quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Quero que o mundo gire


Quero que o mundo gire. José adorava brincar com o globo terrestre que ganhou da madrinha de aniversário. Ele rodava a bola, fechava os olhos e apontava o indicador esquerdo, porque é canhoto. Sempre descobria um lugar diferente, um nome estranho, que tornava cada vez mais vasto seu conhecimento de geografia. E no lugar dos livros, o globo se fez professor e brincadeira, na primeira exploração de mundo do menino.

José começou a se fazer outras perguntas, como o que significavam aqueles nomes que as pessoas deram para pedaços de terra boiando no azul. E suas pesquisas virtuais o levaram a outros cantos, outras dimensões, outras formas de vida. Outros nomes que pensavam, sem aquela inércia estampada da representação. O movimento que fazia o mundo girar era causado por uma pessoa: ele. E as pessoas também ganharam sua atenção. Suas peculiaridades e mundos individuais.

Os países já não tinham tanta importância para José, com sua impossibilidade de movimento, de transgressão, de apoio para suas dúvidas. E daí? Não eram nada mais que uma reunião de pessoas. Uma reunião limitada por suas fronteiras, bandeiras, disputas. Mas as pessoas que importavam para José estavam distribuídas por diversos países, o que tornava impossível tomar um partido. E o menino queria fazer o mundo girar... Em sua mente, os países mudavam de lugar, iam e vinham conforme o vento, dando espaço para as personalidades transitarem livremente, até seu encontro, para depois, apenas depois, lembrarem sua nacionalidade. Foi quando ele percebeu que todos os pedaços de terra se misturavam ao girar o globo, e suas diversas cores se tornavam um grande borrão, indefinido, como a natureza do movimento.


Raquel Abrantes

domingo, 20 de setembro de 2009

Limites

Os limites chegam quando menos se espera. Das coisas que deixamos de fazer, enquanto fazemos outras, do tempo que deixamos de contar, enquanto ele passa. Se ele passa, é porque estamos apreciando cada momento. E é bom o tempo passar... como é... Quero que passe com toda a beleza de gestos fotografados na mente. Quero que passe trazendo as saudosas descobertas de segundos atrás. Aprimorando a intensidade de um minuto... Que passa. E as coisas mudam de lugar. Algumas vão para o armário e outras ganham a estante da sala. Tudo conforme o riso daquele dia... Que logo acaba e pede por mais um. E assim conseguimos enganar a velhice, que vai chegar, eu sei... Foda-se. Tenho tempo para perder... enquanto ganho algo para me lembrar.


Raquel Abrantes

domingo, 13 de setembro de 2009

No meio

Quatro cantos no recinto. E nenhum deles era meu. Quatro quadros na parede, todos misturados em mim. Mergulhava nas gravuras e não me encontrava em nenhuma delas. Apenas surfava nas nuvens de Van Gogh e me espraiava nos desenhos de outros menos conhecidos. Conhecer... lançar-se em uma aventura traiçoeira, por sombras de trilhas num pedaço de papel. Quase me perdi nos caminhos pontilhados de impressionistas, mas voltei ao concretismo da sala. A fechadura ilude garantir a segurança de um lar eventualmente explorado. Nenhum trinco é capaz de me tornar refém, nem que seja de mim mesma. Se fosse isso, abriria a porta imediatamente. Afinal, a chave é minha, pelo menos por enquanto. Enquanto pago o aluguel, o condomínio e a conta de luz. Infelizmente, a luz apagou, como tudo que deixa de funcionar, assim, sem mais nem menos, e exige um movimento meu. Como o telefone que parou de tocar e o gás que nada mais acende. Aliás, o cansaço se instalou no meio. E não quer deixar de concentrar a energia restante a seu bel-prazer.


Raquel Abrantes

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Quando o pensamento fica no canto

Hoje recebi um comentário anônimo dizendo que um blog estava copiando os meus textos e assumindo a autoria dos mesmos. Primeiro, fiquei chocada com a falta de vergonha de alguém que publica o meu texto três dias depois de mim. Então, fiquei indignada pela ausência de ética. Mas, no final das contas, eu tive pena. Tive pena desses dois, Thiago e Pingo, que assinavam o blog O Canto do Pensamento, por sua total inabilidade para a escrita. Deixaram o pensamento em algum canto, porque pensar não é para qualquer um, e percorrem a blogosfera atrás de rabiscos sinceros, com algum valor, para substituir suas incompetências existenciais. Aliás, o blog deles deveria se chamar O Canto do Pensamento DOS OUTROS. Eles gostaram tanto da Pura Essência do Ser que esqueceram de “ser”, criando um blog de mera reprodução. Ao descobrir a infração de direitos autorais (denunciada pela própria data de postagem), deixei comentários para os donos do blog e para todos os leitores deles. Cuidado! Você pode estar sendo copiado! Com o protesto de alguns amigos também, os meus três textos foram deletados de lá... E o tal do Pingo chegou a postar um comentário por aqui, pedindo para eu não ficar chateada com o uso dos meus posts, que faria parte do projeto do blog publicar textos de outros. Acredito que a permissão do autor deva ser concedida, assim como o crédito, se fosse realmente o caso.
E aí? Esse post aqui vocês vão reproduzir? Não vão, não... acabaram de deletar o blog...


Raquel Abrantes

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Estranhos passos

Estranhos passos que damos às vezes na vida. Uns nos levam para frente, outros nos fazem voltar atrás... E, às vezes, perdemos a direção. Ficamos parados esperando o sinal abrir, e não conseguimos atravessar, mesmo quando está verde lá no alto. Olhamos o fluxo de carros, os transeuntes seguindo para seus compromissos e nada nos faz andar. Sinto falta das suas risadas. Estranhos passos que às vezes não damos. A ordem para que as pernas avancem não sai de nossos cérebros. É como se déssemos tantas voltas dentro da cabeça que o cansaço fosse transmitido aos músculos, sem terem chegado a se movimentar. Passamos por lojas, pessoas, momentos, supermercados, que cruzam nossos passos, e exercem seu efeito catalisador. Acrescentam, modificam. Mudamos o olhar, a opinião, o gesto, a entonação da voz, a cor do cabelo, o modelo da roupa, a parte lida do jornal, a forma de se divertir. Às vezes, somos levados pelos movimentos do mundo, inexplicáveis translação e rotação do estado das coisas, apesar da impressão de estar sempre no mesmo lugar. Quando algo é muito bom, é muito ruim quando é ruim. Estranhos passos que damos às vezes na vida. Podemos começar a andar sem ao menos perceber, seguindo como os demais transeuntes, em direção aos compromissos. Deixamos de observar o fluxo dos carros e só esperamos o sinal abrir para avançar finalmente. Entre caos e ordem; pano de fundo, este, que nos mantêm girando. Nem que seja dentro da cabeça.


Raquel Abrantes

domingo, 23 de agosto de 2009

Receita

Tentei juntar as letras para criar uma receita nova. Misturei diversos temperos, deixei em fogo brando, dava umas mexidas de vez em quando. Recendia a peixe. Não era o sabor que eu queria. Joguei tudo fora e arrisquei outras palavras. Começou bem, mas o sujeito não se entendia com o objeto. Mudei a ordem de adição dos ingredientes para diluir as adversidades. Mesmo assim, passou do ponto. A fome surgia cada vez maior, sem identificar o que agradaria ao paladar. Talvez algo que venha pronto... Lembro da despensa, que transborda inspiração, me confortando toda vez que as frases ameaçam nunca mais vir para o jantar. O roteiro remete a um namorado ciumento, que reluta, abandona, mas retorna quando menos se espera. Desligo o fogo e me entrego aos saborosos pratos feitos por outros, renomados chefs que, quem sabe um dia, possam me ensinar a cozinhar de verdade.


Raquel Abrantes

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

.

Quando galhos se quebram com o vento da noite, as brisas tornam-se fundamentais ao cenário, acariciando as folhas, metamorfoseando sua dança ao sabor das variadas coreografias. A inércia facilmente se instala, em meio ao turbilhão de conjecturas formadas em algum lugar. Nada de luar para este céu aqui, que aceita apenas o universo. Constelações inauditas de tanta exasperação ao lado da nudez dos astros. Asteróides comemoram levando a notícia aos planetas, sem causar danos à vida local. Apenas como um toque de sorte nesta nova jornada, de cumplicidade através do tempo. Tempo. Os minutos sempre nos traem quando se trata de felicidade.


Raquel Abrantes

domingo, 9 de agosto de 2009

Tons

Camila virou a esquina e um homem quase imaginário parou na porta da loja, olhando para ela. Já era possível admitir a si mesma o merecimento do flerte, consciente que se tornou de seus atributos e classificações, cobiçados por vários homens, mas repudiados pela maioria dos representantes do sexo masculino.

Uma coragem avassaladora a fez ultrapassar o sinal do constrangimento e percorrer a distância entre os dois, iniciando uma conversa naturalmente, como se fossem velhos amigos desde aquele momento. Coisa que Renato desejou no primeiro instante em que avistou Camila, mas ele não tinha chance perante todos os outros homens, assim pensava.

Quando aquela menina, com feições macias e alongadas, chegou perto de seu toque, Renato aceitou a infinidade de trocas oferecidas bem na sua frente, que não passavam despercebidas. Afinal, raros são os bons encontros com as sensações. Na maioria das vezes, as mulheres lhe despertam algo isolado, e, apenas somando umas dez, cada qual com sua vantagem, ficaria satisfeito. Desta vez, havia descoberto o pacote inteiro em uma só.

Camila exaltava a beleza física por seus pensamentos e filosofias, não menos admiráveis, de vivência indispensável. E os contornos ásperos daquele rosto atraente e gentil a fizeram retomar uma disposição adormecida para o desconhecido. Levantou a cortina com o cenho franzido de incertezas, mas convicto de vontade, e deleitou sorrisos entre as diversões de uma longa noite.

Dançaram sem ouvir a música, tampouco podiam acompanhar o ritmo proposto pela banda. Mas se acompanhavam, a cada movimento, da entrada à saída, de uma porta a outra, como se nada mais importasse. Passaram-se muitas horas das risadas e comidas até o voltar para casa (dele).

