segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Quando o pensamento fica no canto

Hoje recebi um comentário anônimo dizendo que um blog estava copiando os meus textos e assumindo a autoria dos mesmos. Primeiro, fiquei chocada com a falta de vergonha de alguém que publica o meu texto três dias depois de mim. Então, fiquei indignada pela ausência de ética. Mas, no final das contas, eu tive pena. Tive pena desses dois, Thiago e Pingo, que assinavam o blog O Canto do Pensamento, por sua total inabilidade para a escrita. Deixaram o pensamento em algum canto, porque pensar não é para qualquer um, e percorrem a blogosfera atrás de rabiscos sinceros, com algum valor, para substituir suas incompetências existenciais. Aliás, o blog deles deveria se chamar O Canto do Pensamento DOS OUTROS. Eles gostaram tanto da Pura Essência do Ser que esqueceram de “ser”, criando um blog de mera reprodução. Ao descobrir a infração de direitos autorais (denunciada pela própria data de postagem), deixei comentários para os donos do blog e para todos os leitores deles. Cuidado! Você pode estar sendo copiado! Com o protesto de alguns amigos também, os meus três textos foram deletados de lá... E o tal do Pingo chegou a postar um comentário por aqui, pedindo para eu não ficar chateada com o uso dos meus posts, que faria parte do projeto do blog publicar textos de outros. Acredito que a permissão do autor deva ser concedida, assim como o crédito, se fosse realmente o caso.
E aí? Esse post aqui vocês vão reproduzir? Não vão, não... acabaram de deletar o blog...


Raquel Abrantes

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Estranhos passos

Estranhos passos que damos às vezes na vida. Uns nos levam para frente, outros nos fazem voltar atrás... E, às vezes, perdemos a direção. Ficamos parados esperando o sinal abrir, e não conseguimos atravessar, mesmo quando está verde lá no alto. Olhamos o fluxo de carros, os transeuntes seguindo para seus compromissos e nada nos faz andar. Sinto falta das suas risadas. Estranhos passos que às vezes não damos. A ordem para que as pernas avancem não sai de nossos cérebros. É como se déssemos tantas voltas dentro da cabeça que o cansaço fosse transmitido aos músculos, sem terem chegado a se movimentar. Passamos por lojas, pessoas, momentos, supermercados, que cruzam nossos passos, e exercem seu efeito catalisador. Acrescentam, modificam. Mudamos o olhar, a opinião, o gesto, a entonação da voz, a cor do cabelo, o modelo da roupa, a parte lida do jornal, a forma de se divertir. Às vezes, somos levados pelos movimentos do mundo, inexplicáveis translação e rotação do estado das coisas, apesar da impressão de estar sempre no mesmo lugar. Quando algo é muito bom, é muito ruim quando é ruim. Estranhos passos que damos às vezes na vida. Podemos começar a andar sem ao menos perceber, seguindo como os demais transeuntes, em direção aos compromissos. Deixamos de observar o fluxo dos carros e só esperamos o sinal abrir para avançar finalmente. Entre caos e ordem; pano de fundo, este, que nos mantêm girando. Nem que seja dentro da cabeça.


Raquel Abrantes

domingo, 23 de agosto de 2009

Receita

Tentei juntar as letras para criar uma receita nova. Misturei diversos temperos, deixei em fogo brando, dava umas mexidas de vez em quando. Recendia a peixe. Não era o sabor que eu queria. Joguei tudo fora e arrisquei outras palavras. Começou bem, mas o sujeito não se entendia com o objeto. Mudei a ordem de adição dos ingredientes para diluir as adversidades. Mesmo assim, passou do ponto. A fome surgia cada vez maior, sem identificar o que agradaria ao paladar. Talvez algo que venha pronto... Lembro da despensa, que transborda inspiração, me confortando toda vez que as frases ameaçam nunca mais vir para o jantar. O roteiro remete a um namorado ciumento, que reluta, abandona, mas retorna quando menos se espera. Desligo o fogo e me entrego aos saborosos pratos feitos por outros, renomados chefs que, quem sabe um dia, possam me ensinar a cozinhar de verdade.


Raquel Abrantes

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

.

Quando galhos se quebram com o vento da noite, as brisas tornam-se fundamentais ao cenário, acariciando as folhas, metamorfoseando sua dança ao sabor das variadas coreografias. A inércia facilmente se instala, em meio ao turbilhão de conjecturas formadas em algum lugar. Nada de luar para este céu aqui, que aceita apenas o universo. Constelações inauditas de tanta exasperação ao lado da nudez dos astros. Asteróides comemoram levando a notícia aos planetas, sem causar danos à vida local. Apenas como um toque de sorte nesta nova jornada, de cumplicidade através do tempo. Tempo. Os minutos sempre nos traem quando se trata de felicidade.


