quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Quero que o mundo gire


Quero que o mundo gire. José adorava brincar com o globo terrestre que ganhou da madrinha de aniversário. Ele rodava a bola, fechava os olhos e apontava o indicador esquerdo, porque é canhoto. Sempre descobria um lugar diferente, um nome estranho, que tornava cada vez mais vasto seu conhecimento de geografia. E no lugar dos livros, o globo se fez professor e brincadeira, na primeira exploração de mundo do menino.

José começou a se fazer outras perguntas, como o que significavam aqueles nomes que as pessoas deram para pedaços de terra boiando no azul. E suas pesquisas virtuais o levaram a outros cantos, outras dimensões, outras formas de vida. Outros nomes que pensavam, sem aquela inércia estampada da representação. O movimento que fazia o mundo girar era causado por uma pessoa: ele. E as pessoas também ganharam sua atenção. Suas peculiaridades e mundos individuais.

Os países já não tinham tanta importância para José, com sua impossibilidade de movimento, de transgressão, de apoio para suas dúvidas. E daí? Não eram nada mais que uma reunião de pessoas. Uma reunião limitada por suas fronteiras, bandeiras, disputas. Mas as pessoas que importavam para José estavam distribuídas por diversos países, o que tornava impossível tomar um partido. E o menino queria fazer o mundo girar... Em sua mente, os países mudavam de lugar, iam e vinham conforme o vento, dando espaço para as personalidades transitarem livremente, até seu encontro, para depois, apenas depois, lembrarem sua nacionalidade. Foi quando ele percebeu que todos os pedaços de terra se misturavam ao girar o globo, e suas diversas cores se tornavam um grande borrão, indefinido, como a natureza do movimento.


Raquel Abrantes