Tirou a roupa. Camila abriu os canais dos sentidos e sintonizou tentativas. Apesar da desconfiança com relação aos defeitos de um futuro próximo, as qualidades lhe fizeram um convite irrecusável. Os dois deixaram que os poros decidissem a questão. Posteriormente seguida de outras questões, que iam sendo solucionadas na sucessão dos pequenos mistérios desvendados. E, como teria mesmo de ser, naquela conjectura, as sardas dela desmaiaram ao lado das suaves pintas no peito dele, e falaram sobre isso, como se a voz alta inaugurasse um universo de tons entre um e outro.


Raquel Abrantes

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Pele

É algo como se as camadas da pele fossem arrancadas uma a uma, similares a páginas de um livro lido, rompendo o trabalho de encadernação. Origens machucadas e reunidas todas ali, apesar de sua falta de função no contexto. Aquele esqueleto exposto, sujeito a alterações químicas, perde a fala em meio aos ruídos da raspagem, a cada milímetro que a lixa avança tentando corrigir suas imperfeições, sem anestesia. O pó responde pela transformação ou retorno a si mesmo, poderíamos dizer, e se espalha pulverizado, ocupando espaço e perdendo o seu próprio. Entre frestas de luz que se abrem inesperadamente, o ar brilha poluído, denso, ganha corpo, para depois se dispersar gradativamente, na medida em que baixa a poeira... até voltar a ser o que os olhos não conseguem ver.


Raquel Abrantes

sábado, 1 de agosto de 2009

Insônia

As pálpebras simulam relaxar enquanto reagem com impulsos nervosos a qualquer estímulo externo, seja ruído ou iluminação. O ar fica mais denso no ritmo da respiração compassada entre o tempo de sono perdido. E os músculos concentram seus esforços na base do pescoço, gerando a tensão que o sonho tenta eliminar.

As paredes libertam toda a atividade incapaz de descansar, em meio às inquietações que remetem aos afazeres inacabados, obrigações, compromissos, vontades. Mil tentativas de acomodações frustram minhas intenções de adormecer. Os travesseiros revezam a tão desamparada busca pelo conforto, enquanto a noite fala por todos os cantos da casa.

Ver um filme torna-se uma escolha e aquele livro me chama para ser terminado. Cada página que viro rouba muito mais de um minuto, em proporção desigual para com o tempo. O conhecimento perde para os ponteiros do relógio, e continua procrastinando o dencanso físico. As vantagens de uma e de outra opção, dormindo, acordada, cada qual sabe das suas.

Na certeza de que o sono vence a mente em algum momento, as reflexões ocupam a cama adiando o processo, e as possibilidades de distração surgem predestinadas a trazer alegria em um final de domingo. Entre as cenas dos diversos modos temporais, incluindo os projetados, o objetivo mais urgente perde-se progressivamente... até esquecer o próprio nome.

Durante quatro horas apenas, as influências do meio são traduzidas em pinturas surrealistas de um mundo inatingível, como para apaziguar o curto período de inconsciência, necessário ao corpo na reposição das energias. Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um: grita o ímpeto realizador! Agendado sempre na véspera, tarefa de uma das minhas listas.


Raquel Abrantes

sábado, 25 de julho de 2009

Cores e dores

Cansava a sua beleza. Cansava a beleza de Linda aquele mantra masculino para sua paciência, Não pude evitar, você é muito bonita e sensual... Do que um homem é capaz para seduzir uma mulher. As verdades momentâneas ganham requinte de longevidade e as gentilezas superam os limites do tempo e do espaço. Mais tarde, aquele sorriso de satisfação anula as vozes da véspera, dispersas entre ontens e até mais.

Numa noite despretensiosa, a cerveja descia refrescando seu cansaço, e também iludia um divertimento entre os percursos dos dias úteis. A música dançava entre amigos que conversavam em pé, circundando uma mesa para apoio dos copos. Já era o terceiro naquela noite tentando lhe faturar e ela não suportava mais, com a imagem de casa adentrando no recinto.

Preciso ir ao banheiro. Ai, que fila é essa? A mulher na porta cedeu seu lugar na fila para mim, disse Linda a seus amigos quando voltou para o grupo. Com doses realistas de gentileza, sem importunar o limite de espaço entre um ser e outro, a estranha deixou que passasse sua frente. Ela está no fundo do salão. Com o bar praticamente no meio entre os dois extremos, preciso de mais uma cerveja.

Clarice viu aquela bela mulher a procurando com os olhos e decidiu iniciar uma aproximação. A educação fazia parte de seus costumes diários, o suficiente para Linda se encantar. Atravessou o salão e ofereceu uma bebida para a mulher que endeusava sua noite. A atitude traduzia a fascinação de Clarice por algo tão delicado, delineado e instigante como Linda.

Era o seu grande dia. Nem que seja pela eternidade de um buquê de flores, a felicidade olha para nós. É uma questão de lidar com os atravessamentos da vida da maneira mais proveitosa possível. Sem poréns e previsíveis infortúnios de dolorosa rejeição, Clarice escolheu desfrutar das inexplicáveis artimanhas do acaso.

Acariciou a sutileza de palavras ao vento, desvendando lentamente a paisagem interior de uma janela, esculpida em raros materiais. A natureza alardeia os odores e as cores de substâncias complementares. Instintivamente, duas pessoas se apaixonam por tudo o que descobrem umas nas outras, incluindo defeitos e imperfeições ainda desconhecidos, que resultam irrisórios perante as qualidades impactantes do primeiro contato.


Raquel Abrantes

sábado, 18 de julho de 2009

Eu sempre quis

Sabia que as palavras me motivam mais que os números. Que a humanidade me interessa mais que os bichos. Que as questões sociais abrem mais brechas que as individuais.

Eu sempre quis. Primeiro, quis pigmentar o planeta com todas as cores que faltavam. Equilibrar os contrastes de luz em alguns países. Chamar a atenção das pessoas para os tons escuros, abafados pelos claros. Ou para os claros, em detrimento dos escuros.

Eu sempre quis. Quis iniciar a mudança na minha casa. Escalar o topo do meu mundo e fincar a bandeira da vida. Canalizei a paixão para a rapidez dos dedos no teclado e para a curiosidade sobre os não-costumes. Mas as paixões duram o sopro de sua tosse.

A pulsão partiu com todos os meus quereres na mala. E o mundo saiu do roteiro da minha viagem. A intensidade das emoções, última parada. Perdi o brilho das realizações. Esqueci de buscar. Deixei de querer.

Até que outras letras me olharam disponíveis. Seus propósitos eram maiores que os meus. Influenciavam positivamente a vida dos distraídos. E influenciaram a minha. Quis mais e mais dessas letras no meu alfabeto. Quis em várias línguas e dialetos. Quis todas as combinações feitas e imagináveis. Quis... quis.

Eu sempre quis. Sabia que as palavras me motivam mais que os números. Que a humanidade me interessa mais que os bichos. Que as questões sociais abrem mais brechas...


Raquel Abrantes

domingo, 12 de julho de 2009

O santo



Com apenas 19 anos o mundo mal descortinara à sua frente. Perspectivas provincianas de uma vida pacata projetaram a imagem de Santo Antônio, uma estátua de madeira que inaugurava dias melhores. Foi o primeiro que Paloma ganhou, porque é preciso ganhar de alguém para dar certo.

Assim que começou a reza, as recitações progrediram na mesma proporção de seus desejos. As palavras surgiam ininterruptas, amaldiçoavam aquele casamento, ao mesmo tempo glorificavam o artefato, que ganhou local arejado, mel no pires aos pés, perfume, flores e velas. Bom dia, Santo Antônio. Vou te tratar muito bem, só quero casar com o homem que Eu escolher.

Os anos intercalaram ressentimentos saudosos de uma vida que esperava ter. Aos 26, destacava-se na multidão, não por sua exuberância, mas por se sentir só. E a figura de Santo Antônio invadiu sua mente.

Colocou um pouco d’água num copo, e a efígie nem teve chance de argumentar: foi afogada de cabeça para baixo. Dia 12 de junho, Dia dos Namorados, mas ela não tinha nenhum. Então, resolveu criá-lo.

Preparou jantar à luz de velas e candelabros, colocou seu vestido mais insinuante e decidiu que não iria jantar sozinha. Uma garrafa de vinho testemunhava a insanidade de auto-sugerir seus sentidos. Abriu e fechou a porta para que o pretendente imaginário entrasse.

Visualizava todas as descrições pertinentes ao gosto que lhe cabia, selecionadas entre suas experiências, as boas e as ruins, e concluiu que a ordem de prioridade havia mudado. Suas emoções eram seguidas pela música de Chico Buarque, que, seu preferido, não poderia faltar à construção. A mulher concentrava toda a sua força em imantar pretensões.

Desde a saborosa refeição olho-no-olho até a noite de outros sabores... degustados detalhadamente, com a harmonia do gostar. Paloma aproveitou todos os segundos, com reflexos e desejos guardados em sua sugestão. Dançou com seu amante e dormiu em seu ombro, com um sorriso realizador.

Foi como se pulasse de um sonho para o casamento que almejava. Depois de ter raptado o menino Jesus, os resultados foram rápidos. Na noite do casamento, Paloma fez questão de acertar as contas antes de partir para a lua de mel. Devolveu o componente de madeira e deu flores do buquê à estátua, que ocupou a cabeceira da cama.

Tempos depois, o marido ficou sabendo da história. Comprou um grande boneco do santo, do tamanho de sua felicidade, que continua pendurado na parede do quarto, símbolo da convicção aspirada por ambos. Eleger sua própria crença é respaldo legítimo do acreditar...


Raquel Abrantes

sábado, 11 de julho de 2009

Hoje

Hoje o que me compraz
é o orgulho por suas vitórias.
A decepção por suas derrotas
me desfaz.

Hoje posso dizer
mesmo sem saber se posso
deixar lá perdido

Que meu passado
Independe do meu futuro
Sou hoje não mais ex
mas a estranha sim, talvez

E os seus cacoetes
também mudaram
por sua vez. Por sua.