Raquel Abrantes

domingo, 9 de agosto de 2009

Tons

Camila virou a esquina e um homem quase imaginário parou na porta da loja, olhando para ela. Já era possível admitir a si mesma o merecimento do flerte, consciente que se tornou de seus atributos e classificações, cobiçados por vários homens, mas repudiados pela maioria dos representantes do sexo masculino.

Uma coragem avassaladora a fez ultrapassar o sinal do constrangimento e percorrer a distância entre os dois, iniciando uma conversa naturalmente, como se fossem velhos amigos desde aquele momento. Coisa que Renato desejou no primeiro instante em que avistou Camila, mas ele não tinha chance perante todos os outros homens, assim pensava.

Quando aquela menina, com feições macias e alongadas, chegou perto de seu toque, Renato aceitou a infinidade de trocas oferecidas bem na sua frente, que não passavam despercebidas. Afinal, raros são os bons encontros com as sensações. Na maioria das vezes, as mulheres lhe despertam algo isolado, e, apenas somando umas dez, cada qual com sua vantagem, ficaria satisfeito. Desta vez, havia descoberto o pacote inteiro em uma só.

Camila exaltava a beleza física por seus pensamentos e filosofias, não menos admiráveis, de vivência indispensável. E os contornos ásperos daquele rosto atraente e gentil a fizeram retomar uma disposição adormecida para o desconhecido. Levantou a cortina com o cenho franzido de incertezas, mas convicto de vontade, e deleitou sorrisos entre as diversões de uma longa noite.

Dançaram sem ouvir a música, tampouco podiam acompanhar o ritmo proposto pela banda. Mas se acompanhavam, a cada movimento, da entrada à saída, de uma porta a outra, como se nada mais importasse. Passaram-se muitas horas das risadas e comidas até o voltar para casa (dele).

Tirou a roupa. Camila abriu os canais dos sentidos e sintonizou tentativas. Apesar da desconfiança com relação aos defeitos de um futuro próximo, as qualidades lhe fizeram um convite irrecusável. Os dois deixaram que os poros decidissem a questão. Posteriormente seguida de outras questões, que iam sendo solucionadas na sucessão dos pequenos mistérios desvendados. E, como teria mesmo de ser, naquela conjectura, as sardas dela desmaiaram ao lado das suaves pintas no peito dele, e falaram sobre isso, como se a voz alta inaugurasse um universo de tons entre um e outro.


Raquel Abrantes

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Pele

É algo como se as camadas da pele fossem arrancadas uma a uma, similares a páginas de um livro lido, rompendo o trabalho de encadernação. Origens machucadas e reunidas todas ali, apesar de sua falta de função no contexto. Aquele esqueleto exposto, sujeito a alterações químicas, perde a fala em meio aos ruídos da raspagem, a cada milímetro que a lixa avança tentando corrigir suas imperfeições, sem anestesia. O pó responde pela transformação ou retorno a si mesmo, poderíamos dizer, e se espalha pulverizado, ocupando espaço e perdendo o seu próprio. Entre frestas de luz que se abrem inesperadamente, o ar brilha poluído, denso, ganha corpo, para depois se dispersar gradativamente, na medida em que baixa a poeira... até voltar a ser o que os olhos não conseguem ver.


Raquel Abrantes

sábado, 1 de agosto de 2009

Insônia

As pálpebras simulam relaxar enquanto reagem com impulsos nervosos a qualquer estímulo externo, seja ruído ou iluminação. O ar fica mais denso no ritmo da respiração compassada entre o tempo de sono perdido. E os músculos concentram seus esforços na base do pescoço, gerando a tensão que o sonho tenta eliminar.

As paredes libertam toda a atividade incapaz de descansar, em meio às inquietações que remetem aos afazeres inacabados, obrigações, compromissos, vontades. Mil tentativas de acomodações frustram minhas intenções de adormecer. Os travesseiros revezam a tão desamparada busca pelo conforto, enquanto a noite fala por todos os cantos da casa.

Ver um filme torna-se uma escolha e aquele livro me chama para ser terminado. Cada página que viro rouba muito mais de um minuto, em proporção desigual para com o tempo. O conhecimento perde para os ponteiros do relógio, e continua procrastinando o dencanso físico. As vantagens de uma e de outra opção, dormindo, acordada, cada qual sabe das suas.

Na certeza de que o sono vence a mente em algum momento, as reflexões ocupam a cama adiando o processo, e as possibilidades de distração surgem predestinadas a trazer alegria em um final de domingo. Entre as cenas dos diversos modos temporais, incluindo os projetados, o objetivo mais urgente perde-se progressivamente... até esquecer o próprio nome.

Durante quatro horas apenas, as influências do meio são traduzidas em pinturas surrealistas de um mundo inatingível, como para apaziguar o curto período de inconsciência, necessário ao corpo na reposição das energias. Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um: grita o ímpeto realizador! Agendado sempre na véspera, tarefa de uma das minhas listas.


Raquel Abrantes