sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

...

Deitada naqueles momentos entorpecentes
vistos de longe...
me afoguei nos goles com gelo
e peguei fogo nos rolos infames

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Mares

há mares
a-mares
ar-mares

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Enfrentamento do desejo


– Sabia que eu te amo?

(...)

– Você ouviu o que eu falei?
– Ouvi, que você me ama.
– Ahh, você ouviu isso?
– Ouvi.
– Mas você não seria capaz de dizer o mesmo...
– Você não acha que é muito cedo pra dizer isso?
– Não, não acho.
– Acho que você vai enjoar de mim.
– Até agora, não enjoei...
– Mas vai...
– Não, não vou...

De Celso Salim, aquele blues respondeu por mim a confirmação esperada por ser liberada, ansiosamente. Apesar da certeza, a necessidade veemente pela beleza me levou ao confronto das palavras.

Ambos admitimos a culpa, e rendidos aqui estamos, no enfrentamento do desejo. Um misto de indefesa ao sentir com esses ombros que acolhem e a barba que arranha e realiza.

Seres mesclados e ocupados, funcionamos à capacidade total. Totalmente sua, Totalmente seu. Minha, Meu. Pronomes possessivos consagram a existência de uma congruência, e aceitamos os termos ri-go-ro-sa-men-te.

Nas várias refilmagens do mesmo, a criatividade tomou conta do roteiro (sensacional). Foi por este mesmo irrefreável, parceiro, que a vontade se vestiu de vermelho e declarou feriado nacional. Enquanto sussurros dominavam tímpanos afoitos (codinome), o corpo reagia com volúpia para todos os gostos, ao que desenfreado me consome.

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domingo, 15 de fevereiro de 2009

Eco


Sexta-feira vai dormir. O recorte das folhas na mata sobre o vermelho píncaro da noite acolhe os ânimos abandonados. Vento frio aquece a alma ao encostar o rosto.

Ideal, quimera de nascença, deixa sua ausência representada pela esperança... Que (traiçoeira) brota de palavras recitadas, ecoadas através do oceano. Incontrolável desengano.

Talvez o barulho do telefone tocando tenha me distraído de mim mesma naquele momento nostálgico e reflexivo. Ao atender, algo apontou para um calor em direção ao meu peito apesar de ouvir nada. Uma certa familiaridade no ar que respirava eu.

(Alô? Alô?).

(...)

Era nada.

Apenas uma tênue demonstração de saudade, embuçada pelo contentamento com o timbre preciso, arrastado e estonteante (de quem se quer e lhe é determinante).

Em companhia de uma agonia silenciosa deixo-me levar pelo cansaço. Sem resistir, meu corpo se deita. E encaixa.

Horas mais tarde (ou mais cedo), um retorno da madrugada se faz pela recaída da aparição. Enquanto minha ignominiosa paciência atende mais uma vez o aparelho, há quem reage confirmando pulsação. Entre olás e bulícios, a eloqüência de uma torpe voz extenua toda a minha resistência.

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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Bravatas

Castigue. Castigue quem demanda. Punição! Maus tratos para os loucos que querem mais do ser. Que despeito! Como pode alguém cobrar-me ser além, mais do que tenho a ofertar? E quando secar a fonte da vontade, que não me venha exigir complacência naquilo que dispõe-se a si mesmo.

Prenda! Prisão para os lunáticos da soberba. Que fiquem entre barras para provar a imagem fétida da solidão. A solidão em si mesmos. Fanáticos que exercem o poder do sentir sobre outrem. O poder de exigir mais a cada recusa sua própria.

Descaso. Ignore o que te enerva. É caso deste que falta o esquecimento e sobrepõem-se as lembranças. Exatos momentos de dor e ira trocados pelo não pensar. O vazio das possibilidades mais atraentes em vez das pesadas torturas do que já foi.

Desvie, sim, indivíduo! Desvie das pessoas tortas, entortadas pelo mundo, por sua visão produzida e falsificada. Mantenha distância dos seres ideológicos! Pessoas confusas estas que insistem em defender uma causa. Atordoada é a alma dos convictos.

Nenhuma verdade deve ser perdoada. Que as várias versões falem por si mesmas.

Abandone o apego pela alma alheia. Desprenda-se da posse concreta e aceite a conquista de fato do discernimento. Seja! Exista! Realize a existência do outro em si mesmo e na transferência de tudo o que acrescenta. Viva! E morra.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Nosso Mundo


Dia de colchão na sala. O lençol de elástico funciona perfeitamente esticando o conforto de brigas eternas no tamanho queem. Travesseiros travessos (vicissitude) amortecem a luz e a paz iminente.

Cinzeiros: dois. Copos: dois. Ao lado, a garrafa de coca-cola, o pote de pipoca e o prato de brigadeiro. Fome, sede e sono devem ser saciados sem o abandono do lugar. O nosso lugar.

O maço de Free e a caixinha de Lucky Strike se confundem na troca de risadas e divisão das funções de cada um – para que o tempo perdure. Preciosos momentos. Nosso mundo ao redor do colchão. Apenas nós dois. Nunca nada fez tanto sentido.

(...)

A televisão apresenta vários filmes, escolhidos e não impostos, sendo que o mais assistido está na sala. Fora da tela. Horas passam... e a vontade permanece (deleite). Momentos alguns para matar o calor e refrescar a alma. Aura instransponível.

A contagem do tempo se perde. Qualquer coisa, qualquer hora (randômico). Hora? Nenhuma opressão do relógio enquanto os dias nos pertencem. O nosso mundo, enquanto nosso.

Durante a claridade, acrescenta-se à cena o mundo exterior, que se movimenta tranqüilizante e aprazível. O vermelho do sofá contrasta com o verde das folhas e o amarelo da luz que entra através do pardo. Pardo como a gente.
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