Hoje você não jaz
na superfície das memórias de
Tempos atrás.

O que hoje aqui está
Já não se pode traduzir.
Reluzem no espectro
meus hojes.


Raquel Abrantes

domingo, 5 de julho de 2009

Certos signos



Imaginava a seqüência a ser escrita, sutilmente entre os ditos e os não-ditos, naquela gratificante permuta de vivências, confidências entregues à delicia de libertar vazios... Certos signos remetem a assuntos já destoados de nossas vozes, cruzadas na sintonia do olhar adiante, de transladar o ocorrido pela escolha do vento de amanhã. A página seguinte carrega afinidades casuais, simulando a dança das folhas cadentes de suas origens arbóreas. Como a leveza de uma pena colorida, que acaricia arrancando risadas pertinentes ao diálogo das retóricas. Da mesma forma, uma brisa solfejada solta a imaginação que nos insere, nos reparte e deixa reverberar. E das referências compartilhadas, a patente se encanta por uma orquestra de alusões, principiando o uníssono de aliterações bem articuladas. Mesmo sem avistar a sombra dos traços labiais... efeitos de luz das expressões suprimidas... recria-se a latência onírica. Escalada de pretensões até o alto de nossos sonhos, poderosos ajudantes na arte de sucumbir aos delírios inacabados, de nossa loucura confessa, na celebração das distorções proeminentes de nossas almas. A partir da rota de fuga, entre cartéis de notícias incompletas em sua parcialidade, a escapatória encerra na neblina de afazeres criativos, possibilitando o encontro delineador de nossas falas, que tentam dizer...


Raquel Abrantes

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Bermuda

E ele retomou seu lugar depois de alguns meses. Abigail tinha terminado um namoro transitório na sexta-feira. Fabrício chegou três dias depois... Como se nunca houvesse partido. Ele perguntou sobre a sua bermuda. Estava lá; lavada, passada e guardada na gaveta.

Abigail olhava para seu amor e para a bermuda. Estava feliz com o retorno do dono, proprietário também da sensação que ela sempre esperava. E aquela risadinha no canto da boca recordava ironicamente que a bermuda fora preenchida por outro, amassada por outro, arrancada de outro, por todo o tempo em que Fabrício a abandonara.

A bermuda não caía tão bem em Julio, mas ele se apaixonou intensamente por Abigail e faria qualquer coisa para manter o relacionamento. Até mesmo ignorar sua história com Fabrício. Inicialmente, algumas fagulhas estimularam o casal, com surpresas, declarações e a hipótese de ficarem juntos.

Só que ainda não estava resolvido. Não para Abigail. Ela se contorcia ao ouvir o nome... Fabrício... Sua espinha gelava da nuca ao final do dorso. Sentia-se como uma lápide sendo grafada com o nome do finado. Logo um ataque de comichão confessava seus sentimentos ainda confusos, na incapacidade de tomar uma decisão.

Insensatez que transpareceu inexorável para Julio. É assim que um homem perde o firmamento e deixa de olhar para as estrelas... a insegurança foi depredando progressivamente sua auto-estima. Ele precisava ocupar todos os espaços, antes que outro ocupasse. E seu cuidado excessivo fechou as janelas da alegria para Abigail.

Fabrício retomou seu lugar. Com a mesma instabilidade de Julio, aniquilando a mulher que ele queria. A mulher que habitava Abigail compungia por seu amor, desejara ela nunca ter deixado... não que tenha sido sua opção. Paixão a consumia desde a última iluminação do dia até o adeus avermelhado da noite.

A cada tanto, o sangue de Abigail ganhava componentes de insatisfação, na malograda tentativa de consolidar. Seus ouvidos pediam murmúrios de conforto e seus pés não alcançavam o chão. Os talvezes de uma vida incerta de abrigo, sempre vulnerável à chuva. As evidências iam de encontro ao significado de seu nome, aquela que muda rapidamente de humor, mas sempre traduz fonte de prazer e torna as transformações favoráveis a ela.

Fabrício agonizava em pensamentos sombrios, ardia em febre de ciúmes, friamente calculados por viáveis confirmações. Em elucubrações constantes, desvelou o cansaço da vida, esbaforiu ressentimentos e partiu mais uma vez. A ocasião fez Abigail lembrar da bermuda... e a devolveu, tendo sido o primeiro pertence colocado na sacola.

Em sua gaveta, não havia espaço para bermudas, seja quem fosse o dono. E a peça íntima foi parar na portaria, junto ao resto-das-coisas-dele. As calcinhas ocuparam todo o compartimento do armário, dobradas ao descobrimento de seus bordados. Abigail liberou as assombrações e evaporou as tristezas, acompanhada do insubstituível silêncio de sentir.


Raquel Abrantes

sábado, 27 de junho de 2009

A rua


Um dia normal de trabalho continuava na minha semana. Era quase a hora do almoço e, enquanto imaginava o que haveria no cardápio, verificava as desordenações da minha caixa de e-mails. Entre um spam e outro, bocejos me irrompiam até o esticar dos braços. Simples movimento com alto teor de liberdade incorporado. Às vezes precisamos intercalar ilusões às necessidades da vida.

Contava tempos sem ver o dono daquela voz... e as perspectivas de reencontro viravam a esquina na minha memória, fazendo um desvio na contramão. Imediatamente meu rosto denunciou as marcas de expressão causadas pelo sorriso. Lembrei de nunca ter considerado as minúcias das ruas paralelas à minha e aqueles crassos e-mails remetiam às vias transversais do meu passado, tencionadas a interditar a passagem.

Depois do inesperado chamado, os bocejos descansaram e a disposição assumiu a agenda, seguindo o calor da calçada. A fome de luz não seria suprida pelo cardápio, mas o estômago precisa de algo para digerir. É como uma mente vazia: devemos abastecer com opções positivas, ou as negativas se manifestam. Alimentada, passei o restante do dia mirando a satisfação a cada piscar.

Estava marcado para as nove e cheguei inaugurando novos acessos. Somente por ter observado detalhadamente minha rua desde a última vez. Habituei-me à personalidade do asfalto, contemplei os desenhos formados pelas pedras portuguesas, aceitei as descontinuidades na tinta da faixa de pedestres. Construí um quebra-molas e atravessei.


Raquel Abrantes

domingo, 21 de junho de 2009

Três segundos



Um vento gélido transpassa minha pele, enquanto me detenho ao fato testemunhado. Como se no decorrer de três segundos, a vida perdesse o sentido, ou ganhasse. Prévios instantes nos quais pensava eu no olhar vindo daquela direção, se era insolente tentando ganhar espaço em meus devaneios, e me aturdiu, até mesmo me fez cogitar a hipótese de olhar de volta. Isso logo depois de ter encarado meus desafios em relação à fragilidade do meu corpo, em contraste aos sonhos que a imaginação pintou com todas as cores possíveis, não seja esta a questão.

De onde vinha aquele medo... não sei exatamente. Sei que me senti desprovida de apoio, além do chão em que equilibrava minhas pernas. Nada podia evitar o tão súbito encerramento do meu capítulo. Tentamos sempre iludir o inevitável, mas eu não tinha esta pretensão. Apenas delineava que não poderia ter sido só isso. Na verdade, poderia, e esta possibilidade corroia minhas possibilidades. Uma a uma.

Em tão curto intervalo, lembrei de um milhão de fotografias ainda por tirar, visualizei todas as etapas por vir do crescimento do meu filho, visitei os lugares ignorados, li os livros por comprar e tentei absorver o máximo de um futuro vacilante. Ao mesmo tempo, a angústia me transtornava, por tudo isso aí relacionado. Tirava minhas perspectivas de momentos vislumbrados, meu motivo para querer continuar vivendo. É impressionante como a vida ganha sentido quando evidencia sua própria falta de sentido.

Sobre aquele olhar, ao qual fui extremamente displicente, em todo o egoísmo de meus temores, e dele ainda extraí falsa impressão, apesar de tão absorto quanto sua alma. O olhar já não estava mais em meus pensamentos quando o corpo caiu, dentro daquele cubículo de oscilação vertical. Retornei à cena ao ouvir, Que isso, que isso, E ainda levei cerca de três segundos para entender o que acontecia. Acho que não queria acreditar.

O homem caiu. Por cima de duas mulheres no elevador, de frente para mim. Ele era novo, quem sabe um pouco mais de 30 anos de idade. Começando a vida. Ele caiu. No elevador, que porventura estaria vazio. O espelho estava lá também para receber sua cabeça, com estilhaços previsíveis noutro contexto. Poderia ser enquanto atravessava a rua em meio aos carros. Um sinal, uma esquina, um ônibus para pegar... automatizados seguimos sem nos importar com o que está a nossa volta. 

Já naquele ambiente, o tempo parou. A imagem congelou durante o passar de três segundos. Na verdade, devem ter sido uns nove segundos. Mas foram três bem determinados para cada vez, ligados por outros segundos sem muitos detalhes para narrar. Afinal, a realidade disputava território com meus pormenores. Podemos dizer que ali eram por-menores.

Sei que o olhar não mais existia. Eu o procurava, mas não aparecia. Talvez isso tenha me deixado inerte. O olhar que não estava mais lá. Apenas um corpo caído no chão, maleável como um boneco de pano, nenhum resquício daquele homem que parecia poder conquistar o mundo em realizações segundos antes. Agora dependia de alguém apertar um botão para se movimentar no universo. Para cima ou para baixo.


