sábado, 25 de setembro de 2010

Vontade

Deixe para lá
a vontade,
ela de nada sabe;
o que tivemos
é o futuro
do que temos.
Passa tudo.
Até a vontade.

Dedos passam
longe da rosa
para que sua textura
passe longe da
epidérmica memória
tal qual lápide futura.

Olhares sobressaem
tão coerentes
deveras são
na inerte lembrança
do não-sentido.

O pôr-do-sol
acena calmaria...
ruídos esparsos na
significância apreciada;
Suave é o anoitecer.

Do precipício
ao voo estratosférico,
soma pontos a favor
a terra flutuante
dos singelos prazeres;
nem alto nem baixo.
Lá, cá, tanto faz
apenas contemplo
a harmonia.


Raquel Abrantes

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

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Deitei a cabeça na almofada
e pronunciei alguns pensamentos.

Vi a sombra do lustre no teto,
era restrita e esfumaçada,
sem força para qualquer destaque.

Mas o silêncio me confortava.

Fazia o ambiente flutuar
entre traços oblíquos, borrões,
distorções do presente.

Clareava um pouco essa paz.

Afinal, as cores também falam...

A todo momento
precisamos aguçar algum sentido.


Raquel Abrantes

domingo, 12 de setembro de 2010

zero

as lacunas entram pela veia.
Mas o vazio
traduz-se por um portal
para o incalculável.

o zero
é uma casa vazia
algo reservado para agregar valor

nos consente o prosseguimento da contagem
por necessidade ou escolha, dependendo do dia.

há que o zero não pode ser elevado
a ele mesmo, como expoente,
num problema paradoxal.

expoente zero leva a um
e zero a qualquer número
é nada

Sem solução

o zero segue

etéreo, eterno,
em seu símbolo-corpo
Rumo à origem,
parte da ausência.


Raquel Abrantes

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

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O que sobro
é líquido
revolve
escorre salgado
se espalha
arrisca esboços
lembra o mar
que existe enquanto
coisa em si
fora as atribuições
sentimentais
que nada agregam
a seu significado
enquanto mar
avisto
sobras de escritos
nas areias
mas as ondas
insistem em desmanchar
qualquer reminiscência
na inconstância
contínua
de seu tempo.


Raquel Abrantes

sábado, 4 de setembro de 2010

.

Rugas e tremores da idade
Na beleza do tempo que resistiu à vida
e na insistência de encontrar sentido
nas páginas do jornal
no calor da calçada
no conforto de um chapéu antigo.

Do outro lado da rua
o cigarro queima contemplativo,
e aquela simples imagem
torna o dia simplesmente
sublime
assim como as páginas do jornal
o calor da calçada e o
conforto de algo antigo.


Raquel Abrantes

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

.

escrevo porque nas letras me vejo
nas palavras existo, sendo como sou
eu, eu mesma, apareço
em frases, versos, parágrafos
depende da intensidade da luz
como o sol que nasce todos os dias
mas pode se ocultar atrás de uma nuvem
ou ofuscar o resto do horizonte


Raquel Abrantes