sábado, 27 de junho de 2009

A rua


Um dia normal de trabalho continuava na minha semana. Era quase a hora do almoço e, enquanto imaginava o que haveria no cardápio, verificava as desordenações da minha caixa de e-mails. Entre um spam e outro, bocejos me irrompiam até o esticar dos braços. Simples movimento com alto teor de liberdade incorporado. Às vezes precisamos intercalar ilusões às necessidades da vida.

Contava tempos sem ver o dono daquela voz... e as perspectivas de reencontro viravam a esquina na minha memória, fazendo um desvio na contramão. Imediatamente meu rosto denunciou as marcas de expressão causadas pelo sorriso. Lembrei de nunca ter considerado as minúcias das ruas paralelas à minha e aqueles crassos e-mails remetiam às vias transversais do meu passado, tencionadas a interditar a passagem.

Depois do inesperado chamado, os bocejos descansaram e a disposição assumiu a agenda, seguindo o calor da calçada. A fome de luz não seria suprida pelo cardápio, mas o estômago precisa de algo para digerir. É como uma mente vazia: devemos abastecer com opções positivas, ou as negativas se manifestam. Alimentada, passei o restante do dia mirando a satisfação a cada piscar.

Estava marcado para as nove e cheguei inaugurando novos acessos. Somente por ter observado detalhadamente minha rua desde a última vez. Habituei-me à personalidade do asfalto, contemplei os desenhos formados pelas pedras portuguesas, aceitei as descontinuidades na tinta da faixa de pedestres. Construí um quebra-molas e atravessei.


Raquel Abrantes

domingo, 21 de junho de 2009

Três segundos



Um vento gélido transpassa minha pele, enquanto me detenho ao fato testemunhado. Como se no decorrer de três segundos, a vida perdesse o sentido, ou ganhasse. Prévios instantes nos quais pensava eu no olhar vindo daquela direção, se era insolente tentando ganhar espaço em meus devaneios, e me aturdiu, até mesmo me fez cogitar a hipótese de olhar de volta. Isso logo depois de ter encarado meus desafios em relação à fragilidade do meu corpo, em contraste aos sonhos que a imaginação pintou com todas as cores possíveis, não seja esta a questão.

De onde vinha aquele medo... não sei exatamente. Sei que me senti desprovida de apoio, além do chão em que equilibrava minhas pernas. Nada podia evitar o tão súbito encerramento do meu capítulo. Tentamos sempre iludir o inevitável, mas eu não tinha esta pretensão. Apenas delineava que não poderia ter sido só isso. Na verdade, poderia, e esta possibilidade corroia minhas possibilidades. Uma a uma.

Em tão curto intervalo, lembrei de um milhão de fotografias ainda por tirar, visualizei todas as etapas por vir do crescimento do meu filho, visitei os lugares ignorados, li os livros por comprar e tentei absorver o máximo de um futuro vacilante. Ao mesmo tempo, a angústia me transtornava, por tudo isso aí relacionado. Tirava minhas perspectivas de momentos vislumbrados, meu motivo para querer continuar vivendo. É impressionante como a vida ganha sentido quando evidencia sua própria falta de sentido.

Sobre aquele olhar, ao qual fui extremamente displicente, em todo o egoísmo de meus temores, e dele ainda extraí falsa impressão, apesar de tão absorto quanto sua alma. O olhar já não estava mais em meus pensamentos quando o corpo caiu, dentro daquele cubículo de oscilação vertical. Retornei à cena ao ouvir, Que isso, que isso, E ainda levei cerca de três segundos para entender o que acontecia. Acho que não queria acreditar.

O homem caiu. Por cima de duas mulheres no elevador, de frente para mim. Ele era novo, quem sabe um pouco mais de 30 anos de idade. Começando a vida. Ele caiu. No elevador, que porventura estaria vazio. O espelho estava lá também para receber sua cabeça, com estilhaços previsíveis noutro contexto. Poderia ser enquanto atravessava a rua em meio aos carros. Um sinal, uma esquina, um ônibus para pegar... automatizados seguimos sem nos importar com o que está a nossa volta. 

Já naquele ambiente, o tempo parou. A imagem congelou durante o passar de três segundos. Na verdade, devem ter sido uns nove segundos. Mas foram três bem determinados para cada vez, ligados por outros segundos sem muitos detalhes para narrar. Afinal, a realidade disputava território com meus pormenores. Podemos dizer que ali eram por-menores.

Sei que o olhar não mais existia. Eu o procurava, mas não aparecia. Talvez isso tenha me deixado inerte. O olhar que não estava mais lá. Apenas um corpo caído no chão, maleável como um boneco de pano, nenhum resquício daquele homem que parecia poder conquistar o mundo em realizações segundos antes. Agora dependia de alguém apertar um botão para se movimentar no universo. Para cima ou para baixo.


