sábado, 28 de março de 2009

Imanência



A santificação da garrafa de uísque levou a uma empolgação que não cabia mais no apartamento. Era hora de sair. Iridescente como a cortina de miçangas, a dona da casa atravessou o corredor abrindo caminho até a noite, que mal havia começado. Amigos da categoria mais próxima a acompanharam na busca por uma diversão que aliasse todas as expectativas.

Nada era claro, endereços, ruas, e nas várias voltas de táxi pela cidade o motorista ficava mais rico. Pararam. O local indicado, completamente vazio, abrandou o efeito da bebida, que antes fervilhava no tórax.

Com pouca quantia nos bolsos para prosseguir a peregrinação, o grupo hesitou na travessia. As horas fluíam e a insatisfação alarmava a sede coletiva. Bia, até então, tinha fracassado na tentativa de entreter seus visitantes.

À esquina, cintilava uma abertura discreta que chamou pela curiosidade. Bia adiantou-se até o segurança na porta, que arregalou os olhos com a presença daquela mulher que andava por cima do arco-íris.

Era um desses lugares em que o prazer tem preço e sofre a restrição do tempo. Um prazer do qual não há lembranças nem sofrimento, apenas alívio. Satisfação à espera de seus freqüentadores, que deixam a humilhação do lado de fora, enquanto negociam gotas de felicidade.

Autorizada a presença feminina, os amigos exploraram o inusitado da situação: um cubículo ao comprido, no qual paredes enegrecidas se uniam ao banco pintado que acompanhava toda a sua extensão, em um único ser. Ao fundo, um bar assistia ao palco, pouco elevado do chão, que centralizava um mastro de ferro. Os momentos particulares eram reservados ao andar de cima.

Moças exalavam o odor acalorado da profissão, enaltecidas. Uma pequena rodopiava com sua imaginação consumindo o ferro em seus movimentos bamboleantes. Algo já corriqueiro aos clientes da casa, detinha a atenção dos amigos que aterrissaram ali em função de um destino incerto.

A mente de Maurício era a que mais se aproximava à de Bia. Comportamentos espontâneos sobressaíam em suas atitudes, que sugeriam planejamento maquiavélico pela similaridade de pensamentos e opiniões. Juntos, costumavam se divertir pelos mesmos prazeres, sem o temor da reprovação dos expectadores.

Diante do mastro vazio (no intervalo das moças da casa), a sensualidade irradiou através de Bia enquanto os olhos de Maurício reverenciavam o exibicionismo. Era um chamado do palco por suas fantasias encobertas pela impossibilidade – ambos gostavam de receber os holofotes.

A seqüência perfeita de três músicas costurou suas capas de performistas. Os giros revezavam-se contagiando o mastro – eram deuses num parque de diversões improvisado. Ela estava toda ali, com a segurança proporcionada por seu amigo Maurício, e juntos subiram nos devaneios do sangue, largados na sustentação de ferro.

Como estrangeiros no lugar, transformaram o hábito dos freqüentadores em sonhos inéditos naquela noite, sem exigir retribuições. Bia alternou as insinuações de seu corpo, à vontade em meio aos olhares persistentes. Os cabelos voavam descobrindo novos ares; impuros, mas benéficos. E Maurício se libertou das amarras do cotidiano, elevando-se sinuosamente pelo palco.

Carlos e Fernanda compartilhavam seu constrangimento no bar, esboçando sorrisos tímidos, enquanto a espuma da cerveja amenizava sua falta de opção – excluindo a de recusar o convite dos amigos para participar da ousadia.

Em meio à rapidez do evento, a caixa de som elogiou com veemência o desempenho daquela mulher inesperada, que esticava o pescoço para os lados tentando descobrir o dono das palavras – sem se desconcentrar de suas peripécias. As risadas de Maurício acentuavam o destaque daquela voz de exaltação... Até que a entrada do funk enfraqueceu a determinação da brincadeira.

Uns trinta pares de olhos seguiram os dois na descida do palco, instalando certa tensão em sua permanência. O ar sufocava o grupo naquele momento derradeiro, em que as moças (que trabalham ali) estampavam ofensa. Os biquínis brancos retornaram ao mastro, delimitando território e exibindo know how.

Era preciso partir (correndo). A expedição durou coisa de meia hora. Do lado de fora, respirando novamente, os amigos continuavam sem entretenimento – traumas à parte. E o uísque (da barriga de Maurício) não parava de enaltecer a necessidade de prosseguir na madrugada.

