sábado, 30 de maio de 2009

Não foi tão bom assim



Não foi tão bom assim, ele disse, apenas abri a porta que estava na frente, sem a outra fechar. Criei um canal entre minhas vontades, desconsiderei as chaves diferentes que deveria usar. Deixei o vento invadir a passagem, fazendo a porta bater, esconder o que queria olhar. O peso do chaveiro rasgou meu bolso e quase fiquei sem portas para entrar. As viagens imaginadas para algum destino foram trancadas do outro lado, junto ao menino que não pude conhecer, nem tive chance de brincar. Tudo tem seu momento, umas coisas mais, outras, menos tempo, depende do acordo e se aguento a carga que devo carregar. Todavia não consigo disfarçar meu contentamento assim que você esbanja alegria em seu modo de andar. Faz parte da natureza masculina, não posso evitar. Não foi tão bom assim... mas apareça quando puder... E sua inspiração, como está? A editora voltou a te procurar? Estou chegando lá, começo a escrever já, já, você vai ver, se a porta entreaberta ficar... Sabe que te respeito, só não levo jeito pra essa coisa de me humilhar. Deixo o tempo assumir o rumo dos pensamentos que preciso sublimar...


Raquel Abrantes

terça-feira, 26 de maio de 2009

Ninguém ligou


No dia seguinte, ninguém ligou. Quando fiquei mais velho sozinho no meu canto, apesar de ver claramente a cruzada de pernas no sofá, acendi o cigarro, da marca que ela fumava, e deixei queimar no cinzeiro, para ver se o cheiro do perfume surgia junto no ar. Fui dormir e deitei do meu lado, o esquerdo, e do outro coloquei o travesseiro para ter o que abraçar. Jogava as pernas por cima, eu costumava envolver o corpo dela antes de desmaiar. Tentei pensar no trabalho, mas sonhei com o vermelho do vestido... sem o corpo que mexia comigo. Como pude esquecer aquela data, hoje lembro de todas, incluindo as que criamos para comemorar. Ligava a televisão e ela, o som, disputávamos o ambiente, por nossos gostos diferentes, agora a tevê virou apoio do retrato que não paro de olhar. Cada vez é mais difícil o suplício de aceitar a lâmpada que fiquei de trocar, a parede que deixei de pintar. Sorria todos os dias pela manhã... e não pude acreditar. Ninguém ligou no dia seguinte.


Raquel Abrantes

sábado, 23 de maio de 2009

Padrão

Através do espelho, Fabiana exteriorizava sua insatisfação permanente com a realidade. A sobrancelha era torta, assim como as imperfeições de seu rosto, e os cabelos brancos saltavam da franja que tentava disfarçar o passar dos anos. Reservados momentos de agonia na tentativa de aprimorar as naturais irregularidades, comuns aos seres humanos.

No ventre daquela mulher, oco de vida, jazia a infelicidade prometida por sua angústia de existir. Cada contorno do corpo denunciava a ansiedade de sua fome desmedida, ao mesmo tempo em que as roupas eram rigorosamente passadas, em seu padrão quase perfeito de aparência.

Mas ela sabia que ainda podia melhorar. E, por mais que seus microscópicos incômodos escapassem às vistas dos outros, o contentamento estava longe. O banho servia para apaziguar o tormento, enquanto a mente continuava operando incessantemente para que nada fugisse ao controle de sua vontade.

A toalha dobrada no canto esquerdo da parede lembrava um anúncio de hotel e os chinelos, simetricamente posicionados logo abaixo, encerravam o ritual de sua saída do chuveiro. Tudo da mesma cor, como para estabelecer o equilíbrio que ela tanto procurava.

O marido de Fabiana sempre a aguardava na cama, com a terrível mania de enrolar o lençol entre as pernas. Coisa que ela detestava. Ia amassar e ficava tão desagradável aos olhos... Ela precisava reclamar toda noite para que o cenário fosse digno de um filme de Hollywood.