Raquel Abrantes

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Labirinto


Como a costura de uma meia-calça de antigamente, vai do calcanhar até as nádegas. E das nádegas até o calcanhar. Olhar vertical insinua o desvio da direção já traçada entre as rotas do dia e da noite. A percepção alcança a intensidade supérflua do relance, mas os olhos insistem em retornar, abertos por tremores enfeitiçados. Tenacidade de uma cintura cingida em carmim de outras terras. Lufadas traiçoeiras ameaçam levantar o vestido da razão, dando margem à imaginação das coxas insanamente vermelhas de tecido. Os conúbios mistos disfarçam sua reza, enquanto gravetos são atirados na lareira do ascetismo. Labirinto de emoções empareda a saída pela esquerda, trilha das desrazões, justificadas em um longo decote ocultado. A atração desenfreada entre o positivo e o negativo, o bom e o ruim, o branco e o preto. Sendo o branco a reunião de todas as cores do espectro, e o preto, a ausência de luz. Uma linha tênue divide o horizonte entre o real e o reflexo, como num espelho d’água. Intenções que decepam a cabeça da harmonia, acendem as fogueiras da inquisição. Pisoteio no largar toda a frivolidade da beleza, para exprimir da uva o vinho essencialmente encorpado, de múltiplos sabores, da madeira ao floral. Abro o caderno das anotações precursoras do hoje, para escrever as páginas do amanhã.


Raquel Abrantes

domingo, 14 de junho de 2009

Insensibilidade


Visão aérea de infrutíferos campos compelidos ao reinante descaso em toda a sua impessoalidade. Acrobacias inúteis no perímetro do horizonte passam despercebidas no transcorrer de hábitos inertes. Costumes insensatos trancafiavam o vírus do sentimento, nunca antes contagiado. Em sua mais pura inutilidade, o ar raro efeito tem sobre a consciência da respiração. Diafragma dilatado e contraído em movimentos involuntários. Como o pôr-do-sol. Quereres enigmáticos divagam aleatoriamente no oceano de teorias desintegradas. Da cruz retiro a dor, que tampouco tangencia os sentidos encobertos pela capa da alma, vestimenta rudimentar criada pelos alfaiates da resignação, nos moldes das grades carcerárias das emoções. Soslaios se revezam entre o esquerdo e o direito, atrás e adiante, norte e sul, sem bússola para consultar. Imaginando uma rota de fuga do inóspito reino da insensibilidade. Abstrações tornam-se o último refúgio da sanidade, ao lado da insistente neurose disseminada. Indiferente a possibilidades, cercada pelo vazio da exaltação ao duvidoso, cera derretida escorreu do lume originando sinais de vida, picos na pulsação, pontos altos que deslizaram pelas covas de um sorriso denunciador. Eventuais flechas lançadas para delimitar espaços dimensionais. Guardiã do inefável, rabisquei trilhas no mapa transcendente de mim mesma, seguindo o rastro dos instintos abissais. Sobrepujei as maquetes da imposição, tramei escavações soturnas, como um inocente condenado à pena de morte. Estradas e cruzamentos descortinaram progressivamente em meio à paisagem, desobstruindo veredas pulsionais em avalanches avassaladoras de empirismo. O sol amanheceu em sensações, sereno como a noite seguinte, devastador como a próxima, até o precipício das vozes ecoadas nas vidraças do existir.


Raquel Abrantes

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Acabamento


Leu em mim toda a história não-narrada, nas figuras imersas em porvir. Desde o será até onde teria ido, acaso as nuvens transpassassem o azul do remoto céu. Alheio a contrastes no cetim, juntou as pontas do tecido bordado (em autoconhecimento). Colcha de retalhos formadores de instigante complexidade. Na beira, foi trazendo consigo todas as alegrias adormecidas nesta cama, pouco a pouco, sem a velocidade do que ignora o horizonte. E entre desenhos e enlevos, pintou sua forma, guardada em algum canto de satisfatórias recordações. Embevecido de indescritível colorido, o tecido experimentou outros tons, degradês crescentes de euforia, ladeando o belo acabamento de uma junção reformulada dia após dia...


Raquel Abrantes

sábado, 6 de junho de 2009

Inverno

Olhar vertiginoso cruza minhas esquinas toda vez que a natureza permeia possibilidades. Propostas moradoras de outros países, delimitados pelos espinhos das flores concedidas no efêmero toque de recolher. Alinhavo meus poréns nas suas dúvidas e teço nesta lã o inverno que virá me visitar sozinho, trazendo arrepios pelos quais me aventurei despretensiosamente, na esperança de acertar. Deserto de razões me espreita, curioso atrás da montanha, e vou leve, fugaz, como nunca tivesse estado lá. Calem-se as buzinas enquanto o silêncio predomina a paz que precisa acontecer. Alerto o mar para me receber, inteira, calma, cortante como a luz opaca. Vívida rasgo, vergo e ilumino... o além-de-mim-perceber.


Raquel Abrantes

sábado, 30 de maio de 2009

Não foi tão bom assim



Não foi tão bom assim, ele disse, apenas abri a porta que estava na frente, sem a outra fechar. Criei um canal entre minhas vontades, desconsiderei as chaves diferentes que deveria usar. Deixei o vento invadir a passagem, fazendo a porta bater, esconder o que queria olhar. O peso do chaveiro rasgou meu bolso e quase fiquei sem portas para entrar. As viagens imaginadas para algum destino foram trancadas do outro lado, junto ao menino que não pude conhecer, nem tive chance de brincar. Tudo tem seu momento, umas coisas mais, outras, menos tempo, depende do acordo e se aguento a carga que devo carregar. Todavia não consigo disfarçar meu contentamento assim que você esbanja alegria em seu modo de andar. Faz parte da natureza masculina, não posso evitar. Não foi tão bom assim... mas apareça quando puder... E sua inspiração, como está? A editora voltou a te procurar? Estou chegando lá, começo a escrever já, já, você vai ver, se a porta entreaberta ficar... Sabe que te respeito, só não levo jeito pra essa coisa de me humilhar. Deixo o tempo assumir o rumo dos pensamentos que preciso sublimar...


Raquel Abrantes

terça-feira, 26 de maio de 2009

Ninguém ligou


No dia seguinte, ninguém ligou. Quando fiquei mais velho sozinho no meu canto, apesar de ver claramente a cruzada de pernas no sofá, acendi o cigarro, da marca que ela fumava, e deixei queimar no cinzeiro, para ver se o cheiro do perfume surgia junto no ar. Fui dormir e deitei do meu lado, o esquerdo, e do outro coloquei o travesseiro para ter o que abraçar. Jogava as pernas por cima, eu costumava envolver o corpo dela antes de desmaiar. Tentei pensar no trabalho, mas sonhei com o vermelho do vestido... sem o corpo que mexia comigo. Como pude esquecer aquela data, hoje lembro de todas, incluindo as que criamos para comemorar. Ligava a televisão e ela, o som, disputávamos o ambiente, por nossos gostos diferentes, agora a tevê virou apoio do retrato que não paro de olhar. Cada vez é mais difícil o suplício de aceitar a lâmpada que fiquei de trocar, a parede que deixei de pintar. Sorria todos os dias pela manhã... e não pude acreditar. Ninguém ligou no dia seguinte.


Raquel Abrantes

sábado, 23 de maio de 2009

Padrão

Através do espelho, Fabiana exteriorizava sua insatisfação permanente com a realidade. A sobrancelha era torta, assim como as imperfeições de seu rosto, e os cabelos brancos saltavam da franja que tentava disfarçar o passar dos anos. Reservados momentos de agonia na tentativa de aprimorar as naturais irregularidades, comuns aos seres humanos.

No ventre daquela mulher, oco de vida, jazia a infelicidade prometida por sua angústia de existir. Cada contorno do corpo denunciava a ansiedade de sua fome desmedida, ao mesmo tempo em que as roupas eram rigorosamente passadas, em seu padrão quase perfeito de aparência.

Mas ela sabia que ainda podia melhorar. E, por mais que seus microscópicos incômodos escapassem às vistas dos outros, o contentamento estava longe. O banho servia para apaziguar o tormento, enquanto a mente continuava operando incessantemente para que nada fugisse ao controle de sua vontade.

A toalha dobrada no canto esquerdo da parede lembrava um anúncio de hotel e os chinelos, simetricamente posicionados logo abaixo, encerravam o ritual de sua saída do chuveiro. Tudo da mesma cor, como para estabelecer o equilíbrio que ela tanto procurava.

O marido de Fabiana sempre a aguardava na cama, com a terrível mania de enrolar o lençol entre as pernas. Coisa que ela detestava. Ia amassar e ficava tão desagradável aos olhos... Ela precisava reclamar toda noite para que o cenário fosse digno de um filme de Hollywood.

Até que o filhote de labrador corria em sua direção e a alegria iluminava sua face por alguns minutos, antes de limpar as patas e o traseiro do cão, que não podia ficar sem perfume. Os pêlos eram escovados diariamente, cem vezes para um lado, cem vezes para o outro, antes de se deitar.

Era uma vida quase perfeita. Ela se esforçava para isso. Seu marido era um bom homem, que entendia a dedicação daquela mulher, determinada em ser a melhor esposa que alguém pudesse ter, a mais vaidosa, a mais caprichosa, a mais bem-sucedida, a mais inteligente e a mais exigente.

As pernas do casal se cruzavam embaixo dos lençóis, como as de qualquer outro no meio da noite, ensaiando o início do descanso merecido após um dia de trabalho. Ele se aproximava ansioso pelo carinho lento e progressivo de seus lábios, invadindo o espaço oposto ao seu, sem pedir licença, na busca do prazer que o fazia continuar. Fabiana abafava as palavras no sentido da euforia, resumindo o assunto para que conversa fosse rápida.

Afinal, no dia seguinte era preciso acordar cedo para preparar a mesa do café da manhã, escolher a roupa do marido, arrumar a cama, e levar a vida da maneira mais organizada possível. Limpa e combinando. Ele admirava aquela dedicação e sabia que não era fácil encontrar uma esposa assim, tão esforçada. Além do que, filhos podiam ser adotados... mas, de qualquer forma, davam muito trabalho para limpar, arrumar, padronizar...


Raquel Abrantes

sábado, 16 de maio de 2009

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Saudade do que
não lembro mais
sonhei perder
esqueci conquistar
A vida não vivida
vivências mal-ditas
Quase sórdido
tempo fluído
estampado
na marca de batom
que o vermelho deixou
temporariamente
em sua lembrança.