Raquel Abrantes

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Labirinto


Como a costura de uma meia-calça de antigamente, vai do calcanhar até as nádegas. E das nádegas até o calcanhar. Olhar vertical insinua o desvio da direção já traçada entre as rotas do dia e da noite. A percepção alcança a intensidade supérflua do relance, mas os olhos insistem em retornar, abertos por tremores enfeitiçados. Tenacidade de uma cintura cingida em carmim de outras terras. Lufadas traiçoeiras ameaçam levantar o vestido da razão, dando margem à imaginação das coxas insanamente vermelhas de tecido. Os conúbios mistos disfarçam sua reza, enquanto gravetos são atirados na lareira do ascetismo. Labirinto de emoções empareda a saída pela esquerda, trilha das desrazões, justificadas em um longo decote ocultado. A atração desenfreada entre o positivo e o negativo, o bom e o ruim, o branco e o preto. Sendo o branco a reunião de todas as cores do espectro, e o preto, a ausência de luz. Uma linha tênue divide o horizonte entre o real e o reflexo, como num espelho d’água. Intenções que decepam a cabeça da harmonia, acendem as fogueiras da inquisição. Pisoteio no largar toda a frivolidade da beleza, para exprimir da uva o vinho essencialmente encorpado, de múltiplos sabores, da madeira ao floral. Abro o caderno das anotações precursoras do hoje, para escrever as páginas do amanhã.


Raquel Abrantes

domingo, 14 de junho de 2009

Insensibilidade


Visão aérea de infrutíferos campos compelidos ao reinante descaso em toda a sua impessoalidade. Acrobacias inúteis no perímetro do horizonte passam despercebidas no transcorrer de hábitos inertes. Costumes insensatos trancafiavam o vírus do sentimento, nunca antes contagiado. Em sua mais pura inutilidade, o ar raro efeito tem sobre a consciência da respiração. Diafragma dilatado e contraído em movimentos involuntários. Como o pôr-do-sol. Quereres enigmáticos divagam aleatoriamente no oceano de teorias desintegradas. Da cruz retiro a dor, que tampouco tangencia os sentidos encobertos pela capa da alma, vestimenta rudimentar criada pelos alfaiates da resignação, nos moldes das grades carcerárias das emoções. Soslaios se revezam entre o esquerdo e o direito, atrás e adiante, norte e sul, sem bússola para consultar. Imaginando uma rota de fuga do inóspito reino da insensibilidade. Abstrações tornam-se o último refúgio da sanidade, ao lado da insistente neurose disseminada. Indiferente a possibilidades, cercada pelo vazio da exaltação ao duvidoso, cera derretida escorreu do lume originando sinais de vida, picos na pulsação, pontos altos que deslizaram pelas covas de um sorriso denunciador. Eventuais flechas lançadas para delimitar espaços dimensionais. Guardiã do inefável, rabisquei trilhas no mapa transcendente de mim mesma, seguindo o rastro dos instintos abissais. Sobrepujei as maquetes da imposição, tramei escavações soturnas, como um inocente condenado à pena de morte. Estradas e cruzamentos descortinaram progressivamente em meio à paisagem, desobstruindo veredas pulsionais em avalanches avassaladoras de empirismo. O sol amanheceu em sensações, sereno como a noite seguinte, devastador como a próxima, até o precipício das vozes ecoadas nas vidraças do existir.


Raquel Abrantes

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Acabamento


Leu em mim toda a história não-narrada, nas figuras imersas em porvir. Desde o será até onde teria ido, acaso as nuvens transpassassem o azul do remoto céu. Alheio a contrastes no cetim, juntou as pontas do tecido bordado (em autoconhecimento). Colcha de retalhos formadores de instigante complexidade. Na beira, foi trazendo consigo todas as alegrias adormecidas nesta cama, pouco a pouco, sem a velocidade do que ignora o horizonte. E entre desenhos e enlevos, pintou sua forma, guardada em algum canto de satisfatórias recordações. Embevecido de indescritível colorido, o tecido experimentou outros tons, degradês crescentes de euforia, ladeando o belo acabamento de uma junção reformulada dia após dia...


Raquel Abrantes

sábado, 6 de junho de 2009

Inverno

Olhar vertiginoso cruza minhas esquinas toda vez que a natureza permeia possibilidades. Propostas moradoras de outros países, delimitados pelos espinhos das flores concedidas no efêmero toque de recolher. Alinhavo meus poréns nas suas dúvidas e teço nesta lã o inverno que virá me visitar sozinho, trazendo arrepios pelos quais me aventurei despretensiosamente, na esperança de acertar. Deserto de razões me espreita, curioso atrás da montanha, e vou leve, fugaz, como nunca tivesse estado lá. Calem-se as buzinas enquanto o silêncio predomina a paz que precisa acontecer. Alerto o mar para me receber, inteira, calma, cortante como a luz opaca. Vívida rasgo, vergo e ilumino... o além-de-mim-perceber.


Raquel Abrantes