Até que o filhote de labrador corria em sua direção e a alegria iluminava sua face por alguns minutos, antes de limpar as patas e o traseiro do cão, que não podia ficar sem perfume. Os pêlos eram escovados diariamente, cem vezes para um lado, cem vezes para o outro, antes de se deitar.

Era uma vida quase perfeita. Ela se esforçava para isso. Seu marido era um bom homem, que entendia a dedicação daquela mulher, determinada em ser a melhor esposa que alguém pudesse ter, a mais vaidosa, a mais caprichosa, a mais bem-sucedida, a mais inteligente e a mais exigente.

As pernas do casal se cruzavam embaixo dos lençóis, como as de qualquer outro no meio da noite, ensaiando o início do descanso merecido após um dia de trabalho. Ele se aproximava ansioso pelo carinho lento e progressivo de seus lábios, invadindo o espaço oposto ao seu, sem pedir licença, na busca do prazer que o fazia continuar. Fabiana abafava as palavras no sentido da euforia, resumindo o assunto para que conversa fosse rápida.

Afinal, no dia seguinte era preciso acordar cedo para preparar a mesa do café da manhã, escolher a roupa do marido, arrumar a cama, e levar a vida da maneira mais organizada possível. Limpa e combinando. Ele admirava aquela dedicação e sabia que não era fácil encontrar uma esposa assim, tão esforçada. Além do que, filhos podiam ser adotados... mas, de qualquer forma, davam muito trabalho para limpar, arrumar, padronizar...


Raquel Abrantes

sábado, 16 de maio de 2009

.

Saudade do que
não lembro mais
sonhei perder
esqueci conquistar
A vida não vivida
vivências mal-ditas
Quase sórdido
tempo fluído
estampado
na marca de batom
que o vermelho deixou
temporariamente
em sua lembrança.


Raquel Abrantes

sábado, 9 de maio de 2009

Desassossego

Engasgado com pílulas de nervosismo, Jonas recorre a goles de alegria nos momentos anteriores à comemoração. Tem a visão do churrasco... com amigos, companhia feminina e pessoas que ocupariam cadeiras no evento. O que não importava esquecia facilmente. (Não importava?)

Na comemoração dos vinte e cinco anos, um quarto de século ocupando a vida não encobria o fato de conseguir destaque por seu metro e noventa de altura. Aliava uma presença descontraída e atraente à gangorra de suas atitudes.

A roupa que ia colocar seria a primeira que suas mãos alcançassem. Nem mesmo o conforto tinha vez na impossibilidade de escolha. Cedo, seus olhos já denunciavam a irritação concedida pela abstração química. E sua mente dividia espaço com seu corpo entre os amigos, em duas dimensões que se cruzavam, metamorfoseavam seu estado de espírito.

Letícia chega como o estardalhaço de fogos de artifício na cabeça dos convidados. As pessoas mais próximas ao aniversariante se entreolhavam, um tanto constrangidas, estupefatas com as exaltações daquela estranha íntima.

Já habitando a estratosfera com a fermentação alcoólica, Jonas ri se esquivando das palavras nada intencionais de sua parte. Sua dissimulação sustenta a autoconfiança na qual precisa se apoiar – alça a si mesmo em sua capacidade de representação.

Ele não precisa dela. Aquela mulher que invade seus sonhos como um cometa, mudando a ordem temporal dos acontecimentos. Que adentra seus pensamentos, apesar de ébrio e longe do cadafalso.

Nem tanto, eu não estou pensando nela. Eu vivo a história, posso contar de forma bem mais eficiente. Mal posso acreditar nisso... Vanessa me ligando. (Logo agora, que assumi a narrativa!) Como poderia dizer algo, sem dizer o que não posso? Não posso.

(...)