Raquel Abrantes

sábado, 9 de maio de 2009

Desassossego

Engasgado com pílulas de nervosismo, Jonas recorre a goles de alegria nos momentos anteriores à comemoração. Tem a visão do churrasco... com amigos, companhia feminina e pessoas que ocupariam cadeiras no evento. O que não importava esquecia facilmente. (Não importava?)

Na comemoração dos vinte e cinco anos, um quarto de século ocupando a vida não encobria o fato de conseguir destaque por seu metro e noventa de altura. Aliava uma presença descontraída e atraente à gangorra de suas atitudes.

A roupa que ia colocar seria a primeira que suas mãos alcançassem. Nem mesmo o conforto tinha vez na impossibilidade de escolha. Cedo, seus olhos já denunciavam a irritação concedida pela abstração química. E sua mente dividia espaço com seu corpo entre os amigos, em duas dimensões que se cruzavam, metamorfoseavam seu estado de espírito.

Letícia chega como o estardalhaço de fogos de artifício na cabeça dos convidados. As pessoas mais próximas ao aniversariante se entreolhavam, um tanto constrangidas, estupefatas com as exaltações daquela estranha íntima.

Já habitando a estratosfera com a fermentação alcoólica, Jonas ri se esquivando das palavras nada intencionais de sua parte. Sua dissimulação sustenta a autoconfiança na qual precisa se apoiar – alça a si mesmo em sua capacidade de representação.

Ele não precisa dela. Aquela mulher que invade seus sonhos como um cometa, mudando a ordem temporal dos acontecimentos. Que adentra seus pensamentos, apesar de ébrio e longe do cadafalso.

Nem tanto, eu não estou pensando nela. Eu vivo a história, posso contar de forma bem mais eficiente. Mal posso acreditar nisso... Vanessa me ligando. (Logo agora, que assumi a narrativa!) Como poderia dizer algo, sem dizer o que não posso? Não posso.

(...)

Certa insatisfação aterrissa apaziguando a empolgação de Jonas. Apesar dos inúmeros bem-sucedidos términos e abandonos, este era o menos motivacional. Enquanto sua visão percorria o corpo de Letícia, ela tentava se infiltrar como uma espiã em seus devaneios. Ele a conduz discretamente para fora da casa, encostando-a em um carro que se banhava na lua cheia.

No melhor dos cenários, as gravuras se desfaziam. Escorriam manchando o chão para o qual Jonas olhava em busca da harmonia roubada pelo céu. As estrelas deixaram rastro no caminho até sua nostalgia e o passado já demais tardava.

O encerramento do churrasco no meio da noite (e meia) leva Jonas a se desvencilhar do primeiro encontro marcado, que evaporava ao infinito de possibilidades. A fascinação pelo o que eleva sua graça, ao mesmo tempo intriga suas expressões, num paradoxo inevitável. Por não querer há tempo demais, queria muito agora.

Aquela voz... determinante e determinada, em seus critérios e desprezos. Na obscuridade de sua alma, entre a pele e a carne, ali morava. Onde justa posicionava o perigo. Aquela voz frisada, partida, do desassossego aos sentidos.

Vanessa, posso pegar minhas coisas?


Raquel Abrantes

domingo, 3 de maio de 2009

Quais seriam as palavras?

Entrei distraidamente naquela visão. O som e as cores de uma respiração agitada, mal-humorada, arrancaram meu ar abruptamente. Exercendo papel de destaque perante o resto dos mortais, ela esbanjava a certeza de não ser enganada, na simplicidade e na juventude de movimentos determinados. Detinha conscientemente o poder sobre quem a olhasse.

A carta continuou em minhas mãos trêmulas e a silhueta me encarava desdenhosamente... até mover o rosto, consentindo minha participação no futebol de mesa. Me aproximei imediatamente. Honrado estava ali em pé, enquanto a rapidez dos braços dela no jogo incitavam... Incitavam a abertura refletora entre duas ondas perfeitas. A inocente maldade de esconder a bola entre os lábios... e depois atirá-la, liberando desprezo. Traduzia a benção da qual precisava para minha absolvição.

Virou-se e seguiu em direção ao bar sem desviar a atenção concedida a seus deveres. Segurava com firmeza os copos atingidos pela correnteza da água da bica. Fui incapaz de emitir qualquer ruído. Sentei de frente para ela e me mantive contemplativo. Ela não pôde traçar o prognóstico de mais um, dentre os muitos que já devem ter abusado de sua simpatia.

Perguntei seu nome. Foi a nossa primeira conversa. Mas a garantia do diálogo será um poema capaz de descrever a doença que ela me transmitiu em apenas dez minutos, e da qual não quero me curar jamais. Sim! Estou dentro de seus cabelos enquanto pronuncio as palavras penetrantes em seu coração; mas quais seriam as palavras?


Raquel Abrantes

(inspirado em O Carteiro e o Poeta)
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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Chuva



Começou a chover em nossos pensamentos de procurar abrigo. As gotas no vidro olhavam pra mim abstraindo a graça do verão. Do brilho que fazia tudo rir, estava cinza e opaco entre nossos lugares... que não se encontravam. A rua era a mesma, apesar da mudança da estação, e não resistimos ir em direção ao reconhecido. O guarda-chuva cobria parcialmente nossos corpos, que mantinham certa distância (recomendada) em meio ao frio que tentávamos enganar com o suor do reencontro. Nas suas palavras, minhas expressões acalmavam, incentivando a beleza que sua vontade inspira (calada). E na transparência dos seus olhos me despia, encoberta pelo medo, incerto do momento. A troca de mãos sobre a haste que nos protegia permitia o mínimo contato, velado e contagioso. O quanto já sabemos da vicissitude dos fatos me queria mais que a você e, alerta, me propus a ir embora. Você deixou que me partisse, inaudita de conhecimento e imune de sentimentos que não pude perceber.


Raquel Abrantes

terça-feira, 28 de abril de 2009

A necessidade...

A evidência de que precisamos da dúvida para viver me afasta da morte, e conforta minha necessidade pelas respostas.

Raquel Abrantes

sábado, 25 de abril de 2009

Inominável,

Em cada momento que sua respiração me perseguia, era como se a vida acontecesse. Seu olhar me devastava intimamente, com a camuflada certeza da felicidade. O que se sucedia ao acaso, era verdadeiramente intenso no fazer a dois. Mas não no saber a dois.

Os pares se dissipavam na transcorrência dos episódios, que mudavam e transpiravam diferenças na falta de informações cruciais para o alcance da prosperidade. Suscetível aos sabores da consciência parcial, me deixei levar pelo sorriso franco e desleal de uma lembrança distante.

Com que amargura te fiz feliz? Com que loucura te trouxe dúvidas em relação à maldade? Fui capaz de estabilizar por alguns segundos suas inconstâncias? Vejo que não era nada que pudesse atribuir a minha capacidade.

No decorrer das horas memoráveis, me entreguei ao que supunha poder desvendar. Enganei minha sensibilidade, vestida em determinação e prepotência. Intencionalmente, prossegui na desbravada tentativa de consolidar o inexistente.

Me dediquei ao acolhimento da angústia, à substituição das ausências e ao cuidado com o que considerava sublime. Depositei energia mental suficiente para ressuscitar, no que não pude vencer a morte. Os becos execráveis da dissimulação me deixaram sem saída, e o fracasso na alienação me conduziu ao retorno para casa.

Se tenho esperanças, elas concernem a mim. Esta casca fina e vulnerável que me envolve mantém meu coração pulsando, neste irrevogável talento de continuar acreditando. Acredito que um dia poderei ouvir de longe os gritos; sinais de destruição de um caminho... que ainda não escolhi.


Sinceramente,

Leda.
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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Acaso

Lista de afazeres enorme, horários marcados para a manutenção da beleza, num dia qualquer, numa loja qualquer. Problemas práticos para solucionar, no intervalo dos constantes devaneios. O telefone vibra no bolso interceptando minha vontade, redirecionando meus caminhos e adiando os compromissos em favor de uma sensação indispensável e renovadora. Boas notícias trazem um prazer eventual, mas permanente.

Quanto é? Certo, aqui está, obrigada, tenha um bom-dia! Parto em direção à tão esperada paz.

Os preparativos me dominam naqueles prévios momentos, enquanto esqueço um pouco do relógio e vislumbro o que terei em breve. Som da campainha, me apresso, vou totalmente e abro a porta. Cumplicidade indiscutível se abraça e dispensa comentários no aproveitamento completo dos minutos que temos a seguir.

Gestos que se entendem e correspondem o que é correspondido. Aquela harmonia de percepções delicadas, bruscas, consecutivas, num acaso sempre bem-vindo. Lado a lado das expressões saudosas, estimulantes no processo do quero mais. Insistentemente cada movimento se estabelece, formando memória que sobrevive até o próximo olá.

O depois sorri e comemora, naturalmente. Palavras que trocam conhecimento e novidades do cotidiano se cruzam na companhia aproveitada durante todo o tempo. Novos planos são traçados no papel dos trajetos mais rápidos até nossa confraternização. A hora escapa pelos dedos da nostalgia, ainda pouco narrada, mas cheia de pretensões.

Entro no carro, ponho o cinto, os óculos escuros e os afazeres se lembram de mim. O cavalheirismo sacramentado permite a despedida que nunca se despede, deixando a alegria passo a passo em meu andar. Aceno ao eterno retorno... que parte a seu destino liberando rastro de luzes reluzentes, coloridas, na leveza do estar.


