domingo, 24 de outubro de 2010

Vale

Que cheiro pode um vale exalar
se as narinas impregnam o odor
corrente, abafando a cada minuto
os múltiplos aromas ainda por sentir?

Que cheiro pode o vento trazer
de tão longe, sem deixar pelo caminho
as familiares substâncias da fórmula
que a mente recria por um instante

Que cheiro posso eu disseminar
para abalar o ar em mim envolto
abrindo canais para a sensação aromática
entre químicas nunca antes inspiradas

Que cheiro pode o amor reverberar
na sua descontinuidade de efeitos
passando de perfumado a inodoro
como a rosa que encerra seu ato

Aroma que se esvai e leva consigo
as inatas sensações ainda por conhecer
que o marcante cheiro apagou dos ares
no vale onde as fragrâncias se anulam.


Raquel Abrantes

sábado, 25 de setembro de 2010

Vontade

Deixe para lá
a vontade,
ela de nada sabe;
o que tivemos
é o futuro
do que temos.
Passa tudo.
Até a vontade.

Dedos passam
longe da rosa
para que sua textura
passe longe da
epidérmica memória
tal qual lápide futura.

Olhares sobressaem
tão coerentes
deveras são
na inerte lembrança
do não-sentido.

O pôr-do-sol
acena calmaria...
ruídos esparsos na
significância apreciada;
Suave é o anoitecer.

Do precipício
ao voo estratosférico,
soma pontos a favor
a terra flutuante
dos singelos prazeres;
nem alto nem baixo.
Lá, cá, tanto faz
apenas contemplo
a harmonia.


Raquel Abrantes

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

.

Deitei a cabeça na almofada
e pronunciei alguns pensamentos.

Vi a sombra do lustre no teto,
era restrita e esfumaçada,
sem força para qualquer destaque.

Mas o silêncio me confortava.

Fazia o ambiente flutuar
entre traços oblíquos, borrões,
distorções do presente.

Clareava um pouco essa paz.

Afinal, as cores também falam...

A todo momento
precisamos aguçar algum sentido.


Raquel Abrantes

domingo, 12 de setembro de 2010

zero

as lacunas entram pela veia.
Mas o vazio
traduz-se por um portal
para o incalculável.

o zero
é uma casa vazia
algo reservado para agregar valor

nos consente o prosseguimento da contagem
por necessidade ou escolha, dependendo do dia.

há que o zero não pode ser elevado
a ele mesmo, como expoente,
num problema paradoxal.

expoente zero leva a um
e zero a qualquer número
é nada

Sem solução

o zero segue

etéreo, eterno,
em seu símbolo-corpo
Rumo à origem,
parte da ausência.


Raquel Abrantes

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

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O que sobro
é líquido
revolve
escorre salgado
se espalha
arrisca esboços
lembra o mar
que existe enquanto
coisa em si
fora as atribuições
sentimentais
que nada agregam
a seu significado
enquanto mar
avisto
sobras de escritos
nas areias
mas as ondas
insistem em desmanchar
qualquer reminiscência
na inconstância
contínua
de seu tempo.


Raquel Abrantes

sábado, 4 de setembro de 2010

.

Rugas e tremores da idade
Na beleza do tempo que resistiu à vida
e na insistência de encontrar sentido
nas páginas do jornal
no calor da calçada
no conforto de um chapéu antigo.

Do outro lado da rua
o cigarro queima contemplativo,
e aquela simples imagem
torna o dia simplesmente
sublime
assim como as páginas do jornal
o calor da calçada e o
conforto de algo antigo.


Raquel Abrantes

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

.

escrevo porque nas letras me vejo
nas palavras existo, sendo como sou
eu, eu mesma, apareço
em frases, versos, parágrafos
depende da intensidade da luz
como o sol que nasce todos os dias
mas pode se ocultar atrás de uma nuvem
ou ofuscar o resto do horizonte


Raquel Abrantes

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Sem mais nem menos

Assim, sem mais nem menos,
o som dispersou-se sozinho.
Nem uis, nem ais, nada mais.
Cada um seguiu seu caminho.

Assim, sem mais nem menos,
o momento se escondeu
entre gestos antigos, se perdeu,
Evitou o que anoiteceu.

Assim, sem mais nem menos,
Da intimidade restou distância,
Da saudade ficou ânsia,
Do cuidado, inconstância.

Assim, sem mais nem menos,
Sombra virou o que era vivo.
Deixou de arder, sem aviso,
Com você e comigo.

Em linhas não traçadas
Quase planos, quase nada
O silêncio se instalou, sabemos
Assim, sem mais nem menos.


Raquel Abrantes

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Queria eu

Queria eu morrer em toda parte
Desse assassinato mútuo, delirante, cotidiano
Sem pensar que há vida após o tiro
Mirado, definido. Preferido.