Certa insatisfação aterrissa apaziguando a empolgação de Jonas. Apesar dos inúmeros bem-sucedidos términos e abandonos, este era o menos motivacional. Enquanto sua visão percorria o corpo de Letícia, ela tentava se infiltrar como uma espiã em seus devaneios. Ele a conduz discretamente para fora da casa, encostando-a em um carro que se banhava na lua cheia.

No melhor dos cenários, as gravuras se desfaziam. Escorriam manchando o chão para o qual Jonas olhava em busca da harmonia roubada pelo céu. As estrelas deixaram rastro no caminho até sua nostalgia e o passado já demais tardava.

O encerramento do churrasco no meio da noite (e meia) leva Jonas a se desvencilhar do primeiro encontro marcado, que evaporava ao infinito de possibilidades. A fascinação pelo o que eleva sua graça, ao mesmo tempo intriga suas expressões, num paradoxo inevitável. Por não querer há tempo demais, queria muito agora.

Aquela voz... determinante e determinada, em seus critérios e desprezos. Na obscuridade de sua alma, entre a pele e a carne, ali morava. Onde justa posicionava o perigo. Aquela voz frisada, partida, do desassossego aos sentidos.

Vanessa, posso pegar minhas coisas?


Raquel Abrantes

domingo, 3 de maio de 2009

Quais seriam as palavras?

Entrei distraidamente naquela visão. O som e as cores de uma respiração agitada, mal-humorada, arrancaram meu ar abruptamente. Exercendo papel de destaque perante o resto dos mortais, ela esbanjava a certeza de não ser enganada, na simplicidade e na juventude de movimentos determinados. Detinha conscientemente o poder sobre quem a olhasse.

A carta continuou em minhas mãos trêmulas e a silhueta me encarava desdenhosamente... até mover o rosto, consentindo minha participação no futebol de mesa. Me aproximei imediatamente. Honrado estava ali em pé, enquanto a rapidez dos braços dela no jogo incitavam... Incitavam a abertura refletora entre duas ondas perfeitas. A inocente maldade de esconder a bola entre os lábios... e depois atirá-la, liberando desprezo. Traduzia a benção da qual precisava para minha absolvição.

Virou-se e seguiu em direção ao bar sem desviar a atenção concedida a seus deveres. Segurava com firmeza os copos atingidos pela correnteza da água da bica. Fui incapaz de emitir qualquer ruído. Sentei de frente para ela e me mantive contemplativo. Ela não pôde traçar o prognóstico de mais um, dentre os muitos que já devem ter abusado de sua simpatia.

Perguntei seu nome. Foi a nossa primeira conversa. Mas a garantia do diálogo será um poema capaz de descrever a doença que ela me transmitiu em apenas dez minutos, e da qual não quero me curar jamais. Sim! Estou dentro de seus cabelos enquanto pronuncio as palavras penetrantes em seu coração; mas quais seriam as palavras?


Raquel Abrantes

(inspirado em O Carteiro e o Poeta)
.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Chuva



Começou a chover em nossos pensamentos de procurar abrigo. As gotas no vidro olhavam pra mim abstraindo a graça do verão. Do brilho que fazia tudo rir, estava cinza e opaco entre nossos lugares... que não se encontravam. A rua era a mesma, apesar da mudança da estação, e não resistimos ir em direção ao reconhecido. O guarda-chuva cobria parcialmente nossos corpos, que mantinham certa distância (recomendada) em meio ao frio que tentávamos enganar com o suor do reencontro. Nas suas palavras, minhas expressões acalmavam, incentivando a beleza que sua vontade inspira (calada). E na transparência dos seus olhos me despia, encoberta pelo medo, incerto do momento. A troca de mãos sobre a haste que nos protegia permitia o mínimo contato, velado e contagioso. O quanto já sabemos da vicissitude dos fatos me queria mais que a você e, alerta, me propus a ir embora. Você deixou que me partisse, inaudita de conhecimento e imune de sentimentos que não pude perceber.


Raquel Abrantes