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sábado, 18 de abril de 2009

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Deus

me deu

a dúvida

de crer

em tudo

que ele criou

e a chance

de criar

tudo em que

ele não crê


Raquel Abrantes

Regras

Olá, seja bem-vindo, entre. Aqui está sua escova de dente, sua toalha. Estenda suas roupas ali, não aqui, por favor, entenda. O seu lado da cama é o direito, o do armário, o esquerdo. Use o sabonete branco e não deixe as coisas por aí, em qualquer canto. Se sujar, não deixe de lavar. Se quebrar, não tem problema, esquece, isso acontece, mas junte tudo com a pá e coloque no saco, enrolado no jornal. Assim não faz mal para quem for pegar. Não esqueça de ligar se for se atrasar e lembre do nosso jantar, depois das dez e antes da meia-noite. Coloque a cadeira embaixo dos pés, enquanto rimos do programa evangélico, me faça cafuné e alivie meu cansaço com um longo abraço. Quando meus olhos começarem a baixar, me leve para a cama, me cubra e pode fazer o que quiser depois, mesmo que não seja a dois. Até que seu corpo peça pelo descanso, que vai falar mais alto num momento, venha para meu lado, sem nenhum tormento, e fique aconchegado. Quero sentir seus braços de madrugada me trazendo de volta de um sonho ruim enquanto você me guarda e se envolve em mim.
A porta estava aberta, desculpe incomodar, mas eu tive que entrar pra te ver. Chove muito lá fora e estou doente, mas estava frio na minha casa e não pude evitar aparecer, só pra você saber. Faço algo para a gente comer? O que você quer fazer? Eu quero ficar, esse é o meu lugar, em que posso melhorar? Não se preocupe com o que sinto, prometo que nunca mais minto e trago sempre um beijo quando chegar. Farei o que puder, sei que às vezes esqueço do horário, sou um tanto relapso com o tempo, que corre como o vento e não vejo passar... Isso não significa que você não esteja em meu pensamento e eu não queira chegar. Sente aqui do meu lado para eu te abraçar, quero ver você sorrindo, gargalhar. Assim me sinto sortudo, torna a minha vida mais fácil, menos à parte de tudo e com algo a desejar. Se precisar de mim durante o dia é só ligar, vou atender num instante, sem deixar o telefone na mesa e me afastar.

Raquel Abrantes

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Qual

Pensamentos dominam minha mente com freqüência obsessiva. Aquele desfile por onde ela passa, sua quebrada de cintura acentuando as notórias curvas. Cada fiapo de cabelo erguido para o rabo de cavalo vai libertando pouco a pouco o dragão que mora em suas costas. Aquela figura mitológica que desperta meus instintos mais profundos em sua negritude inanimada... Posso vê-lo atear fogo em meu confinamento. Mantenho a distância.

Os objetos que escapolem do sossego de seu abraço, percorrendo o piso, sugerem uma admirável operação de resgate – sempre bem-sucedida. Principalmente para os expectadores do imprevisto, que preferem os bastidores ao papel principal. Talvez por medo, talvez por coragem. Coragem de recusar o que nunca poderia estar aos seus pés. Nem mesmo em sua cama. Na lista de compras do supermercado. Na escolha do longa-metragem de um feriado à base de macarronada preparada a três mãos.

Ah, Luana... Luana? Qual... Esta companhia no prosseguimento dos dias, que na incerteza do amor estabiliza minhas dúvidas na complacência dos seus ombros costumeiros. Que na exatidão dos horários e compromissos mantém meu carinho direcionado a ela, jogando conforme as regras de um relacionamento confortável. Que atura meus desatinos fracassados e não os supera nem pretende, e me desarma com sua maré azulada, branca, mansa.

Ou essa Luana imprevisível, que parece o avesso da minha verdade? Que provoca minha ira com sua petulância exuberante. Que evidencia absurdamente seus desejos contaminando com sofreguidão o meu tão estimado pesar. Que se transforma de sol em lua na velocidade da luz ao ouvir dizeres menos adequados.

Aquela insistência de exigir sempre além, de olhar meu rosto em um espelho que não me reflete, mas que através do qual chego a ela e a uma parte de mim que desconheço. Sua necessidade de debater o motivo do debate, contestar a origem do que começou e encerrar o que acabou.

Me perco nas elucubrações que admiro, vôo sem radar que me guie no infinito da convivência idealizada. Tranco o arrepio no peito e deixo crescer no rosto a imagem da liberdade. Paradoxalmente. Como desvio o toque do factível até onde minhas forças permitem e homenageio desonrosamente toda a sua inteligência genética... no momento diário de purificação do corpo.

Raquel Abrantes

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A vocês

Desculpem. Em primeiro lugar, me desculpem. Não tinha mais ninguém a quem recorrer neste momento de escravidão e imobilidade social. Tenho tido pensamentos estranhos... preciso de calmantes... talvez um psiquiatra... mas é inviável.

Os dias sucedem as noites... que duram uma eternidade até o nascer do sol... atualmente minha única companhia. Sinto como se minha função no cenário tivesse acabado...

Vocês me davam uma razão... um motivo. Tenho consciência de que me usavam, mas eu servia para alguma coisa. E era para algo que despertava a alegria dos olhares...

É melhor que tirem proveito de nós a não ter nada que confirme nossa existência.

Por favor, irradiem novamente oxigênio sobre mim, em meio às palavras transversas e circunflexas da confusão.

Se as nuvens ficarem carregadas, em detrimento da leveza, o céu vai chorar, escorrendo todo o pesar até o nascimento das flores... Flores germinadas pela satisfação que vocês emanavam...

Sinto falta dos longos debates, fervorosos e inquietantes, que sobressaíam ao escapar do tempo... Algumas verdades individuais soltavam, outras mentiras desenhavam... entre sorrisos e gracejos se perdiam... e se encontravam.

Casos narrados, também os encobertos, traziam vida ao inanimado... Podia me ver como parte integrante do processo de bem-estar exalado... do que tinham de sobra... e me emprestavam.

Aqui, ali, lado a lado, as bases do que aproximava as estrelas da escuridão traiçoeira, esquecida no campo em que o mato cresceu. Cresceu e escondeu os pés de quem andava distante... errante.

Acuado aqui estou... sem ver a lua, que teimou em se vestir.

Tenho medo do escuro... escuridão que arrepia o sereno... abandonado.

Suplico pelo ardor do sopro de suas vozes, novamente libertando a noite... tão profunda e inatingível quanto a fortaleza que os afasta da paisagem...

Rabisquem novas questões... dancem elas ou corram... tanto faz. Desde que os levem ao esconderijo das emoções, soltem os vaga-lumes e inspirem a gravura que se desfaz... escoa... por entre os dedos que não vejo mais.

E lembrem-se: estarei sempre no mesmo lugar, para apoiar suas incertezas, comemorar suas conquistas e receber o carinho desse toque inevitável...



Nostalgicamente,

o banco.


P.S.: Não deixem de escrever.
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sábado, 28 de março de 2009

Imanência



A santificação da garrafa de uísque levou a uma empolgação que não cabia mais no apartamento. Era hora de sair. Iridescente como a cortina de miçangas, a dona da casa atravessou o corredor abrindo caminho até a noite, que mal havia começado. Amigos da categoria mais próxima a acompanharam na busca por uma diversão que aliasse todas as expectativas.

Nada era claro, endereços, ruas, e nas várias voltas de táxi pela cidade o motorista ficava mais rico. Pararam. O local indicado, completamente vazio, abrandou o efeito da bebida, que antes fervilhava no tórax.

Com pouca quantia nos bolsos para prosseguir a peregrinação, o grupo hesitou na travessia. As horas fluíam e a insatisfação alarmava a sede coletiva. Bia, até então, tinha fracassado na tentativa de entreter seus visitantes.

À esquina, cintilava uma abertura discreta que chamou pela curiosidade. Bia adiantou-se até o segurança na porta, que arregalou os olhos com a presença daquela mulher que andava por cima do arco-íris.

Era um desses lugares em que o prazer tem preço e sofre a restrição do tempo. Um prazer do qual não há lembranças nem sofrimento, apenas alívio. Satisfação à espera de seus freqüentadores, que deixam a humilhação do lado de fora, enquanto negociam gotas de felicidade.

Autorizada a presença feminina, os amigos exploraram o inusitado da situação: um cubículo ao comprido, no qual paredes enegrecidas se uniam ao banco pintado que acompanhava toda a sua extensão, em um único ser. Ao fundo, um bar assistia ao palco, pouco elevado do chão, que centralizava um mastro de ferro. Os momentos particulares eram reservados ao andar de cima.

Moças exalavam o odor acalorado da profissão, enaltecidas. Uma pequena rodopiava com sua imaginação consumindo o ferro em seus movimentos bamboleantes. Algo já corriqueiro aos clientes da casa, detinha a atenção dos amigos que aterrissaram ali em função de um destino incerto.

A mente de Maurício era a que mais se aproximava à de Bia. Comportamentos espontâneos sobressaíam em suas atitudes, que sugeriam planejamento maquiavélico pela similaridade de pensamentos e opiniões. Juntos, costumavam se divertir pelos mesmos prazeres, sem o temor da reprovação dos expectadores.

Diante do mastro vazio (no intervalo das moças da casa), a sensualidade irradiou através de Bia enquanto os olhos de Maurício reverenciavam o exibicionismo. Era um chamado do palco por suas fantasias encobertas pela impossibilidade – ambos gostavam de receber os holofotes.

A seqüência perfeita de três músicas costurou suas capas de performistas. Os giros revezavam-se contagiando o mastro – eram deuses num parque de diversões improvisado. Ela estava toda ali, com a segurança proporcionada por seu amigo Maurício, e juntos subiram nos devaneios do sangue, largados na sustentação de ferro.

Como estrangeiros no lugar, transformaram o hábito dos freqüentadores em sonhos inéditos naquela noite, sem exigir retribuições. Bia alternou as insinuações de seu corpo, à vontade em meio aos olhares persistentes. Os cabelos voavam descobrindo novos ares; impuros, mas benéficos. E Maurício se libertou das amarras do cotidiano, elevando-se sinuosamente pelo palco.

Carlos e Fernanda compartilhavam seu constrangimento no bar, esboçando sorrisos tímidos, enquanto a espuma da cerveja amenizava sua falta de opção – excluindo a de recusar o convite dos amigos para participar da ousadia.

Em meio à rapidez do evento, a caixa de som elogiou com veemência o desempenho daquela mulher inesperada, que esticava o pescoço para os lados tentando descobrir o dono das palavras – sem se desconcentrar de suas peripécias. As risadas de Maurício acentuavam o destaque daquela voz de exaltação... Até que a entrada do funk enfraqueceu a determinação da brincadeira.