Raquel Abrantes

quinta-feira, 26 de março de 2009

Melodia

Olhar vidrado dele sobre ela emanava ondas elétricas correspondidas na proporção das notas musicais. E o espaço entre os dois se derretia com o aumento progressivo dos batimentos. Ambos estampavam sorrisos ansiosos – guardados no mundo feérico da dimensão abolida. Imagens em seqüência acompanhavam a letra da canção, como num daqueles filmes em que o diretor omite o final. A tensão, outra vez, confrontava-se com a arte de sublimar... Os devaneios frustrados cederam lugar à dança de gestos nervosos que insinuavam o enfrentamento. Brutos, os dedos alisavam a barba freneticamente, enquanto unhas vermelhas passeavam despretensiosas pelos cabelos castanhos, como um ritual de iniciação. Nada além do céu e do som, seus desejos se entrelaçaram, desesperadamente. (...) Aptos estavam a trilhar o caminho para onde se pertenciam. A melodia emitiu sua última nota.

Raquel Abrantes

domingo, 22 de março de 2009

Na última vez



Minha angústia andou do meu lado o dia inteiro... até nos encostarmos finalmente. Na verdade, eu estava pisada. Pisada pela melhor oportunidade da sua vida. Projetos te levaram a um otimismo que nunca fui capaz. As perspectivas derrubavam cada gota restante de segurança que eu pudesse ter (nos meus olhos). Os pensamentos passavam carregados pela sua testa até o meu queixo. Sua irascível reação suprimiu qualquer brilho que restasse em meu sorriso. Quando seus punhos se tornaram mais evidentes que seu carinho, entre ameaças e tons ríspidos, entrei em uma jornada compulsiva para desvendar o mistério do ataque do seu estômago. Não pude crer no que tinha sobrado daquele conversível vermelho que a gente dirigia em meio ao rock e ao pop. Sucumbi de minha revolta em paliativos dormentes, fugindo da recente realidade que estragava o gosto da felicidade. Sua visão me cegou na última vez que te vi. A alegria me esqueceu quando o enfretamento do desejo foi embora. Nosso mundo estava longe... não ouvia nem mesmo um eco. Sua consciência o alertou, entre monstros e bruxas, mas nada ficou em seu lugar. Minha imaginação perdeu a criatividade e, continuando a te querer, procurou te esquecer. A vida tira, dá, e nos torna cada vez mais herdeiros de nossas verdades. Há mares de distância, minha dor ficou incompleta... até se perder nela mesma.

Raquel Abrantes

terça-feira, 17 de março de 2009

Vou na pensão

Meio-dia. Feijão, arroz, bife, farofa. Hoje tem.
Vou na pensão... com ninguém.
Eu e meus delírios... agora cativos.
Seguindo com Drummond na bolsa para garantir a diversão.

Pensamentos quando sempre me perturbam
levanto a dúvida da existência
Não há como retrucar.
Enquanto isso, minha vã consciência do mundo
Me deixa bem no fundo do meu ser... que não encontro o fundo.

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sexta-feira, 13 de março de 2009

Chegar em casa

Primeiro, desafivelo as sandálias... pés descalços andam ansiosamente pela casa até o banheiro. Desprendo o fecho do sutiã por baixo da blusa. Tiro um braço, depois outro braço e me livro daquela prisão. Lavo o rosto. No espelho, vejo o reflexo do meu dia, enquanto a saia descola satisfatoriamente do corpo e se arrasta pelos quadris, pernas até o chão.

O suor implora pelo vento na pele (inundada), e as demais peças tornam-se também desnecessárias, na trajetória até o ficar à vontade. Ligo o ventilador e deito no sofá vermelho que me acolhe e acalenta, cheio de desejos...

Afundada na perplexidade por acontecimentos ainda frescos, a bonança me acena avisando que vai chegar. E não consigo parar de olhar para ela... bem ali... Enquanto enxergo os benefícios de ser eu mesma, na mente e na carne, minha consciência se delicia... em um deleite absurdamente egoísta.

