terça-feira, 28 de abril de 2009

A necessidade...

A evidência de que precisamos da dúvida para viver me afasta da morte, e conforta minha necessidade pelas respostas.

Raquel Abrantes

sábado, 25 de abril de 2009

Inominável,

Em cada momento que sua respiração me perseguia, era como se a vida acontecesse. Seu olhar me devastava intimamente, com a camuflada certeza da felicidade. O que se sucedia ao acaso, era verdadeiramente intenso no fazer a dois. Mas não no saber a dois.

Os pares se dissipavam na transcorrência dos episódios, que mudavam e transpiravam diferenças na falta de informações cruciais para o alcance da prosperidade. Suscetível aos sabores da consciência parcial, me deixei levar pelo sorriso franco e desleal de uma lembrança distante.

Com que amargura te fiz feliz? Com que loucura te trouxe dúvidas em relação à maldade? Fui capaz de estabilizar por alguns segundos suas inconstâncias? Vejo que não era nada que pudesse atribuir a minha capacidade.

No decorrer das horas memoráveis, me entreguei ao que supunha poder desvendar. Enganei minha sensibilidade, vestida em determinação e prepotência. Intencionalmente, prossegui na desbravada tentativa de consolidar o inexistente.

Me dediquei ao acolhimento da angústia, à substituição das ausências e ao cuidado com o que considerava sublime. Depositei energia mental suficiente para ressuscitar, no que não pude vencer a morte. Os becos execráveis da dissimulação me deixaram sem saída, e o fracasso na alienação me conduziu ao retorno para casa.

Se tenho esperanças, elas concernem a mim. Esta casca fina e vulnerável que me envolve mantém meu coração pulsando, neste irrevogável talento de continuar acreditando. Acredito que um dia poderei ouvir de longe os gritos; sinais de destruição de um caminho... que ainda não escolhi.


Sinceramente,

Leda.
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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Acaso

Lista de afazeres enorme, horários marcados para a manutenção da beleza, num dia qualquer, numa loja qualquer. Problemas práticos para solucionar, no intervalo dos constantes devaneios. O telefone vibra no bolso interceptando minha vontade, redirecionando meus caminhos e adiando os compromissos em favor de uma sensação indispensável e renovadora. Boas notícias trazem um prazer eventual, mas permanente.

Quanto é? Certo, aqui está, obrigada, tenha um bom-dia! Parto em direção à tão esperada paz.

Os preparativos me dominam naqueles prévios momentos, enquanto esqueço um pouco do relógio e vislumbro o que terei em breve. Som da campainha, me apresso, vou totalmente e abro a porta. Cumplicidade indiscutível se abraça e dispensa comentários no aproveitamento completo dos minutos que temos a seguir.

Gestos que se entendem e correspondem o que é correspondido. Aquela harmonia de percepções delicadas, bruscas, consecutivas, num acaso sempre bem-vindo. Lado a lado das expressões saudosas, estimulantes no processo do quero mais. Insistentemente cada movimento se estabelece, formando memória que sobrevive até o próximo olá.

O depois sorri e comemora, naturalmente. Palavras que trocam conhecimento e novidades do cotidiano se cruzam na companhia aproveitada durante todo o tempo. Novos planos são traçados no papel dos trajetos mais rápidos até nossa confraternização. A hora escapa pelos dedos da nostalgia, ainda pouco narrada, mas cheia de pretensões.

Entro no carro, ponho o cinto, os óculos escuros e os afazeres se lembram de mim. O cavalheirismo sacramentado permite a despedida que nunca se despede, deixando a alegria passo a passo em meu andar. Aceno ao eterno retorno... que parte a seu destino liberando rastro de luzes reluzentes, coloridas, na leveza do estar.


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sábado, 18 de abril de 2009

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Deus

me deu

a dúvida

de crer

em tudo

que ele criou

e a chance

de criar

tudo em que

ele não crê


Raquel Abrantes

Regras

Olá, seja bem-vindo, entre. Aqui está sua escova de dente, sua toalha. Estenda suas roupas ali, não aqui, por favor, entenda. O seu lado da cama é o direito, o do armário, o esquerdo. Use o sabonete branco e não deixe as coisas por aí, em qualquer canto. Se sujar, não deixe de lavar. Se quebrar, não tem problema, esquece, isso acontece, mas junte tudo com a pá e coloque no saco, enrolado no jornal. Assim não faz mal para quem for pegar. Não esqueça de ligar se for se atrasar e lembre do nosso jantar, depois das dez e antes da meia-noite. Coloque a cadeira embaixo dos pés, enquanto rimos do programa evangélico, me faça cafuné e alivie meu cansaço com um longo abraço. Quando meus olhos começarem a baixar, me leve para a cama, me cubra e pode fazer o que quiser depois, mesmo que não seja a dois. Até que seu corpo peça pelo descanso, que vai falar mais alto num momento, venha para meu lado, sem nenhum tormento, e fique aconchegado. Quero sentir seus braços de madrugada me trazendo de volta de um sonho ruim enquanto você me guarda e se envolve em mim.
A porta estava aberta, desculpe incomodar, mas eu tive que entrar pra te ver. Chove muito lá fora e estou doente, mas estava frio na minha casa e não pude evitar aparecer, só pra você saber. Faço algo para a gente comer? O que você quer fazer? Eu quero ficar, esse é o meu lugar, em que posso melhorar? Não se preocupe com o que sinto, prometo que nunca mais minto e trago sempre um beijo quando chegar. Farei o que puder, sei que às vezes esqueço do horário, sou um tanto relapso com o tempo, que corre como o vento e não vejo passar... Isso não significa que você não esteja em meu pensamento e eu não queira chegar. Sente aqui do meu lado para eu te abraçar, quero ver você sorrindo, gargalhar. Assim me sinto sortudo, torna a minha vida mais fácil, menos à parte de tudo e com algo a desejar. Se precisar de mim durante o dia é só ligar, vou atender num instante, sem deixar o telefone na mesa e me afastar.