Uns trinta pares de olhos seguiram os dois na descida do palco, instalando certa tensão em sua permanência. O ar sufocava o grupo naquele momento derradeiro, em que as moças (que trabalham ali) estampavam ofensa. Os biquínis brancos retornaram ao mastro, delimitando território e exibindo know how.

Era preciso partir (correndo). A expedição durou coisa de meia hora. Do lado de fora, respirando novamente, os amigos continuavam sem entretenimento – traumas à parte. E o uísque (da barriga de Maurício) não parava de enaltecer a necessidade de prosseguir na madrugada.

Raquel Abrantes

quinta-feira, 26 de março de 2009

Melodia

Olhar vidrado dele sobre ela emanava ondas elétricas correspondidas na proporção das notas musicais. E o espaço entre os dois se derretia com o aumento progressivo dos batimentos. Ambos estampavam sorrisos ansiosos – guardados no mundo feérico da dimensão abolida. Imagens em seqüência acompanhavam a letra da canção, como num daqueles filmes em que o diretor omite o final. A tensão, outra vez, confrontava-se com a arte de sublimar... Os devaneios frustrados cederam lugar à dança de gestos nervosos que insinuavam o enfrentamento. Brutos, os dedos alisavam a barba freneticamente, enquanto unhas vermelhas passeavam despretensiosas pelos cabelos castanhos, como um ritual de iniciação. Nada além do céu e do som, seus desejos se entrelaçaram, desesperadamente. (...) Aptos estavam a trilhar o caminho para onde se pertenciam. A melodia emitiu sua última nota.

Raquel Abrantes

domingo, 22 de março de 2009

Na última vez



Minha angústia andou do meu lado o dia inteiro... até nos encostarmos finalmente. Na verdade, eu estava pisada. Pisada pela melhor oportunidade da sua vida. Projetos te levaram a um otimismo que nunca fui capaz. As perspectivas derrubavam cada gota restante de segurança que eu pudesse ter (nos meus olhos). Os pensamentos passavam carregados pela sua testa até o meu queixo. Sua irascível reação suprimiu qualquer brilho que restasse em meu sorriso. Quando seus punhos se tornaram mais evidentes que seu carinho, entre ameaças e tons ríspidos, entrei em uma jornada compulsiva para desvendar o mistério do ataque do seu estômago. Não pude crer no que tinha sobrado daquele conversível vermelho que a gente dirigia em meio ao rock e ao pop. Sucumbi de minha revolta em paliativos dormentes, fugindo da recente realidade que estragava o gosto da felicidade. Sua visão me cegou na última vez que te vi. A alegria me esqueceu quando o enfretamento do desejo foi embora. Nosso mundo estava longe... não ouvia nem mesmo um eco. Sua consciência o alertou, entre monstros e bruxas, mas nada ficou em seu lugar. Minha imaginação perdeu a criatividade e, continuando a te querer, procurou te esquecer. A vida tira, dá, e nos torna cada vez mais herdeiros de nossas verdades. Há mares de distância, minha dor ficou incompleta... até se perder nela mesma.

Raquel Abrantes

terça-feira, 17 de março de 2009

Vou na pensão

Meio-dia. Feijão, arroz, bife, farofa. Hoje tem.
Vou na pensão... com ninguém.
Eu e meus delírios... agora cativos.
Seguindo com Drummond na bolsa para garantir a diversão.

Pensamentos quando sempre me perturbam
levanto a dúvida da existência
Não há como retrucar.
Enquanto isso, minha vã consciência do mundo
Me deixa bem no fundo do meu ser... que não encontro o fundo.

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sexta-feira, 13 de março de 2009

Chegar em casa

Primeiro, desafivelo as sandálias... pés descalços andam ansiosamente pela casa até o banheiro. Desprendo o fecho do sutiã por baixo da blusa. Tiro um braço, depois outro braço e me livro daquela prisão. Lavo o rosto. No espelho, vejo o reflexo do meu dia, enquanto a saia descola satisfatoriamente do corpo e se arrasta pelos quadris, pernas até o chão.

O suor implora pelo vento na pele (inundada), e as demais peças tornam-se também desnecessárias, na trajetória até o ficar à vontade. Ligo o ventilador e deito no sofá vermelho que me acolhe e acalenta, cheio de desejos...

Afundada na perplexidade por acontecimentos ainda frescos, a bonança me acena avisando que vai chegar. E não consigo parar de olhar para ela... bem ali... Enquanto enxergo os benefícios de ser eu mesma, na mente e na carne, minha consciência se delicia... em um deleite absurdamente egoísta.

Raquel Abrantes

quarta-feira, 11 de março de 2009

Nem uma gota

Nem uma gota. Nada escorreu pela vala que percorre o caminho – até o lugar de onde as palavras não saíam. Um buraco negro se expandiu humildemente em uma ânsia de vômito inesgotável. A angústia estomacal abafou toda a exaltação daquele sentir, que era meu. E o valor do que antes emanava anulou a função das respostas, costumeiras de um processo niilista (e cansativo) de um algo que nunca se pensou. Abri a janela da vida e quis escalar os prédios... do meu próprio mundo. E ele deve ser digno das translações e rotações devidas ao ser (humano). Nem uma gota caiu.

Raquel Abrantes

Nosso banco


Quando primeiro te vi, olhava a sua figura meio a parte do ambiente e me perguntava quem era. Havia um charme, mas parecia apenas um maquinário qualquer, como tantos que cumprem sua função no sistema. Por convite de outros, trocamos as primeiras palavras, que fluíram num jogo de significados e significâncias fazendo o assunto transbordar dos copos de cerveja... E o agradável encontro de debates e argumentações se repetiu. E se prolongou. E de novo... até virar hábito. As conversas suavam de dia e evaporavam de noite até as nuvens, enquanto podíamos nos confessar. Confessar nossos crimes contra a humanidade vigente, carente e conformada com a rotina do mais ou menos. Do tanto faz. Não, não tanto fazia. Não para nós. No nosso banco ao pé da árvore, podíamos falar e ouvir alguém que entendia e se fazia entender, sendo cúmplices da subversão que agride a maioria. E algo finalmente aconteceu. E se repetiu até se tornar necessário. (...) Mas o banco não era grande o suficiente para nós... E o necessário ficou pesado demais para ser carregado. Nossa imaginação viajou sacudindo a percepção da realidade, que eu já não sabia mais qual era. Não sabia mais com quem me confessar. A dor tomou conta do meu desejo e os cacos se decepcionaram. As mentiras nos magoaram e chutamos as promessas. Tudo virou nada. Mas foi perdida nos seus delírios que pude me reencontrar nas histórias dos livros que você tanto falava... E descobri outra forma de confessar meus crimes, naquilo que passei a colocar no papel. Agora, não sabemos se algo pode ser recuperado ainda. Mas, agora, tanto faz...

Raquel Abrantes

terça-feira, 3 de março de 2009

Madrugada


De madrugada, todos parecem os mesmos. Os mesmos lugares, as mesmas atitudes, aquela impressão falsa de alegria. Um contentamento raso daquelas pessoas encostadas no bar, na mesa de sinuca, forçando passos sem graça na pista de dança. Sorrisos sem charme (pela falta de gosto) olham pra você enquanto sua vontade quer o agradável ambiente da solidão. Um gole, um pulo, um tempo perdido. Às vezes, quando viver se torna uma obrigação, já não sabemos mais o que é vida. Viver naquilo que se repete e sufoca não pode ser viver. É uma questão de referência. Enquanto algumas pessoas querem a noite, outras querem algumas horas num quadrado escuro. Enquanto uns buscam as estrelas, outros olham para as latas no chão. Não quero tropeçar pela degradação e falta de vislumbre. Quero subir a escada da tarde até a madrugada entre pensamentos que me levem a menor consciência que seja das fases da lua. Me confortar na busca de um saber inalcançável, mas discutível, e esticar as pernas na relaxante dúvida do que é certo e errado, fazendo o que cabe a mim mesma.

Raquel Abrantes

segunda-feira, 2 de março de 2009

A viDA

Você SEMPRE vai quebrar a CARA...


... e você SEMPRE vai ficar de PÉ de novo.


HAhaHAhaHAhaHAhaHAhaHAhaHAhaHA

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domingo, 1 de março de 2009

Monstros e bruxas


Nunca vou esquecer do ataque do monstro chamado Fúria, que me tomou de assalto, de lado, de costas, deixando apenas lamúria. Quanto mais a Fúria eu tentava acalmar, mais ouvia o monstro berrar e se libertar. Assim, sem mais nem menos, sem motivo aparente, continuou a mostrar os dentes.

Mas a Fúria foi descuidada, acordando a incrível Revolta, que se revoltou diante da história e combateu (o descontentamento) com indescritível tormento! Trovoadas nos arredores da luta, cabeçadas e disputa, nesta interminável labuta de lidar com monstros e bruxas.

Finalmente, no fim de tudo (como no fim de todas as coisas), a Fúria evaporou-se como se nada houvesse sido e da destemida Revolta ficaram apenas os gemidos.


Raquel Abrantes

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

...

Deitada naqueles momentos entorpecentes
vistos de longe...
me afoguei nos goles com gelo
e peguei fogo nos rolos infames

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Mares

há mares
a-mares
ar-mares

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Enfrentamento do desejo


– Sabia que eu te amo?

(...)

– Você ouviu o que eu falei?
– Ouvi, que você me ama.
– Ahh, você ouviu isso?
– Ouvi.
– Mas você não seria capaz de dizer o mesmo...
– Você não acha que é muito cedo pra dizer isso?
– Não, não acho.
– Acho que você vai enjoar de mim.
– Até agora, não enjoei...
– Mas vai...
– Não, não vou...

De Celso Salim, aquele blues respondeu por mim a confirmação esperada por ser liberada, ansiosamente. Apesar da certeza, a necessidade veemente pela beleza me levou ao confronto das palavras.

Ambos admitimos a culpa, e rendidos aqui estamos, no enfrentamento do desejo. Um misto de indefesa ao sentir com esses ombros que acolhem e a barba que arranha e realiza.