Morte da matéria fraca, tentada
a morrer iluminada, a todo momento,
Na cegueira imóvel de um instante,
por gosto a apurado veneno.

Queria eu morrer entre palavras
Acentuadas, insensatas, altivas
De falas arfantes e instigantes
Perante a vontade consumida.

Quantas vezes já nos matamos
Dessa morte repetida, curtida
Esquecendo um no outro a própria vida
Crime em que culpados somos.

Queria eu morrer torturada
Para um instante de realidade infinita
Verdade intensa, derramada,
De uma morte bem matada.

Por que deixar de nos matar, nesta vida,
se vida com vida se renova?
Sobrevivência é um instinto que venera a vida,
e não a boa morte.


Raquel Abrantes

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Cores e Dores

Era toda a dureza das expressões tipicamente masculinas que arranhava a paz de Linda. Fosse apenas por um olhar faminto, daquela fome comum a homens e mulheres que se desejam, e levem peremptoriamente à formação de um casal, depois uma família. As intenções, contudo, eram embuçadas pelas memórias torrenciais da agressividade do homem. A agressividade da cobiça por sua beleza, que remexia suas entranhas cena a cena daquele dia inseparável de sua existência.

Linda dormia com sua camisola de laços cor-de-rosa quando seu tio girou a maçaneta. A luz do corredor gerou estranhamento do sono de uma menina de 12 anos, já entupida de amores cinematográficos, mas ainda confortada pelo urso de pelúcia Geraldo, que velava seus sonhos toda noite. Seus pais viajaram e o tio se ofereceu prontamente para servir de babá pelo período de 15 dias corridos. Linda adorava o tio Fred, que costumava levá-la a passeios, jardins zoológicos, parques de diversões e circos desde sua primeira infância.

Frederico casou-se uma vez, mas estava separado dois anos depois, sem deixar filhos como testemunhas do relacionamento corriqueiro. A beleza da sobrinha o atormentava mais a cada aniversário dela e, na primeira noite de sua guarda, o furor de seus hormônios precisava ser liberado, primeiro por palavras, mais tarde pela consumação física.

Ele sentou ao pé da cama e Linda perguntou o que tinha acontecido. Você está bem, minha Linda? E o seu nome serviu-lhe bem a uma dupla interpretação. O equívoco tormentoso da paixão proibida anunciava-se assim através do nome de batismo. Vim ver como você estava, e suas mãos percorreram para cima e para baixo as pernas da menina, como um tórrido e inocente carinho.

Linda, eu preciso te dizer uma coisa, O que, tio?, O que vou te dizer precisa ficar como um segredo muito bem guardado, só entre nós. Você sabe guardar segredos? Sei, sim. Eu te amo. Eu também te amo, tio. Linda, eu te amo como um homem ama uma mulher, disse o charmoso quarentão, de cabelos pretos e lisos salpicados na testa de acentuadas expressões. Ele coçava o queixo abrindo rastros em sua densa barba enquanto Linda era incapaz de assimilar tal declaração. Suas mãos subiram até a cintura da sobrinha e seus lábios beijaram primeiro sua testa, o que a fez sorrir. As próximas foram as bochechas, então o pescoço, repetidamente e brevemente, e seus dedos iniciaram cócegas por baixo da camisola da menina, que reagiu com sua infantilidade, sem poder imaginar a sucessão dos fatos.

Mas, tio, você é meu tio. Não podemos nos casar. Mas podemos nos amar, minha menina, como os grandes amores dos filmes, amores proibidos e secretos, que precisam resistir de alguma forma às reprovações dos outros. Vou te mostrar como podemos sentir todo esse amor, com muito carinho, boas sensações, prometo que ficará muito feliz... na conversa sedutora de um tio glorificado.

Em sua mão grande e áspera cabia o rosto inteiro de Linda, menina desprotegida, que esperava pelos movimentos seguintes daquela surpresa excitante. Ela nunca havia tido tanta certeza de seus atributos físicos e imaginava ser uma verdadeira mulher.

Seus beijos atingiram a boca da menina e seu membro já não cabia nas calças. As mesmas mãos ásperas afastaram o lençol do corpo bem torneado e abriram lentamente a camisola. A saliva passou por todo o corpo de Linda, que gostava daquela sensação úmida e suave, como um carinho novo, cheio do amor de seu tio admirado, que ela retribuía assustada, experimentando o calor do despertar da sexualidade. Seus pequenos seios à mostra aumentaram a velocidade dos avanços de Fred, arrancando a calcinha de algodão amarela. Toques mais ríspidos e frenéticos até que sua roupa foi parar no chão. Linda iniciou um choro contido, lágrimas abafadas até o lustre de fadas no teto de seu quarto, ao mesmo passo que sua pureza era bruscamente irrompida por alguém a quem ela devia respeito e não cabia contradizer, segundo a educação que seus pais lhe deram, de que os menores obedecem aos mais velhos.


Raquel Abrantes