Raquel Abrantes

quarta-feira, 11 de março de 2009

Nem uma gota

Nem uma gota. Nada escorreu pela vala que percorre o caminho – até o lugar de onde as palavras não saíam. Um buraco negro se expandiu humildemente em uma ânsia de vômito inesgotável. A angústia estomacal abafou toda a exaltação daquele sentir, que era meu. E o valor do que antes emanava anulou a função das respostas, costumeiras de um processo niilista (e cansativo) de um algo que nunca se pensou. Abri a janela da vida e quis escalar os prédios... do meu próprio mundo. E ele deve ser digno das translações e rotações devidas ao ser (humano). Nem uma gota caiu.

Raquel Abrantes

Nosso banco


Quando primeiro te vi, olhava a sua figura meio a parte do ambiente e me perguntava quem era. Havia um charme, mas parecia apenas um maquinário qualquer, como tantos que cumprem sua função no sistema. Por convite de outros, trocamos as primeiras palavras, que fluíram num jogo de significados e significâncias fazendo o assunto transbordar dos copos de cerveja... E o agradável encontro de debates e argumentações se repetiu. E se prolongou. E de novo... até virar hábito. As conversas suavam de dia e evaporavam de noite até as nuvens, enquanto podíamos nos confessar. Confessar nossos crimes contra a humanidade vigente, carente e conformada com a rotina do mais ou menos. Do tanto faz. Não, não tanto fazia. Não para nós. No nosso banco ao pé da árvore, podíamos falar e ouvir alguém que entendia e se fazia entender, sendo cúmplices da subversão que agride a maioria. E algo finalmente aconteceu. E se repetiu até se tornar necessário. (...) Mas o banco não era grande o suficiente para nós... E o necessário ficou pesado demais para ser carregado. Nossa imaginação viajou sacudindo a percepção da realidade, que eu já não sabia mais qual era. Não sabia mais com quem me confessar. A dor tomou conta do meu desejo e os cacos se decepcionaram. As mentiras nos magoaram e chutamos as promessas. Tudo virou nada. Mas foi perdida nos seus delírios que pude me reencontrar nas histórias dos livros que você tanto falava... E descobri outra forma de confessar meus crimes, naquilo que passei a colocar no papel. Agora, não sabemos se algo pode ser recuperado ainda. Mas, agora, tanto faz...

Raquel Abrantes

terça-feira, 3 de março de 2009

Madrugada


De madrugada, todos parecem os mesmos. Os mesmos lugares, as mesmas atitudes, aquela impressão falsa de alegria. Um contentamento raso daquelas pessoas encostadas no bar, na mesa de sinuca, forçando passos sem graça na pista de dança. Sorrisos sem charme (pela falta de gosto) olham pra você enquanto sua vontade quer o agradável ambiente da solidão. Um gole, um pulo, um tempo perdido. Às vezes, quando viver se torna uma obrigação, já não sabemos mais o que é vida. Viver naquilo que se repete e sufoca não pode ser viver. É uma questão de referência. Enquanto algumas pessoas querem a noite, outras querem algumas horas num quadrado escuro. Enquanto uns buscam as estrelas, outros olham para as latas no chão. Não quero tropeçar pela degradação e falta de vislumbre. Quero subir a escada da tarde até a madrugada entre pensamentos que me levem a menor consciência que seja das fases da lua. Me confortar na busca de um saber inalcançável, mas discutível, e esticar as pernas na relaxante dúvida do que é certo e errado, fazendo o que cabe a mim mesma.

Raquel Abrantes

segunda-feira, 2 de março de 2009

A viDA

Você SEMPRE vai quebrar a CARA...


... e você SEMPRE vai ficar de PÉ de novo.


HAhaHAhaHAhaHAhaHAhaHAhaHAhaHA

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domingo, 1 de março de 2009

Monstros e bruxas


Nunca vou esquecer do ataque do monstro chamado Fúria, que me tomou de assalto, de lado, de costas, deixando apenas lamúria. Quanto mais a Fúria eu tentava acalmar, mais ouvia o monstro berrar e se libertar. Assim, sem mais nem menos, sem motivo aparente, continuou a mostrar os dentes.

Mas a Fúria foi descuidada, acordando a incrível Revolta, que se revoltou diante da história e combateu (o descontentamento) com indescritível tormento! Trovoadas nos arredores da luta, cabeçadas e disputa, nesta interminável labuta de lidar com monstros e bruxas.

Finalmente, no fim de tudo (como no fim de todas as coisas), a Fúria evaporou-se como se nada houvesse sido e da destemida Revolta ficaram apenas os gemidos.


Raquel Abrantes