ainda tem seu charme
o vento no rosto de quem olha
para fora
para dentro
para onde for possível, por enquanto...
em sintonias diversas e estimuladas
evoluímos?
até quando?
não sei...
me dá um cigarro? de palha.
Não sei se foi proveitoso até agora
ainda há muito
mas o quê?
Vamos lá!
mais livros, por favor.
aceita cartão de crédito?
prometo que um dia pago
é possível.
discordo do antagonismo com o impossível 
se intimidar com isso?
o impossível
o estado anterior de todas as possibilidades!
o problema é seu.


Raquel Abrantes

segunda-feira, 23 de julho de 2012

segunda-feira, 25 de junho de 2012

A folha

às vezes
quando a folha cai
ziguezagueando
as ondas notórias
de seu corpo
pelo ar intangível
no ritmo intrínseco 
ao observador
as terminações, nervuras
terminam seu percurso
no solo
na grama
nas raízes
em sua própria origem
e seu estado funcional
e seu estado decorativo
e seu estado poético
transformam-se
destinando seu leve corpo
ao irremediável destino
onde salpicam
as luzes frementes
em cores inconstantes
de uma vertigem
A folha
já não favorece
a respiração ao redor;
descansa desgarrada
no arfante movimento
do ser insustentável
como quem a observa


Raquel Abrantes

domingo, 27 de maio de 2012

Sonoros passos

Sonoros passos
me seguem pela casa
até o canto escondido
do sentimento
Sonoros passos
a cada pegada
foram comigo
através do tempo
Sonoros passos
encontrados perdidos desencontrados
de vozes próprias
que foram por si
um dia impróprias
marcaram os dias
entranhados deliciosos comemorados
entre horas marcadas
e instantes macabros
marcaram
com proibidas doses
de acasos futuros 

Sonoros passos
com firmeza e maciez
passados...
em lúcida embriaguez
voltam de repente.


Raquel Abrantes

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Público


Cuidado ao andar
com homens públicos
que tudo expõem à própria revelia
isso inclui você, um dia, por estar ali
despretensiosamente, desconhecido
somente acompanhando um amigo
e, de repente, a câmera escondida
captura um momento que era seu
agora também pode ser meu
ou de todos, depende para onde vá
pode ser visto por qualquer pessoa
homens públicos são vistos lá
e continuam rindo à toa...

Cuidado ao andar
com homens da lei
que privilegiam as regras
a moral das cavernas
a governar as famílias todas
a controlar as vontades todas
não que todas sejam boas
longe disso, mas em casa
manda quem mora
o problema é o lado de fora...

Homens públicos, homens da lei
privados reservados sociais
todos sem exceção                                
mudam de opinião, ferem a lei
mudam também a situação
conforme o momento
e a lei perde com o tempo
seu efeito de aplicação
umas coisas que se fez
deixam de ser insensatez
outras são guardadas e lacradas
para preservar a carreira
de regrar a vida alheia

Os meios justificam os resultados:
esse homem com dinheiro da lei
essa lei com dinheiro do homem                             
esse dinheiro sem lei do homem.


Raquel Abrantes