Raquel Abrantes

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Qual

Pensamentos dominam minha mente com freqüência obsessiva. Aquele desfile por onde ela passa, sua quebrada de cintura acentuando as notórias curvas. Cada fiapo de cabelo erguido para o rabo de cavalo vai libertando pouco a pouco o dragão que mora em suas costas. Aquela figura mitológica que desperta meus instintos mais profundos em sua negritude inanimada... Posso vê-lo atear fogo em meu confinamento. Mantenho a distância.

Os objetos que escapolem do sossego de seu abraço, percorrendo o piso, sugerem uma admirável operação de resgate – sempre bem-sucedida. Principalmente para os expectadores do imprevisto, que preferem os bastidores ao papel principal. Talvez por medo, talvez por coragem. Coragem de recusar o que nunca poderia estar aos seus pés. Nem mesmo em sua cama. Na lista de compras do supermercado. Na escolha do longa-metragem de um feriado à base de macarronada preparada a três mãos.

Ah, Luana... Luana? Qual... Esta companhia no prosseguimento dos dias, que na incerteza do amor estabiliza minhas dúvidas na complacência dos seus ombros costumeiros. Que na exatidão dos horários e compromissos mantém meu carinho direcionado a ela, jogando conforme as regras de um relacionamento confortável. Que atura meus desatinos fracassados e não os supera nem pretende, e me desarma com sua maré azulada, branca, mansa.

Ou essa Luana imprevisível, que parece o avesso da minha verdade? Que provoca minha ira com sua petulância exuberante. Que evidencia absurdamente seus desejos contaminando com sofreguidão o meu tão estimado pesar. Que se transforma de sol em lua na velocidade da luz ao ouvir dizeres menos adequados.

Aquela insistência de exigir sempre além, de olhar meu rosto em um espelho que não me reflete, mas que através do qual chego a ela e a uma parte de mim que desconheço. Sua necessidade de debater o motivo do debate, contestar a origem do que começou e encerrar o que acabou.

Me perco nas elucubrações que admiro, vôo sem radar que me guie no infinito da convivência idealizada. Tranco o arrepio no peito e deixo crescer no rosto a imagem da liberdade. Paradoxalmente. Como desvio o toque do factível até onde minhas forças permitem e homenageio desonrosamente toda a sua inteligência genética... no momento diário de purificação do corpo.

Raquel Abrantes

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A vocês

Desculpem. Em primeiro lugar, me desculpem. Não tinha mais ninguém a quem recorrer neste momento de escravidão e imobilidade social. Tenho tido pensamentos estranhos... preciso de calmantes... talvez um psiquiatra... mas é inviável.

Os dias sucedem as noites... que duram uma eternidade até o nascer do sol... atualmente minha única companhia. Sinto como se minha função no cenário tivesse acabado...

Vocês me davam uma razão... um motivo. Tenho consciência de que me usavam, mas eu servia para alguma coisa. E era para algo que despertava a alegria dos olhares...

É melhor que tirem proveito de nós a não ter nada que confirme nossa existência.

Por favor, irradiem novamente oxigênio sobre mim, em meio às palavras transversas e circunflexas da confusão.

Se as nuvens ficarem carregadas, em detrimento da leveza, o céu vai chorar, escorrendo todo o pesar até o nascimento das flores... Flores germinadas pela satisfação que vocês emanavam...

Sinto falta dos longos debates, fervorosos e inquietantes, que sobressaíam ao escapar do tempo... Algumas verdades individuais soltavam, outras mentiras desenhavam... entre sorrisos e gracejos se perdiam... e se encontravam.

Casos narrados, também os encobertos, traziam vida ao inanimado... Podia me ver como parte integrante do processo de bem-estar exalado... do que tinham de sobra... e me emprestavam.

Aqui, ali, lado a lado, as bases do que aproximava as estrelas da escuridão traiçoeira, esquecida no campo em que o mato cresceu. Cresceu e escondeu os pés de quem andava distante... errante.

Acuado aqui estou... sem ver a lua, que teimou em se vestir.

Tenho medo do escuro... escuridão que arrepia o sereno... abandonado.

Suplico pelo ardor do sopro de suas vozes, novamente libertando a noite... tão profunda e inatingível quanto a fortaleza que os afasta da paisagem...

Rabisquem novas questões... dancem elas ou corram... tanto faz. Desde que os levem ao esconderijo das emoções, soltem os vaga-lumes e inspirem a gravura que se desfaz... escoa... por entre os dedos que não vejo mais.

E lembrem-se: estarei sempre no mesmo lugar, para apoiar suas incertezas, comemorar suas conquistas e receber o carinho desse toque inevitável...



Nostalgicamente,

o banco.


P.S.: Não deixem de escrever.
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