Seres mesclados e ocupados, funcionamos à capacidade total. Totalmente sua, Totalmente seu. Minha, Meu. Pronomes possessivos consagram a existência de uma congruência, e aceitamos os termos ri-go-ro-sa-men-te.

Nas várias refilmagens do mesmo, a criatividade tomou conta do roteiro (sensacional). Foi por este mesmo irrefreável, parceiro, que a vontade se vestiu de vermelho e declarou feriado nacional. Enquanto sussurros dominavam tímpanos afoitos (codinome), o corpo reagia com volúpia para todos os gostos, ao que desenfreado me consome.

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domingo, 15 de fevereiro de 2009

Eco


Sexta-feira vai dormir. O recorte das folhas na mata sobre o vermelho píncaro da noite acolhe os ânimos abandonados. Vento frio aquece a alma ao encostar o rosto.

Ideal, quimera de nascença, deixa sua ausência representada pela esperança... Que (traiçoeira) brota de palavras recitadas, ecoadas através do oceano. Incontrolável desengano.

Talvez o barulho do telefone tocando tenha me distraído de mim mesma naquele momento nostálgico e reflexivo. Ao atender, algo apontou para um calor em direção ao meu peito apesar de ouvir nada. Uma certa familiaridade no ar que respirava eu.

(Alô? Alô?).

(...)

Era nada.

Apenas uma tênue demonstração de saudade, embuçada pelo contentamento com o timbre preciso, arrastado e estonteante (de quem se quer e lhe é determinante).

Em companhia de uma agonia silenciosa deixo-me levar pelo cansaço. Sem resistir, meu corpo se deita. E encaixa.

Horas mais tarde (ou mais cedo), um retorno da madrugada se faz pela recaída da aparição. Enquanto minha ignominiosa paciência atende mais uma vez o aparelho, há quem reage confirmando pulsação. Entre olás e bulícios, a eloqüência de uma torpe voz extenua toda a minha resistência.

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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Bravatas

Castigue. Castigue quem demanda. Punição! Maus tratos para os loucos que querem mais do ser. Que despeito! Como pode alguém cobrar-me ser além, mais do que tenho a ofertar? E quando secar a fonte da vontade, que não me venha exigir complacência naquilo que dispõe-se a si mesmo.

Prenda! Prisão para os lunáticos da soberba. Que fiquem entre barras para provar a imagem fétida da solidão. A solidão em si mesmos. Fanáticos que exercem o poder do sentir sobre outrem. O poder de exigir mais a cada recusa sua própria.

Descaso. Ignore o que te enerva. É caso deste que falta o esquecimento e sobrepõem-se as lembranças. Exatos momentos de dor e ira trocados pelo não pensar. O vazio das possibilidades mais atraentes em vez das pesadas torturas do que já foi.

Desvie, sim, indivíduo! Desvie das pessoas tortas, entortadas pelo mundo, por sua visão produzida e falsificada. Mantenha distância dos seres ideológicos! Pessoas confusas estas que insistem em defender uma causa. Atordoada é a alma dos convictos.

Nenhuma verdade deve ser perdoada. Que as várias versões falem por si mesmas.

Abandone o apego pela alma alheia. Desprenda-se da posse concreta e aceite a conquista de fato do discernimento. Seja! Exista! Realize a existência do outro em si mesmo e na transferência de tudo o que acrescenta. Viva! E morra.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Nosso Mundo


Dia de colchão na sala. O lençol de elástico funciona perfeitamente esticando o conforto de brigas eternas no tamanho queem. Travesseiros travessos (vicissitude) amortecem a luz e a paz iminente.

Cinzeiros: dois. Copos: dois. Ao lado, a garrafa de coca-cola, o pote de pipoca e o prato de brigadeiro. Fome, sede e sono devem ser saciados sem o abandono do lugar. O nosso lugar.

O maço de Free e a caixinha de Lucky Strike se confundem na troca de risadas e divisão das funções de cada um – para que o tempo perdure. Preciosos momentos. Nosso mundo ao redor do colchão. Apenas nós dois. Nunca nada fez tanto sentido.

(...)

A televisão apresenta vários filmes, escolhidos e não impostos, sendo que o mais assistido está na sala. Fora da tela. Horas passam... e a vontade permanece (deleite). Momentos alguns para matar o calor e refrescar a alma. Aura instransponível.

A contagem do tempo se perde. Qualquer coisa, qualquer hora (randômico). Hora? Nenhuma opressão do relógio enquanto os dias nos pertencem. O nosso mundo, enquanto nosso.

Durante a claridade, acrescenta-se à cena o mundo exterior, que se movimenta tranqüilizante e aprazível. O vermelho do sofá contrasta com o verde das folhas e o amarelo da luz que entra através do pardo. Pardo como a gente.
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Diálogo 1

_ O que você vai fazer hoje?

_ Pelo visto nada... com essa chuva... E você?

_ Tinha pensado em fazer algo light... ver um filme... abrir um vinho...

_ Hummm... É um convite?

_ Não... Mas se você quiser me visitar... Seja bem-vindo.


Inegavelmente a intimidade é um dom divino. Um espelho da alma; da própria essência no outro. Luminosidade e alegria incendeiam os sentidos, em uma conversa contemplativa e concentrada de dois seres que são. Estão sendo.

São capazes, juntos, de abandonar as resistências intrínsecas ao indivíduo, que está acima de si mesmo (regozijo).

Terei de afirmar, contudo, que não é de Deus isso. Não mesmo. É do homem...

“Todos os nomes do bem e do mal são símbolos; não falam, limitam-se a fazer sinais. Louco é o que lhes quer pedir o conhecimento”, Assim Falou Zaratustra. (Nietzsche tinha problemas com as mulheres, apesar de enxergar através de muitas questões).

Pode ser coisa da vida. Que passa por nós e pegamos se quisermos. Se pudermos. Se tivermos chance.

A maior manifestação de troca de energia entre duas pessoas que emanam intensidade por si, entre si e para elas.

Amor imarcescível.
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domingo, 25 de janeiro de 2009

Ex-felicidade

Tudo bem. É difícil pra mim. Mas vou explicar. Tenho certeza que me fará bem. Vou botar tudo pra fora. E mexer lá dentro. Sem pudor. (Aliás, uma amiga comprou um cachorro e chamou de pudor. É um pinscher... mas ninguém disse a ela o tamanho do pudor que deveria ter... risos).

Rir é uma celebração à vida. Irriga o coração e faz o ser humano acreditar na felicidade. Nem que seja por alguns instantes. Instantes distribuídos pelas horas, dias, semanas, meses e (será?) até mesmo anos.

Ahhhh... agora, falar em felicidade, assim, felicidade em seu mais profundo significado. Quando a grandiosidade do sentimento eleva-te aos céus (suspiro). Acima. O ser humano fica satisfeito. Bobo. Feliz. Com aquele sorriso que denuncia a predileção por alguém.

Esse tipo de felicidade... (lembranças da sensação).

(...)

Existem pessoas (que não existem totalmente) pessoas que nem ao menos sentirão falta disto, por não terem idéia do que se trata. Outros acharão que já tiveram, mas não sabem. Ex-felizes falarão emocionados, com a lembrança eterna da melhor época de suas vidas. Poucos sortudos, sempre rindo, juntos, até a morte.

O mesmo sentimento que engrandece a alma quando encontrado deixa o ser humano no inferno se perdido. Trevas de meia-vida. Meia-felicidade.
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sábado, 24 de janeiro de 2009

Primeira Parte

Não sei. Quero falar sobre o assunto, mas não sei como começar nem se consigo terminar. Então, ficarei nos devaneios. Pelo menos esses são comuns e recorrentes.
Aliás, o ‘não saber’ em seu estado de espírito representa também coisas positivas. E por quê não? Mostra ausência de convicção. E quando se tem dúvida, são consideradas todas as possibilidades. Mas, não necessariamente. Não significa que está resolvido. Não mesmo.
Sim. Eu sinto. Sinto muito. O tempo todo. Não sei, mas sinto. E quero. Quero querer cada vez mais e mais. Mais e melhor. Melhor e sempre. Quando puder. Se isso é possível...
Eu tenho mesmo é que contar uma história, para que possa me fazer entendida. É um caso raro, que às vezes apenas acontece, apesar de bastante retratado. É a ironia da vida. Quando as circunstâncias não favorecem.
Angústia. Angústia de não poder prever. De não poder controlar o incontrolável. Sendo assim, então, por que a angústia, você me perguntaria. Eu diria: “Qual sensação você tem diante da morte?”.
A frustração de não controlar o incontrolável. A impotência de não poder ser. Não poder fazer. Não poder.

29 de setembro de 2006. Dia de desastre aéreo, que iniciou uma crise nos aeroportos brasileiros. Um Boeing 737-800 da Gol e um jato Legacy de uma empresa americana se chocaram nos ares. O Boeing caiu no norte do Mato Grosso. O Legacy conseguiu pousar numa base militar, no Pará.
Mortos: todos a bordo do avião da Gol. 154 pessoas (luto).

Ironia. “No mesmo dia, enquanto uns perdem suas famílias, outras famílias se formam.” (a frase não é minha, mas vou usar). O equilíbrio das coisas... sei lá. Vai entender... é a vida.
29 de setembro de 2006. Dia de bom encontro. Inesperado. Mútuo. Recíproco. Inebriante.
O primeiro olhar... Já era. Duas linhas se cruzaram e houve constrangimento. Não cabia. Eram duas pessoas, dois mundos, duas realidades. Era inexeqüível (ou não).
Sabíamos. Mas o “eu quero” foi mais forte que o “tu deves”. O que devemos? Acima de tudo, viver. Acima de tudo, continuar. Acima de tudo, correr o risco. Mais vale o suor depois da corrida e exaustão do que a secura da inércia.
Primeiro momento: contemplação.
OBS: Quando deixamos passar o momento de nossas vidas deve ser mais triste do que nunca tê-lo tido. E se meu avião caísse antes disso? Eu pedia pra sair. Ou melhor, voltar. Se é que reencarnação vai além da ficção e dos romances espíritas. Duvido. Mas, posso inventar. Afinal, estou escrevendo.

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